Coluna
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Por que Jesus nunca disse que era Deus, mas o “filho do homem”?

O Jesus que tantos usam hoje como um pretexto do poder que humilha e discrimina os diferentes, sentiu a fragilidade de todos os humilhados

Menino reza na Igreja do Santo Sepulcro, na Cidade Velha de Jerusalém.
Menino reza na Igreja do Santo Sepulcro, na Cidade Velha de Jerusalém.GALI TIBBON

Um dos temas mais controversos sobre Jesus de Nazaré, cujo Natal o mundo cristão se prepara para celebrar, é se Jesus em algum momento afirmou ser Deus. Embora possa causar estranhamento, acostumados ao que a oficialidade da Igreja Católica considera como tal, a verdade é que ele nunca se definiu assim. Ele se denominava “filho do homem”, que, em aramaico, a língua que ele e seus apóstolos falavam, significa simplesmente homem, uma definição certamente tirada do profeta Enoque.

Curiosamente, o primeiro a chamar Jesus de “homem” é Pôncio Pilatos, durante o processo que o levou à morte, quando depois de tê-lo submetido a tortura, apresenta-o à multidão, dizendo com sarcasmo: “Aqui está o homem!” Certamente não era a imagem de alguém que se sentia deus. Era um homem humilhado, sem poder, símbolo da fragilidade humana.

Não era um deus do Olimpo. Ele se sentia representante da Humanidade sofredora. Não se envergonhava de ser como todos nós, um projeto inacabado, um feixe de desejos inalcançáveis e, ao mesmo tempo, um coração capaz de produzir felicidade e sentir o mistério. Nascido na pobreza, lançou um grito pungente do alto da cruz. Foi um grito de partir o coração, não de quem se sente Deus e onipotente, mas esquecido por Ele e humilhado pelos homens.

Se ele se sentisse Deus, sua atitude naquela hora derradeira, não teria tido a necessidade de exigir contas da divindade: "Por que me abandonastes?”, gritou a Deus, ele que dizia de si mesmo, “filho do homem”, um como nós, sempre atento a defender a escória sofredora da humanidade. Aquele grito, da cruz, é o que faz daquele profeta judeu o melhor símbolo da nossa fragilidade humana e de nossa busca por resgate e esperança.

Aquele grito foi o mais emblemático da Humanidade. É o verso mais repleto de simbolismos e metáforas, de todos os que alguma vez na vida se sentiram obrigados a pedir contas a Deus. Aquele grito de quem se sentia o “filho do homem”, não serviu para eliminar a dor da terra, mas, sim, para tentar dar-lhe sentido.

Era o grito de seus compatriotas judeus dos campos de extermínio, dos injustamente perseguidos, o clamor de todos os torturados das ditaduras e das mães que choram pelos filhos sacrificados inutilmente nas guerras, dos que saem de todos os manicômios do mundo no desespero da psique torturada. O grito de medo de cada recém-nascido diante do mistério da vida.

O Jesus que tantos usam hoje como um pretexto do poder que humilha e discrimina os diferentes, sentiu a fragilidade de todos os humilhados e abandonados à sua sorte, vítimas da ganância humana.

Também daquela multidão de mulheres, homens e crianças maltratados e humilhados nas periferias do mundo, esses imigrantes rejeitados por todos, e esses milhões que neste Natal, de ponta a ponta do planeta, continuarão a perguntar ao poder: “Por que nos abandonastes?”

É difícil entender a parábola do Natal e gostarmos da doçura de suas festas sem incorporar num mesmo pulsar o nascimento daquele menino pobre e emigrante que, segundo a tradição, seus pais esconderam de Herodes, que queria matá-lo, e o seu trágico fim de condenado à morte como um mero malfeitor.

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