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300.000 mortos e um Brasil refém de Bolsonaro

Sem auxílio emergencial, sem plano econômico nacional e emparedados pelo Planalto, governadores e prefeitos se acovardam e repetem erros de meses atrás. Estamos implorando ao Ministério da Saúde, um ano depois, que ao menos não atrapalhe

Bandeira brasileira na praia de Copacabana, fechada por causa da crise sanitária.
Bandeira brasileira na praia de Copacabana, fechada por causa da crise sanitária.RICARDO MORAES / REUTERS

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Um ano depois da pandemia e chegando ao imoral marco de 300.000 mortes, o Brasil segue repetindo erros que paga com óbitos e sequelas dolorosas para sobreviventes do novo coronavírus. Vivendo situações “de guerra” e prejudicados por um presidente que age deliberadamente contra o fim da crise, governadores e prefeitos cedem a invencionices e repetem ideias que já não deram certo meses atrás.

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O boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz desta quarta-feira é cristalino. Diz que, ao se comparar o Brasil com os países que tiveram mais de 100.000 óbitos por covid-19 durante a pandemia (EUA, México, Índia, Reino Unido e Itália), todos estão em situação melhor que a nossa. Só o Brasil exibe tendência crescente e contínua. Vários especialistas, os secretários de Saúde e a própria Fiocruz já pediram: lockdown nacional já, com regras nacionais de circulação e barreira em portos e aeroportos por ao menos 14 dias. “Mesmo que vários municípios e Estados já venham adotando estas medidas, é fundamental que governos municipais, estaduais e federal caminhem todos na mesma direção”, pede o documento.

Mas essa alternativa de coordenação nacional, com Jair Bolsonaro no poder, não está no horizonte. No máximo, ele vai adotar agora um discurso pró-vacinação, insuficiente para o momento e mais um álibi para seguir falando contra o isolamento social. Então, o que fazer?

O país atravessa a pior fase da pandemia sem auxílio emergencial para os mais pobres ―graças à lentidão do Planalto― e sem ajuda para o comércio e pequenos empreendedores ―pela falta de um plano econômico nacional. Tudo isso aumenta, e muito, o custo político de confinamentos drásticos, sem falar na situação de fome propriamente dita, mesmo na cidade mais rica do país. Aí cada gestor tenta mesclar medidas na direção correta, do ponto de vista epidemiológico, com cálculo político e terceirização de responsabilidades.

O caso mais recente é a reedição na cidade de São Paulo de megaferiadão, desta vez ligado à Semana Santa, para tentar conter a circulação da população. Tudo começa porque, mesmo com São Paulo vivenciando o colapso, o governador João Doria não tem coragem de declarar um lockdown sério, com restrição do que é considerado essencial e restrição de viagens não justificadas. Dada essa primeira omissão, o seu colega tucano, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, faz o mesmo: resolveu dar impulso ao jogo de empurra. Covas decretou novo feriadão na capital, que começa no dia 26. Não há tampouco regra sobre restrição de viagens, o que pressiona litoral e interior, como se essas regiões também não estivessem pagando precariedade com mais mortes. Em alguns lugares, a ação de Covas gerou um efeito cascata: várias cidades da Baixada Santista não tiveram outra escolha que decretar elas mesmas um lockdown, enquanto outras cidades do interior correm para desincentivar o veraneio.

O epidemiologista Paulo Lotufo, da USP, diz que, apesar das trapalhadas, o feriadão pode ajudar a aumentar as taxas de isolamento, ao menos na capital. Qualquer ponto percentual na redução na circulação, ele diz, vai diminuir contágios e depois, mortes. É pouco? Sim, mas com pessoas morrendo na fila por um leito de UTI não dá para desprezar. O problema é que, com tudo descoordenado e com esse salve-se quem puder político, não se descarta que em outras regiões no interior haja espaço para algum prefeito negacionista brilhar. Na capital paulista, empresas e escolas ainda deliberam se vão ou não acatar o feriadão. Quem pode julgá-los? O feriado existe não para as atividades que já estão remotas, mas para dar um empurrão naquelas que o Governo não tem coragem de fechar. Enquanto mais confusão se instala, aqui e ali ainda se especula na imprensa se Doria vai ou não endurecer as regras para outras atividades econômicas.

Não era hora de inventar a roda, mas somos muito desiguais e tolerantes à morte para qualquer medida horizontal. Na França, há regra clara sobre deslocamento mesmo dentro das cidades. A Espanha, em situação bem melhor do que a brasileira agora, haverá medida duras para a Semana Santa. Mesmo o Chile, onde 20% da população já se vacinou, haverá novas restrições praticamente em todo território. Se o mundo inteiro segue essas regras, por que achamos que vamos nos safar sem elas? Se já chegamos à marca de 3.000 óbitos por dia, o que nos impede de seguir a escalada?

Em vez de estarmos discutindo uma saída para a calamidade nos hospitais, estamos de novo, um ano depois, cobrando o Ministério da Saúde. Implorando, na verdade, que ao menos não atrapalhe os Estados nem mude regras de última hora para complicar a transparência sobre os óbitos. Os dados não são apenas títulos nos jornais, eles são ferramentas de trabalho. É inacreditável que tenhamos transformado a pasta e o SUS, nossa Ferrari em termos de sistema de saúde, numa Veraneio modelo 64, lotada de recrutas zero. A lista de cúmplices é imensa, mas a elite do empresariado que apoiou a eleição de Bolsonaro tem um lugar especial nela. É estarrecedor que só agora o PIB tenha resolvido cobrar o presidente a respeito.

Nesse imobilismo entra o fator dos 30% que apoiam Jair Bolsonaro em seu negacionismo, segundo o Datafolha. O presidente está fazendo um jogo político que tem seu método: não governa para uma maioria, mas para sua minoria suficiente, em torno de 30%, que o permita se blindar contra o impeachment e chegar a um segundo turno em 2022. Vai ser sustentável no tempo? Até agora, tem sido. Então há, no momento, um país refém, com 70% de insatisfeitos, e ninguém governa pensando neles.

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