Governo Bolsonaro
Coluna
Artigos de opinião escritos ao estilo de seu autor. Estes textos se devem basear em fatos verificados e devem ser respeitosos para com as pessoas, embora suas ações se possam criticar. Todos os artigos de opinião escritos por indivíduos exteriores à equipe do EL PAÍS devem apresentar, junto com o nome do autor (independentemente do seu maior ou menor reconhecimento), um rodapé indicando o seu cargo, título académico, filiação política (caso exista) e ocupação principal, ou a ocupação relacionada com o tópico em questão

Jesus é a bandeira antibolsonarista

Cristo não era um super-herói. Ele se comovia com a dor alheia. Não mandava matar. Ressuscitava os mortos. O Jesus verdadeiro, não aquele que ressoa na boca de Bolsonaro e seus motoqueiros, é o símbolo da vida

Apoiadores de Jair Bolsonaro levantam as mãos em oração após passeio de moto em São Paulo.
Apoiadores de Jair Bolsonaro levantam as mãos em oração após passeio de moto em São Paulo.AMANDA PEROBELLI (Reuters)
Mais informações
-FOTODELDÍA- BRA111. BRASÍLIA (BRASIL), 07/07/2020.- El presidente de Brasil, Jair Bolsonaro (i), se pone una mascarilla durante una ceremonia oficial, el 9 de junio de 2020, en el Palacio do Alvorada, en Brasilia (Brasil). Durante los últimos meses, Bolsonaro ha desafiado casi a diario al virus, al que llegó a calificar de "gripecita", circulando por las calles en plena cuarentena, al asistir a actos públicos sin la máscara preceptiva, abrazando y besando a partidarios sin cuidado alguno y con un desdeño constante frente a la enfermedad. Este martes, el mandatario ha informado de que ha dado positivo de COVID-19 y ha comenzado a ser tratado con cloroquina. EFE/ Joédson Alves
Saiba por que é preciso ignorar Bolsonaro e continuar a usar máscara mesmo vacinado contra a covid-19
O ministro da Defesa, Raul Jungmann.
Jungmann: “Não punir Pazuello no Exército incentiva a anarquia. Não tem meio-termo”
Brazil's President Jair Bolsonaro adjusts his protective face mask during a ceremony of signing the Vaccine Technology Transfer Agreement for Oxford/AstraZeneca coronavirus disease (COVID-19) vaccines, in Brasilia, Brazil, June 1, 2021. REUTERS/Ueslei Marcelino
Comunicação do Governo priorizou economia à saúde no combate à pandemia, revelam documentos da CPI

Já antecipo que esta não é uma coluna de humor, mas uma reflexão irônica sobre o uso e o abuso que o presidente Bolsonaro está fazendo de Jesus. A marcha motorizada deste sábado em São Paulo, batizada por parte dos apoiadores de “Acelera para Cristo com Bolsonaro”, para a qual os evangélicos foram convidados, me lembrou do realismo mágico do escritor García Márquez. Algo irreal que revela como Jesus se tornou entre os bolsonaristas negacionistas um fetiche para tudo, exceto para o consolo dos que choram e morrem sozinhos e esquecidos.

Jesus, o verdadeiro, não aquele que ressoa na boca de Bolsonaro e seus motoqueiros, é o símbolo da vida e não da morte, da verdade e não da mentira. É o Jesus dos sem-teto e sem comida. O dos esquecidos e desprezados. É o símbolo do silêncio que cura e não do ruído que mata.

O Cristo da marcha ruidosa dos motociclistas de Bolsonaro é uma fake news das que o capitão machista e suas tropas armadas tanto gostam. O Jesus da marcha desapareceu de repente. Deram-se conta quando, na ausência do general Pazuello para convidá-lo a subir ao palco, Bolsonaro chamou Jesus. Sua surpresa foi que ele havia desaparecido.

O capitão reformado convocou seu enxame de policiais para que fossem procurá-lo. Onde poderia estar? Em algum bairro nobre da rica São Paulo? Em alguma favela? Em algum templo evangélico?

Apoie a produção de notícias como esta. Assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$

Clique aqui

Nem mesmo a poderosa polícia de Bolsonaro conseguia encontrar Jesus. Até mobilizaram a polícia secreta. Nada. Perguntaram até aos mendigos. Ninguém o tinha visto.

De repente, espalhou-se a notícia de que Jesus havia aparecido. Acabara de ser encontrado por um médico em um hospital do SUS na periferia pobre de São Paulo. Estivera à cabeceira de uma mulher negra, intubada e amarrada à cama por falta de oxigênio.

Bolsonaro imediatamente quis saber mais detalhes sobre como Jesus a havia curado, se tinha sido com cloroquina. O médico e as enfermeiras juraram que Jesus não tinha dado nenhum remédio à doente, que segurou a cabeça dela nas mãos e lhe deu um beijo na testa, dizendo: “Mulher levanta-te e anda”. E a mulher ficou curada.

Bolsonaro insistiu em saber o que Jesus havia dado à mulher intubada. Uma enfermeira, falando quase sem abrir a boca, com medo, sussurrou: “Ele a curou com um gesto de amor”. Bolsonaro se irritou e comentou: “Não conheço esse remédio do amor. Com certeza ele lhe deu o que combate os piolhos”. E perguntou ainda se Jesus usava máscara. Disseram-lhe que sim e, então, fazendo uma de suas caretas típicas, ele afirmou, taxativo: “Então não era Jesus. Ele não é covarde. É macho”. Jesus era um profeta destemido. Chamou de “raposa” o imperador Herodes, que tentou impedi-lo de pregar para seu exército de doentes, leprosos, cegos e mendigos. Mas Jesus não era um valentão. Andava desarmado e a pé. Suou sangue quando soube que iriam crucificá-lo.

Já agonizando, queixou-se a Deus: “Por que me abandonastes?”, Jesus não era um super-herói. Ele se comovia com a dor alheia. Não mandava matar. Ressuscitava os mortos. “Curava todos”, escreve Lucas em seu evangelho. Não cultivava a violência nem a morte. Por isso fugiu da marcha para ir curar a mulher negra intubada e sem oxigênio.

Jesus é a bandeira antibolsonarista.

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse grande desconhecido’, ‘José Saramago: o amor possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Faça seu login para seguir lendo

Saiba que já pode ler este artigo, é grátis

Obrigado por ler o EL PAÍS

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS