Pandemia de coronavírus

Brasil rebate OMS sobre eficácia de testes em massa de coronavírus para controlar doença

Para Governo e especialistas, isolamento é a melhor medida para evitar a propagação da doença. Orientação da entidade, testagem em larga escala funcionou em países como Coreia do Sul

Turistas no último dia 13 tiram foto no Cristo Redentor, usando máscaras.
Turistas no último dia 13 tiram foto no Cristo Redentor, usando máscaras.Antonio Lacerda / EFE

A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou nesta segunda-feira que a realização de testes em larga escala em casos suspeitos do coronavírus e o isolamento dos doentes são a fórmula para se conter a pandemia. “A mensagem central é: testar, testar e testar”, afirmou a médica Maria Van Kerkhove, do programa de emergência sanitária da entidade, durante uma entrevista coletiva. “Você não consegue parar essa pandemia se não souber quem está infectado”. A mensagem é uma novidade diante do que o Governo brasileiro vinha adotando até o momento, de testar somente os casos mais graves e com necessidade de internação.

Por isso, a orientação pegou as autoridades brasileiras de surpresa. “Não estávamos esperando por essa determinação”, afirmou o secretário de Saúde do Estado de São Paulo, José Henrique Germann, em entrevista coletiva no início da tarde. “Estou surpreso entre o mundo ideal e o mundo real. Uma coisa é disponibilizar testes, a outra é realizar testes”, disse o infectologista David Uip, coordenador do Centro de Contingência para o Coronavírus de São Paulo. “Vamos ver como o ministro da Saúde [Henrique Mandetta] reage a essa situação”, completou Uip. Em Brasília, João Gabbardo, secretário-executivo do Ministério da Saúde, respondeu mantendo a política que o país já estava adotando: “Vamos manter a nossa posição, [que é] testar nos locais onde tiver transmissão comunitária os casos graves e [de pessoas] internadas”, disse. “Me estranha muito a OMS recomendar dessa maneira uma vez que os insumos são insuficientes para testar todo mundo”.

Testes em massa foram realizados por países que conseguiram controlar a pandemia. É o caso da Coreia do Sul, que, desde o primeiro momento da doença no país, adotou um agressivo plano para fazer exames que identificassem o SARS-CoV-2 (nome do vírus que causa a doença Covid-19). Por isso, realizou testes não somente em quem apresentava os sintomas da doença, como também em qualquer pessoa que tivesse tido contato direto com algum caso confirmado. O Governo sul-coreano também passou a ir até a casa dos pacientes possivelmente infectados para tentar barrar o contágio aos demais. Assim, realiza mais de 15.000 testes por dia.

Além dessa experiência no país asiático, uma pesquisa realizada por cientistas chineses e norte-americanos apontou que os infectados não detectados aceleraram a explosão dos casos da doença na China. Por meio de um modelo matemático, os cientistas conseguiram mostrar que a maioria dos contágios na China foi realizada por doentes não detectados. E que apenas depois do confinamento é que esses infectados invisíveis reduziram seu potencial de propagação do vírus.

Para a infectologista Rosana Maria Paiva dos Anjos, especialista em saúde pública e professora da PUC São Paulo, a única coisa capaz de conter, de fato, essa pandemia é o isolamento e não necessariamente a confirmação da doença. “Como infectologista eu tenho certeza de que o melhor é fazer testes somente nos pacientes graves. Os que estiverem com quadro respiratório, permaneçam em suas casas, não circulem, usem máscaras e lavem as mãos”, afirma. “Fazer testes indiscriminadamente só vai gerar pânico e mais custos para o sistema de saúde”.

Nesta segunda-feira, João Doria (PSDB), governador de São Paulo, Estado que é o epicentro da doença e o local onde foi registrada a primeira morte no país, anunciou medidas de contenção. Museus e centros culturais fecharão, cirurgias eletivas nos hospitais públicos foram adiadas e, na capital, o prefeito Bruno Covas (PSDB) decretou estado de emergência, com uma série de medidas, como a suspensão do rodízio de automóveis, a proibição de qualquer evento público ou privado e um esquema de turnos e home office para os servidores. A cada dia, o número de casos de coronavírus aumenta de 40% a 50% no município, informou Covas.

Racionalização de testes

De acordo com Mauricio Zuma, diretor do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz), cerca de 10.000 testes para o coronavírus já foram realizados pela rede pública em todo o país até o momento. Nesta segunda-feira, a unidade, responsável por distribuir os kits de testes e realizar o processamento do material coletado em toda a rede pública, enviou mais 6.000 novas provas para que o Ministério da Saúde repassasse aos hospitais. Para Zuma, a política do Governo deve continuar sendo a mesma. “Eu acredito que a prioridade agora não deve ser testar todos os suspeitos e, sim, os casos em que já há uma avaliação clínica, ou uma suspeição grande”, afirmou.

Embora a OMS tenha informado que distribui milhares de testes aos países mais afetados, o ministério afirma que não recebeu, até o momento, nenhum. Para Zuma, a questão agora não é a quantidade de testes e sim a capacidade de processar os resultados. “A rede hoje ainda não está preparada para um processamento muito grande de amostras”, disse. Atualmente, o Brasil tem uma capacidade estimada de processar cerca de 1.450 amostras por dia, em seus 26 laboratórios, além dos três centros de referência.

Mas, segundo Zuma, o plano é de ampliar essa capacidade de análise, chegando ao processamento de mais de 3.000 amostras por dia em abril, e cerca de 4.500 por dia em maio. “Para isso teremos que aumentar os turnos de trabalho”, afirma ele. A ideia é também tentar acelerar o resultado, que hoje leva cerca de quatro horas para ficar pronto. Para isso, além de recursos para o aumento no número de pesquisadores, a luta contra a pandemia esbarra em outra questão: muitos dos insumos necessários para realizar a prova são importados. “Os insumos mais críticos são importados e muito caros, a maioria vindo da Europa. Com o câmbio alto e o preço no mercado por conta da alta demanda, corremos o risco de não ter insumos suficientes no mercado”, diz.

A corrida contra o relógio não é só um problema para a rede pública de saúde. Nesta segunda-feira, o hospital Albert Einstein em São Paulo informou que estava adotando uma medida de racionamento de testes. Suspendeu a realização das provas em indivíduos assintomáticos, sintomáticos leves, com pedido médico de fora do hospital e também a coleta domiciliar de amostras para a execução do teste. O objetivo, segundo a assessoria de imprensa do hospital, é usar o recurso apenas nos casos graves, que necessitam de internação. A medida foi tomada como forma de racionalizar a utilização do teste e evitar seu desabastecimento. O hospital afirma ter capacidade de realizar cerca de 3.500 testes por dia. E que o número de exames diários aumentou gradualmente, atingindo a marca de 1.700 no último fim de semana. Além disso, o prazo para o resultado do exame para detectar o coronavírus foi ampliado para sete dias úteis, por causa da alta demanda.

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