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A morte física e a morte virtual: narrativas mentirosas e racistas para justificar a violência

Fotos enganosas, de pessoas parecidas ou manipuladas, criminalizam vítimas, como o adolescente João Pedro, assassinado pela polícia no Rio. É a forma de reforçar preconceitos e normalizar o racismo

Manifestante carrega cartaz com o rosto de João Pedro desenhado, em protesto em São Gonçalo em 5 de junho.
Manifestante carrega cartaz com o rosto de João Pedro desenhado, em protesto em São Gonçalo em 5 de junho.IAN CHEIBUB / Reuters
Alana Rizzo|Clara Becker

Maio de 2020: o menino João Pedro, 14 anos, é morto dentro de casa durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Dezembro de 2019: nove pessoas morrem após uma ação da Polícia Militar no baile funk de Paraisópolis, em São Paulo. Abril de 2019: o músico Evaldo Rosa dos Santos tem o carro fuzilado durante operação do Exército, em Guadalupe, no Rio de Janeiro. Dos 257 tiros de fuzil e pistola disparados contra o carro da família de Evaldo, nove atingiram o músico. Junho de 2018: Marcos Vinícius da Silva, também de 14, é morto usando seu uniforme escolar durante uma operação da Polícia Civil no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Abril de 2015: Eduardo de Jesus, de dez anos, morre atingido por um tiro na porta de casa, no Complexo do Alemão, também no Rio.

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Ninguém dessa lista morreu só uma vez. Todos foram duas vezes vítimas. Na primeira, da violência policial. Na segunda, vítimas de fake news que começaram a ser espalhadas assim que os casos ganharam holofotes. Não vale citar os exemplos das mentiras inventadas sobre eles para não reforçar os preconceitos de quem, porventura, ainda os tenha. Basta dizer que a estratégia foi sempre a mesma: fotos enganosas, de pessoas parecidas ou manipuladas, criminalizando as vítimas como forma de justificar a violência e diminuir a comoção pelas mortes. Mães e pais, viúvas, filhos mal puderam processar o luto, pois precisaram lutar pela memória do parente perdido. Mas, infelizmente, os desmentidos nunca percorrem o caminho de volta.

Nos Estados Unidos não é diferente. O caso mais recente —o assassinato de George Floyd por policiais de Minneapolis— seguiu o mesmo roteiro. A expressão “George Floyd era um criminoso” chegou a ocupar o terceiro lugar no ranking de pesquisas do Google sobre o tema. A plataforma também registrou aumento repentino nas buscas por “o que George Floyd fez”. Boatos envolvendo a morte de Floyd também foram parar nas agências de checagem, que tiveram que fazer um esforço para desmentir o conteúdo falso e um punhado de teorias da conspiração.

A desinformação usa narrativas que confundem e ajudam a reforçar nossas crenças e preconceitos. Tentam justificar a morte e a brutalidade do assassinato de pobres e negros na maioria das vezes criminalizando a vítima, como se, ao desacreditá-los, isso justificasse seus assassinatos.

Notícias falsas que retratam de forma negativa um grupo étnico, racial ou religioso têm o poder de imputar uma ‘criminalidade terrível’, desumanizando os indivíduos desses grupos,” sustenta a pesquisadora Kimberly Grambo, da Universidade da Pensilvânia. Em sua pesquisa “Notícias falsas e minorias raciais, étnicas e religiosas: uma busca precária pela verdade”, Grambo destaca que as notícias falsas são particularmente poderosas quando exploram as tensões existentes entre grupos.

“A criação e a viralização desses boatos ganham impulso por reforçar outras tantas mentiras que durante séculos foram construídas para normalizar práticas racistas”, avalia a jornalista e pesquisadora da UnB, Gabriela de Almeida, que estuda a violência em decorrência da divulgação de fake news nas vítimas dessas mentiras e em seus familiares.

Compartilhar informações erradas sem a intenção de fazê-lo está quase sempre associado a um gatilho emocional. Notícias falsas são fabricadas para causar fortes reações emocionais, como medo, raiva e esperança, que prejudicam nosso pensamento crítico. Desconfie de informações que mexam com seus sentimentos. Faz parte do nosso processo de reforçar as crenças e preconceitos existentes. A tecnologia não muda quem somos.

Mas há como se criar alguns alertas para que tenhamos mais capacidade para identificá-las e não deixemos que esses gatilhos nos leve ao compartilhamento. Muitas das mensagens falsas propositalmente criadas para serem espalhadas costumam ter o mesmo padrão: são vagas, alarmistas, levantam dúvidas, têm erros de português, não apresentam fontes para suas afirmações e invariavelmente trazem pedidos de compartilhamento —tudo na mão contrária do que é a informação de qualidade, capaz de conquistar a confiança pela transparência e precisão. Há um padrão neste tipo de conteúdo que tenta difamar pessoas negras e vindas da periferia que tenham sido vítimas de violência. Temos o dever de quebrar esse tipo ainda mais perverso de desinformação, sob pena de, ao compartilharmos, nos tornarmos cúmplices do assassinato de suas memórias.

Alana Rizzo e Clara Becker são jornalistas e cofundadoras do Redes Cordiais, projeto de combate à desinformação e aos discursos de ódio em redes sociais.

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