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Navio com minério encalhado no Maranhão ameaça envolver a Vale em nova tragédia ambiental

Ainda não há plano para liberar embarcação, operada por uma empresa sul-coreana e contratada pela mineradora para levar o produto à China. Marinha identificou manchas de óleo na região

O navio MV Stella Banner carregado com minério da Vale.
O navio MV Stella Banner carregado com minério da Vale.Marinha/Divulgação

Um acidente envolvendo o navio MV Stellar Banner ameaça envolver o nome da mineradora Vale em mais uma tragédia ambiental, a terceira em menos de cinco anos. A embarcação pertence à empresa sul-coreana Polaris Shipping e foi contratada pela mineradora para levar minério de ferro para a China. Na noite de segunda-feira o navio adernou, termo técnico para descrever um principio de naufrágio, a aproximadamente 100 quilômetros da costa de São Luís, no Maranhão. Para evitar o afundamento completo, o capitão encalhou o navio em um banco de areia. Imagens aéreas registradas pela Marinha do Brasil nesta quinta-feira mostram uma série de manchas escuras ao redor do convés, o que pode ser um indicativo de vazamento de combustível no mar. As autoridades brasileiras informaram que existem dois pontos de ruptura no casco, mas não detalharam o que está indo para a água. O Stellar Banner, que carrega cerca de 4 milhões de litros de óleo diesel e uma quantidade de minério de ferro não precisada pela Vale, deixou o terminal Ponta da Madeira, em São Luís, e deveria aportar em Qingdao, na China, no início de abril. Técnicos do Ibama devem chegar ao local ainda nesta quinta-feira para avaliar a situação.

Até o momento não há um plano de contenção definido: segundo a Agência Brasil foi criado um gabinete de crise em Belém e no Rio de Janeiro nesta quinta-feira para monitorar a situação. Em nota divulgada na manhã desta quinta-feira a Marinha afirmou que pretende “apresentar tão logo possível o Plano de Salvatagem (procedimento de resgate após o desastre) desta embarcação”. A Vale informou ter solicitado à Petrobras a cessão de “navios Oil Spill Recovery Vessel (OSRV, ou navios de recuperação para vazamentos de óleo) para contenção de eventual vazamento”, e disse ter contratado “especialistas em salvatagem para acelerar o plano de retirada do óleo da embarcação". Já a empresa sul-coreana disse que a situação está “sob controle”.

Além do potencial vazamento de combustível, que teria impacto devastador na fauna e flora da região que ainda lida com as consequências de milhares de manchas de petróleo que apareceram no litoral no final de 2019, o minério de ferro também representa um risco. “Este metal induz o crescimento acelerado do fitoplâncton, uma vez que acelera seu metabolismo, e com isso há um maior consumo de oxigênio, e consequentemente uma redução de sua disponibilidade para outras espécies”, explica o professor Marcelo Jannini, diretor da faculdade de Química da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Soma-se a isso o fato de que o minério de ferro exportado não costuma ser 100% puro. “É comum haver também a presença de metais pesados, como manganês, arsênio, chumbo, cromo e alumínio”, diz Jannini. Estes materiais tendem a ficar depositados no leito do mar, mas dependendo da agitação da água podem ficar em suspensão e contaminar peixes e outras espécies.

Esse pode ser tornar o terceiro acidente ambiental envolvendo a Vale nos últimos cinco anos. Em seu balanço oficial divulgado no dia 20, a empresa anunciou perdas de 6,6 bilhões de reais em 2019 por causa do desastre de Brumadinho, que matou 270 pessoas em janeiro do ano passado após o rompimento de uma barragem em Minas Gerais. Parte da cúpula da companhia é acusada por homicídio doloso. Em 2015 outra tragédia marcou a história da mineradora: o rompimento de uma barragem em Mariana, também em Minas, deixou 18 mortos.

A Marinha informou que as causas do acidente ainda não foram identificadas e que já “instaurou um inquérito administrativo para apurar causas, circunstâncias e responsabilidades do incidente”. Em nota, a Vale informou que a tripulação de 20 pessoas foi retirada em segurança, e que o capitão da embarcação a encalhou propositalmente em um banco de areia para evitar um naufrágio completo. A empresa também enviou navios rebocadores ao local para prestar auxílio técnico. A Polaris afirmou que os porões de carga estão intactos e que as avarias que levaram ao adernamento ocorreram em um tanque vazio. O MV Stellar Banner tem pouco mais de 340 metros de comprimento e pode transportar até 300.000 toneladas de minério. A Vale não informou qual a carga total no momento do acidente.

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