Política brasileira
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A extravagante mania dos presidentes brasileiros de fazer política no exterior

Lula está percorrendo vários países da Europa, onde já atua como candidatíssimo à presidência e é recebido como tal. Já Bolsonaro, no Oriente Médio, arruma problemas com o PL, partido que pretende integrar pensando nas eleições

O presidente Jair Bolsonaro com sua delegação em Nova York, em setembro.
O presidente Jair Bolsonaro com sua delegação em Nova York, em setembro.STEFAN JEREMIAH (Reuters)

Existe entre os presidentes brasileiros a extravagante mania de aproveitar, quando estão no exterior, para conversar com jornalistas locais a respeito de questões polêmicas e de grande importância sobre as quais não falam dentro do país. Isso ocorreu no passado com os ex-mandatários Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, e agora acontece com Jair Bolsonaro, em seu tour por países árabes, e novamente com Lula, que está na Europa fazendo campanha eleitoral antes mesmo de oficializar se será ou não candidato à presidência na eleição do próximo ano, como bem comentou meu colega Afonso Benites, correspondente do EL PAÍS em Brasília.

Lula não apareceu em público nem mesmo nas manifestações do “Fora Bolsonaro” e não saiu às ruas para se encontrar com as pessoas. Está, porém, percorrendo vários países da Europa, onde já atua como candidatíssimo à presidência e é recebido como tal. É nesses países que ele está abordando os graves problemas que afligem o Brasil e até as polêmicas de política externa, como as complexas relações do PT com o que está ocorrendo na Nicarágua e em Cuba, assuntos que o petista não tem comentado.

Bolsonaro, por sua vez, em visita a países do Golfo Pérsico, envolve-se de lá na polêmica sobre o novo namoro político com o PL de Valdemar Costa Neto, com o qual já tinha decidido até o dia do casamento. De repente, pediu que a cerimônia fosse adiada porque não tem certeza se ama o possível futuro companheiro. Bolsonaro, até então, estava solteiro politicamente. Era um estranho chefe de Estado sem partido, algo único nos governos democráticos do mundo. Abandonou o partido que o levou à vitória porque não conseguia dominá-lo como queria, e ficou viúvo. Pretendeu criar um novo que pudesse chamar de seu e manipular à vontade, como é normal em seus afãs ditatoriais, mas não conseguiu as 500.000 assinaturas necessárias.

Como não podia esperar mais, já que para disputar a reeleição precisa estar ligado a algum partido, decidiu sair em busca de uma noiva para se casar de novo. Bolsonaro ganhou a eleição jurando que acabaria com a velha política corrupta. Depois de eleito, entre idas e vindas, acabou se apaixonando pelo PL, considerado um dos partidos com mais corruptos por metro quadrado. Seu presidente e dono, Valdemar Costa Neto, já esteve na prisão pelo mensalão.

Quando os seguidores mais fervorosos de Bolsonaro manifestaram perplexidade por ter escolhido o PL, o presidente respondeu mal-humorado: “Querem que eu converse com o PSOL, com o PCdoB?”. O casamento foi finalmente marcado para o próximo dia 22 em Brasília, com muito alarde. Uma das partes, o PL, sabia que se casaria com um milionário, dono dos cofres do Estado. Assim, anunciou que as bodas seriam um acontecimento em Brasília, com mais de 1.500 personalidades convidadas de todo o país. Tudo isso até que, de repente, dos países árabes onde se encontra, Bolsonaro enviou na noite de domingo uma mensagem pedindo que o casamento fosse adiado porque não tinha certeza se queria se casar, já que ainda tinha algumas dúvidas por resolver.

A notícia surpreendeu até o mundo político mais experiente, acostumado às grandes traições e às noites congressuais das facas longas. Ainda é possível que o PL acabe fazendo as últimas concessões para não perder o rico casamento de luxo, ou que o volúvel presidente o deixe esperando no altar. Bolsonaro, durante 30 anos em nove partidos diferentes no chamado de baixo clero, que se conformam com as migalhas da corrupção das mesas dos banquetes dos cardeais dos grandes partidos, nunca foi fiel às siglas pelas quais passou. A infidelidade política está em sua genética.

Dias atrás, o presidente, diante de seu gabinete e ao lado de sua esposa, Michelle, fez às gargalhadas um comentário de mau gosto com o qual nenhum dos presentes conseguiu rir. Conto, em seu melhor estilo machista, que já tinha dado um “bom dia muito especial para ela”. É possível que o capitão acabe se casando politicamente com seu novo amor, o PL. Será, no entanto, como preveem os comentaristas políticos de Brasília, mais um casamento de compromisso que poucos apostam que durará até a eleições de outubro, se é que chega a ser consumado.

A fidelidade política do presidente tem a força de um fio de cabelo movido pelo vento. E esse é o drama do Brasil: ser governado em um dos momentos mais críticos e amargos de sua história por alguém que não inspira confiança e segurança para sair da crise. O país está nas mãos, para ser elegante, de um adolescente caprichoso que ainda não sabe se quer ser adulto ou continuar brincando como uma criança que nunca termina de crescer e em quem é difícil confiar. Muito menos quando teima em continuar no timão do barco que está afundando.

No entanto, também é possível, como apontam alguns comentaristas políticos, que Bolsonaro tenha algumas dúvidas sobre a fidelidade do PL. Se a sigla conseguirá ser fiel a ele até a reeleição, que é seu único sonho, ou se o abandonará antes caso veja que chega à votação enfraquecida. A infidelidade política do partido escolhido pelo presidente viúvo sempre foi conhecida, assim como a dos demais partidos do Centrão, os mais envolvidos em corrupção e especialistas em se entregar a quem oferecer mais.

No caso do novo amor político de Bolsonaro, o partido que vier sabe que terá de se casar não só com ele, mas também com seus três filhos, igualmente gulosos por cargos e vantagens. Não por acaso, a decisão de adiar o casamento chegou de Dubai, onde o presidente está com dois de seus filhos que querem ser pelo menos padrinhos das bodas políticas, com exigências bem concretas.

De fato, ainda é uma incógnita se o Brasil é governado realmente pelo capitão ou por seus filhos, todos eles emulando o pai em seus arroubos golpistas e fascistas, e militando em partidos do Centrão e seus apetites pouco republicanos. O presidente já levou seus filhos com ele para 11 países em viagens oficiais de Estado. Dá a impressão de que, no fim das contas, Bolsonaro toma as decisões políticas importantes ouvindo a prole. Não por acaso, em uma das reações grosseiras de seu novo affair político ao adiamento das bodas, o presidente do PL, Costa Neto, teria respondido, segundo o site O Antagonista: “Vai tomar no c... você e seus filhos”. Tudo muito elegante nesse submundo da política, enquanto o país, que busca paz e poder viver em harmonia, luta por um trabalho que permita dar de comer a seus filhos.

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