A furiosa antifeminista que freou os direitos da mulher enquanto os aproveitava

“Muito conservadora até para os ultraconservadores”, Phyllis Schlafly conquistou eleitores defendendo que as mulheres deveriam permanecer no lar, enquanto ela, esposa e mãe, percorria os Estados Unidos difundindo seus ideais. Agora, Cate Blanchett a interpreta na série ‘Mrs America’

A ativista Phyllis Schlafly se manifestando contra a Emenda pela Igualdade de Direitos em frente à Casa Branca em 4 de fevereiro de 1977.
A ativista Phyllis Schlafly se manifestando contra a Emenda pela Igualdade de Direitos em frente à Casa Branca em 4 de fevereiro de 1977.Warren K. Leffler

No auge de seu poder, quando ela discava o número de Ronald Reagan na Casa Branca, o presidente jamais deixava passar os seus telefonemas. Ele sabia que tinha que atender Phyllis Schlafly. Não só isso: gostava de conversar com ela. Os dois se tornaram grandes amigos durante a primeira campanha de Reagan como presidenciável, que Schafly tinha apoiado desde o início.

Essa é Phyllis Schlafly, uma das mulheres mais influentes na história do Partido Republicano dos EUA, a quem o canal FX dedica agora a série Mrs America, protagonizada por Cate Blanchett e exibida no Brasil pela HBO. Ela é praticamente uma desconhecida para quem não está familiarizado com a tradição política norte-americana, mas determinou uma grande parte dos valores do movimento ultraconservador norte-americano: a família como elemento central, e o repúdio ao feminismo, ao aborto e ao casamento homossexual. Acima de tudo, ela foi a principal promotora do resgate da ideia de que a mulher é basicamente uma cuidadora e mãe, antes que trabalhadora.

A vida, o trabalho e inclusive a imagem de Schlafly parecem concebidas por um especialista em imagem conservadora: atraente, mãe de seis filhos, em um casamento estável e defensora de valores tradicionais, Schlafly era o cartão-postal perfeito para uma campanha orquestrada pelos republicanos para recuperar um protagonismo perdido. Assim poderia ser lida, mas seria um erro: Schafy não foi um estratagema, e sim uma líder política fundamental, uma estrategista brilhante e, sobretudo, uma ideóloga popular que conseguiu um grande eco junto ao eleitor norte-americano médio.

Sua origem explica em grande parte sua trajetória ideológica. Phyllis Stewart foi o produto de uma família sulista do Missouri castigada pela depressão econômica da década de 1930. Criou-se em um ambiente católico que lhe inculcou a ideia do esforço e o trabalho. Durante a Segunda Guerra Mundial, com apenas vinte anos, como depois contaria orgulhosa, foi contratada como técnica de balística na maior fábrica de munições do mundo. Foi uma universitária destacada: obteve um mestrado em política governamental na prestigiosa faculdade Radcliffe (numa época em que Harvard ainda não aceitava mulheres) e pouco depois conheceu e se casou com o advogado John Fred Schlafly Jr., de uma rica família da Saint Louis. Anos mais tarde, se doutoraria em direito.

A história oficial diz que, depois de se casar, Phyllis Schlafly se retirou para exercer o papel de mãe de família e dona de casa enquanto criava seus seis filhos, mas isso contradiz frontalmente a realidade. O fato é que Schlafly logo foi picada pelo inseto da política: trabalhou em campanhas para a eleição de governadores republicanos no final dos anos 1940 e escreveu panfletos anticomunistas durante o macartismo. Em 1952 foi candidata republicana ao Congresso, e perdeu. Contrariamente ao que mais tarde defenderia, muitos de seus partidários a recordam, deleitados, fazendo campanha grávida ou amamentando algum de seus filhos.

Pouco a pouco ―“Como um hobby”, se desculparia― Phyllis Schlafly se tornou um ativo em alta. Seu livro A Choice Not an Echo (“uma escolha, não um eco”), que exortava o partido republicano a se afastar do “establishment da Costa Leste” ―como Henry Kissinger, a quem detestava―, vendeu três milhões de exemplares e lhe deu a plataforma de que necessitava. Nos anos sessenta começou a percorrer o país em favor das ideias ultraconservadoras que começavam a emergir em um setor do partido. Embora fosse uma das mais férreas defensoras do candidato Barry Goldwater, e tenha feito campanha por ele em todo o país, teve detratores entre suas fileiras e não obteve sua confiança: era conservadora demais até para os ultraconservadores.

Mas Schlafly entrou para a história de vez em 1972, quando encabeçou a campanha contra a chamada Emenda da Igualdade de Direitos (ERA, na sigla em inglês), uma iniciativa destinada a incorporar à Constituição a garantia de igualdade entre homens e mulheres. O que parecia uma batalha ganha desde o início pelos democratas se tornou um debate que perdurou até a década de oitenta, quando morreu de tédio. Àquela altura, a maioria dos norte-americanos associava a emenda ao serviço militar obrigatório para as mulheres, a banheiros mistos e a direitos LGTB. Por quê? Porque Schlafly se encarregou de que fosse assim. Ambiciosa, inteligente e muito sedutora, Phyllis tinha percorrido todo o país e se tornou o flagelo das feministas. Seu discurso populista de tradição e estabilidade familiar, exortando as mulheres a escolherem a felicidade no matrimônio e no lar, criou um movimento de base que fez vários Estados mudarem de opinião e a transformaria na arma secreta do partido. Pelo caminho levou algumas tortas midiáticas na cara e enfrentou o ódio encarniçado dos defensores dos direitos civis.

Durante anos, até sua morte, em 2016, o lobby fundado por ela, chamado Eagle Forum, defenderia os valores ultraconservadores do Partido Republicano. Mas não estava isenta de contradições: a autodenominada dona de casa que exortava as mulheres a ficarem no lar para cuidarem de seus filhos percorreu durante décadas os Estados Unidos, escreveu mais de uma dúzia de livros e teve uma governanta que se encarregou da criação de seus seis filhos. Nas palavras de sua oponente, a feminista Karen DeCrow, “era uma mulher extremamente liberada”.

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