Pandemia de coronavírus

O coronavírus pisa nos calcanhares dos povos originários

Primeiros contágios entre indígenas da América Latina são confirmados, mas faltam dados, remédios e alimentos para atender às populações ameaçadas

Uma família da etinia Sateré Mawé na aldeia Vila Nova, Terra Indígena Andirá Marau, no Amazonas.
Uma família da etinia Sateré Mawé na aldeia Vila Nova, Terra Indígena Andirá Marau, no Amazonas.Luna Gámez
Luna Gámez
Rio de Janeiro - 14 abr 2020 - 20:31 UTC

Um dos maiores temores frente à pandemia do novo coronavírus foram confirmados: sua chegada aos povos ameríndios. Até o momento, as autoridades sanitárias de três países da América Latina confirmaram 12 contágios e cinco mortos entre os povos originários, sendo dois deles residentes em cidades e os outros três em áreas rurais indígenas. Entre os mortos pela Covid-19 figura um adolescente yanomani de 15 anos, além de um integrante de etnia Mura, outra pessoa da etnia Kokama e um idoso dos Tikuna.

Além disso, as autoridades sanitárias brasileiras anunciaram em 30 de março que os resultados da autópsia de uma mulher da etnia Borari, na área urbana do interior do Pará, mostraram que o coronavírus foi a causa da sua morte. A revelação acende os alarmes sobre um possível risco de contágio no coração da Amazônia, porque o velório da anciã, de 87 anos, reuniu centenas de pessoas de várias comunidades, sem nenhuma medida preventiva. Um dos participantes deu resultado positivo nos exames e está internado com sintomas graves na UTI de um hospital de Santarém (PA), a cidade mais próxima, onde só há 20 leitos.

O Brasil é o país com maior concentração de contágios confirmados entre populações ancestrais: nove casos testados e outros 24 suspeitos, segundo os últimos dados (12 de abril) da Secretária Especial de Saúde Indígena (SESAI), do Ministério da Saúde. O primeiro caso de Covid-19 encontrado no Brasil entre os indígenas foi o de uma mulher da etnia Kokama que trabalha como auxiliar de saúde no município de Santo Antônio do Içá (AM) e esteve em contato com um médico não indígena que atende na região e que também deu positivo. Seis indígenas das etnias Kokama e Tikuna da região do Alto Solimões que estiveram em contato com algum desses dois profissionais da saúde deram positivo – além dos dois mortos dessas etnias – e cerca de outros 30 estão em observação.

Esta situação revela um risco triplo para os povos ameríndios: primeiro, uma possível vulnerabilidade física frente ao contágio; segundo, a exposição frente à chegada dos médicos externos às suas aldeias; e, em último lugar, o isolamento de muitos deles, que vivem em áreas muito distantes dos centros urbanos onde estão os hospitais.

Na selva do Peru também um indígena deu positivo no exame de coronavírus. Trata-se de um líder quéchua que voltava da Holanda após denunciar a contaminação provocada pelas atividades que a empresa Pluspetrol realiza na Amazônia peruana, perto da sua comunidade. E na Colômbia foram localizados os demais casos confirmados de indígenas contagiados, em meio a polêmicos critérios de contagem. Embora as autoridades sanitárias colombianas confirmem dois casos na localidade de El Pasto, fronteiriça com o Equador, a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC) inclui também outros dois contágios em uma comunidade da etnia Yukpa. A confirmação de casos de afetados cresce lentamente até o momento, mas organizações indigenistas suspeitam que a incidência da pandemia dentro dos povos originários pode estar sendo subestimada.

As doenças da pobreza

“A vulnerabilidade dos povos indígenas frente a doenças como a Covid-19 não é o resultado de um fator biológico, e sim da desigualdade nas condições de vida destas pessoas”, diz Simone Eloy Terena, assessora de política indigenista na Câmara dos Deputados e indígena da etnia Terena de Mato Grosso do Sul. A diabete é uma das doenças mais comuns entre os povos originários e afeta a mais de metade da população indígena do planeta com 35 anos ou mais, assim como também são comuns a tuberculose, a malária, o HIV e a desnutrição, entre outras vulnerabilidades sanitárias mencionadas pelo Departamento de Povos Indígenas das Nações Unidas. “Estas agravantes nos tornam mais vulneráveis ao coronavírus, e nos preocupa como a pandemia pode se comportar em nossos povos”, declara essa líder indígena formada em antropologia, que anteriormente trabalhava com saúde comunitária em comunidades amazônicas.

No Brasil, a SESAI – que é um serviço de saúde diferenciado para as populações indígenas, mas dependente do SUS – garante que as equipes médicas percorram as aldeias dessas minorias para prestar serviços sanitários temporários, com acesso a testes rápidos da Covid-19. O objetivo é evitar que os indígenas tenham que se deslocar às cidades. Porém, frente às ameaças da pandemia, o tempo de permanência de cada médico em uma aldeia aumentará, mas a frequência de chegada de pessoal sanitário será reduzida, porque os profissionais deverão guardar duas semanas de quarentena entre uma visita e outra.

Não obstante, em outros países, como na Guiana Francesa, os médicos que trabalham em certas comunidades não têm nem sequer acesso a telefone por satélite para informar sobre possíveis casos com necessidade de hospitalização, conforme conta Claudette Labonté, indígena da etnia palikur e representante da Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA). Já na Venezuela e Equador, os povos originários não têm uma cobertura sanitária garantida, como denuncia José Gregorio Díaz Mirabal, coordenador-geral da COICA e membro do povo indígena wakuenai kurripako.

Neste momento, a falta de exames de coronavírus é um dos elementos que mais preocupam o pessoal sanitário em escala mundial. De acordo com Douglas Rodrigues, médico especializado em saúde indígena, a única estratégia possível para proteger os povos originários atualmente consistiria em testar todas as pessoas que estão entrando em suas terras. “O chamado à quarentena pegou muitos deles trabalhando na cidade ou visitando familiares, a recomendação é que guardem um mínimo de sete dias de isolamento antes de voltar a entrar em suas comunidades, mas muitos deles não têm casa na cidade”, diz esse médico ligado ao Projeto Xingu, que atua na maior terra indígena delimitada no Brasil e é pesquisador da Universidade Federal de São Paulo. “Se o Estado não garante condições adequadas de isolamento para estas pessoas, não restará alternativa senão se arriscar e voltar para suas aldeias”, explica Rodrigues.

As aldeias indígenas se blindaram frente à pandemia

Os povos originários representam 8,5% dos habitantes da América Latina. Com os piores indicadores de saúde, educação e emprego, os indígenas representam 30% da população em situação de extrema pobreza, de acordo com um relatório publicado em fevereiro deste ano pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Entre eles, “os mais vulneráveis são os que residem em áreas urbanas e poderão ser os mais invisibilizados pelos efeitos tanto sanitários como socioeconômicos do coronavírus”, diz Díaz, da COICA.

Os indígenas que vivem em aldeias rurais tiveram como se isolar em suas comunidades para tentar evitar a entrada do vírus. A maioria destes povos declarara seu isolamento total como forma de proteção frente à Covid-19. “Dada a ausência dos maus governos, exortamos a todas, a todos e a todas, no México e no mundo, a tomarem medidas sanitárias necessárias que, com bases científicas, permitam-lhes sair com vida desta pandemia”, propõe um comunicado do Exército Zapatista de Libertação Nacional, ao decretar o alerta vermelho em povoados, comunidades e bairros sob seu controle no sul do México. Através dessa circular, o povo zapatista declarou em 17 de março o fechamento total dos chamados caracoles, povoados com organização comunitária própria, muito antes que o presidente do país, Andrés Manuel López Obrador, tomasse medidas contundentes contra o coronavírus. López Obrador foi, junto com seu homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, um dos últimos mandatários latino-americanos a reagirem à chegada da pandemia. Só em 31 de março o México decretou estado de emergência sanitária nacional.

O isolamento, embora tenha sido adotado de forma voluntária pelos povoados para se protegerem, implica um risco de desabastecimento para muitas comunidades já habitualmente abandonadas pelos poderes públicos. “Algumas aldeias indígenas do Equador estão no limite, se isto se prolongar durante mais uma semana ficarão sem alimentos”, afirma Diaz, da COICA, destacando que muitas localidades não têm acesso a água potável. Este líder do movimento indígena latino-americano reivindica que os governos concedam um salvo-conduto às organizações indigenistas avalizadas para que auxiliem as famílias isoladas com suprimentos de comida, remédios e água potável, respeitando os protocolos sanitários.

Até agora, a única ajuda que puderam prestar para a prevenção do contágio são campanhas de comunicação à distância nas línguas indígenas das populações com acesso à Internet. Além disso, a COICA exige planos públicos integrais que incluam medidas econômicas para compensar os indígenas que não possam trabalhar. “As medidas das cidades não estão chegando às comunidades indígenas”, acrescenta Díaz.

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