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Por que o dia 19 de outubro é o verdadeiro Dia da Criança

Foi nesta data, e não uma semana antes, que talvez a mais criativa e ousada criança a brotar deste torrão tropical, Alberto Santos Dumont, se lançou aos céus franceses na tentativa de voar como os pássaros de Paris

O dirigível nº 6 em imagem da época.
O dirigível nº 6 em imagem da época.Museu Virtual Santos Dumont
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Mesmo desconhecendo as razões que levaram à instituição do 12 de outubro como o dia oficial da criança no Brasil, eu me sinto na obrigação de registar, em plena primavera ― sim, ela voltou! ― de 2020, um protesto formal junto à Paróquia de Nossa Senhora da Achiropita, no meu querido Bexiga, contra o erro imperdoável cometido pela eminente autoridade nacional, seja ela quem for, responsável pelo decretação dos feriados nacionais neste patropi mais que surreal. Antes que você, meu querido leitor, proteste indignado contra tal ato ímpio e mesquinho ― perturbar o Bispo da Diocese de Nossa Senhora da Achiropita em pleno feriado ― eu gostaria de justificar-me; afinal de contas, para o mundo científico incorrer num erro de uma semana numa estimativa de data tão significativa não é pouca coisa. Uma semana inteira, convenhamos, excede qualquer desvio padrão medianamente aceitável, quando se trata de instituir um feriado nacional a ser celebrado ad et aeternum por gerações e gerações de compatriotas.

A razão da minha indignação é muito simples. Se existe um país em todo mundo onde um único evento mágico, reconhecido para muito além das nossas provincianas fronteiras, como um verdadeiro divisor de águas, aquele que singular e literalmente propeliu toda a humanidade rumo à nossa tão decantada modernidade, marcou definitivamente o que deveria ser, desde então, reconhecida como a data emblemática de celebração do espírito lúdico como prioridade, da criatividade irrestrita, da audácia sem limite, do ousar explorar o desconhecido contra tudo e todos, que definem a mente de todas as crianças, este é o Brasil. Nesta minha petição ao Bispo ― aparentemente a única instância de recurso meramente imparcial ainda vigente no país ― eu embaso meu pedido ao dizer que, indubitavelmente, foi no dia 19 de outubro de 1901, e não uma semana antes, precisamente às 2:30 da tarde de um sábado, que talvez a mais criativa e ousada criança a brotar deste torrão tropical, Alberto Santos Dumont, se lançou aos céus franceses, na sua tentativa de voar como os pássaros de Paris e liberar toda uma espécie de primatas, pela primeira vez em milhões de anos, da sua rotina cotidiana na superfície do planeta.

Decolando a bordo do seu Brasil 6, o primeiro dirigível verdadeiramente controlado por mente e mãos humanas, Santos Dumont em segundos deixou para trás seu ponto de partida, Saint-Cloud, uma cidadezinha localizada por detrás das árvores do Bois de Boulogne. De repente, atônitos, centenas de milhares de parisienses que a esta altura flanavam pelas margens do rio Sena se transformaram em testemunhas oculares do momento em que a história da conquista do espaço foi dividida em dois ― AD, antes de Dumont, e DD, depois de Dumont ― ao verem aquele enorme charuto feito de seda japonesa, bambu, cordas de piano, e recheado de hidrogênio ascender por cima das nuvens, movido por um motor de automóvel, rumo ao maior marco da engenharia francesa à época, a Torre Eiffel. Imparável, resoluto, determinado a transformar um sonho de infância em lenda mitológica, escrita em português, com sotaque mineiro, Santos Dumont ainda encontrava tempo para acenar para os parisienses.

Bastaram 9 minutos para que ele, sentando num selim de bicicleta, alinhado como sempre, dentro do seu terno de flanela, gravata e chapéu Panamá, alcançasse a sessão média da pirâmide de ferro construída por Gustave Eiffel ― um de seus amigos ― e pudesse demonstrar a invenção que lhe permitiria entrar para a lista seleta dos gênios da humanidade: a habilidade de controlar o voo do seu dirigível com tanta precisão a ponto de permitir que ele contornasse a torre, bem como os seus pombos residentes que agora, estupefatos, se davam conta desconcertados que em breve teriam a companhia daquela criança brasileira nos seus voos vespertinos pelos céus de Paris.

E contornar a Torre Eiffel, o grande Dumont contornou. E imediatamente, reorientou a sua aeronave rumo ao seu ponto de partida, a vila de Saint-Cloud. E ao alcançar o seu alvo, que hoje se chama Praça Alberto Santos-Dumont, bem ao lado da estação de trem homônima, em exatos 29 minutos e 30 segundos, ele foi agraciado com o Prêmio Deutsch de la Meurthe, criado pelo magnata francês, Henri Deutsch, para premiar o primeiro aeronauta capaz de demonstrar, sem margem de dúvida, ter a capacidade de produzir um voo controlado pelos céus de Paris. Metade dos cem mil francos conferidos pelo Prêmio Deutsch foram entregues por Santos Dumont para os seus mecânicos. A outra metade ele distribuiu pelos pobres de Paris. Para Dumont, o dinheiro não tinha significado algum. Quando perguntado pela mãe, depois do falecimento do pai, um dos maiores fazendeiros de café do mundo, o que ele queria fazer da vida, Santos Dumont respondeu simplesmente.

“Eu quero voar, mãe!”

E num exemplo muito raro na trágica saga brasileira, Dumont prometeu e cumpriu.

Além disso, o nosso querido Alberto mostrou com seus atos doidivanos, seus delírios alados, sua ousadia e sua tenacidade aquilo que define a essência do que é dedicar uma vida inteira à explorar o desconhecido, à superar todos os próprios limites em busca da oportunidade de testemunhar algo que nenhuma outra retina humana jamais observou; a jornada solitária e obcecada de todo cientista que genuinamente abraçou a prática da sua arte como se ela fosse equivalente ao ato de respirar: algo que sem o qual a vida não é possível. Naqueles menos de 30 minutos de pura magia, Alberto Santos Dumont, o nosso Da Vinci tupiniquim, expôs de forma explícita, em toda sua magnificência poética, em versos escritos sob a seda japonesa e bambu, que ser cientista é simplesmente ser criança para toda a vida.

Quem hoje visita a Praça Alberto Santos Dumont, em Saint-Cloud, se depara imediatamente com um rochedo de pedra no centro de um jardim. No topo deste rochedo, inclinando-se para a frente, na ponta dos dedos do pés e com suas asas abertas na máxima envergadura, um Ícaro de bronze, com olhos apontados diretamente para a Torre Eiffel, se prepara para decolar, rumo ao espaço reservado apenas para aqueles que entram para a história pela magnitude da coragem e impacto dos seus atos. Em letras gravadas em ouro na superfície rugosa da pedra, pode-se ler:

“Este monumento foi erigido pelo Aeroclube da França para comemorar os experimentos de Santos Dumont, pioneiro da Locomoção Aérea.”

A defesa “rests its case”, senhor Bispo! No Brasil, o Dia da Criança só faz sentido se for celebrado no dia 19 de outubro. Porque foi neste dia, 119 anos atrás, que uma delas, nascida nas nossas Minas Gerais, mostrou ao mundo o que as crianças brasileiras são capazes de fazer se a elas forem oferecidas apenas uma pista de decolagem, um par de asas de seda e o direito irrevogável de expressar toda a sua imaginação e criatividade livremente, sob a luz do Cruzeiro do Sul!

Miguel Nicolelis é um dos nomes com maior destaque na ciência brasileira nas últimas décadas devido ao trabalho no campo da neurologia, com pesquisas sobre a recuperação de movimentos em pacientes com deficiências motoras. Para a abertura da Copa de 2014, desenvolveu um exoesqueleto capaz de fazer um jovem paraplégico desferir o chute inicial do torneio. Incluiu recentemente à sua lista de atividades a participação no comitê científico criado pelos governadores do Nordeste para estudar a pandemia da covid-19. Twitter: @MiguelNicolelis

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