Pandemia de coronavírus

Os povos indígenas isolados também estão em isolamento voluntário

Se os governos não protegerem os territórios indígenas e instaurarem o isolamento social, o coronavírus poderá concluir o genocídio dos povos isolados da Amazônia, que começou há 500 anos

Menina yanomami da comunidade Hutukara. No último dia 10, um adolescente da mesma etnia morreu de coronavírus.
Menina yanomami da comunidade Hutukara. No último dia 10, um adolescente da mesma etnia morreu de coronavírus.Fiona Watson / Survival International
Survival International

“Nós estávamos na aldeia e todos começaram a morrer. Alguns adentraram a floresta e por lá morreram. Nós todos estávamos doentes e fracos, e nem podíamos enterrar os mortos. Os corpos ficavam apodrecendo no chão. Os urubus comeram tudo.”

As epidemias podem assolar comunidades indígenas em questão de dias. Imagine o tamanho do esforço para continuar enquanto, ao seu redor, seus entes queridos estão morrendo sem motivo aparente e com uma rapidez impressionante. Os efeitos devastadores de novas doenças são terrivelmente conhecidos pelos povos indígenas das Américas dos quais até 90% foram mortos por doenças introduzidas por colonizadores nos últimos 500 anos.

A citação acima é de Ake, um homem panará. Os Panará são um povo indígena que evitava desesperadamente o contato até o início da década de 1970, quando invasores abriram uma estrada no meio de seu lar na floresta. Entre 1973 e 1975, mais de um terço da população Panará morreu de doenças e 80% morreram em apenas oito anos.

O impacto catastrófico de novas doenças é uma das razões pelas quais hoje existem mais de 100 povos indígenas no mundo que deliberadamente evitam o contato com pessoas de fora. Eles são conhecidos como povos indígenas isolados e a maioria vive na Amazônia. Os encontros anteriores desses indígenas com pessoas de fora provavelmente levaram a muitas mortes, pela violência e pelas doenças trazidas por aqueles que invadiram suas terras. Muitos indígenas isolados fugiram e alguns são descendentes dos sobreviventes do boom da borracha que ocorreu no início do século XX. Alguns sofreram ataques genocidas há décadas, outros mais recentemente.

Não há nada romântico em evitar o contato. É provavelmente muito difícil - imagine ser o “último de seu povo”, o único sobrevivente que testemunhou o massacre de toda sua comunidade e agora vive inteiramente sozinho. Esse homem solitário vive em um trecho da floresta amazônica, cercado por fazendeiros hostis. Não sabemos quem ele é, o nome de seu povo ou sua língua. Seu povo provavelmente foi massacrado por fazendeiros de gado que invadiram a região a uma velocidade estrondosa nas décadas de 1970 e 80, usando homens armados para “caçar” e assassinar indígenas isolados, e assim, ocupar suas terras. Hoje, ele recusa ferozmente qualquer contato e continua a caçar e cultivar alimentos em suas roças na floresta. Quando morrer, todos os vestígios de seu povo, sua língua e seu conhecimento serão eliminados para sempre.

Para alguns povos, essa busca pela sobrevivência significou adaptar seus modos de vida: eles foram forçados a abandonar a vida em aldeias e deixaram de cultivar roças na floresta, para se tornarem coletores e caçadores nômades e deixar o menor rastro possível e a poder mover rapidamente para evitar o contato.

Eles nunca sabem quando o próximo ataque ocorrerá, quando a próxima onda de epidemias atingirá suas famílias. Alguns vivem em quase absoluto silêncio para evitar serem descobertos, imitando os sons de pássaros e animais da floresta para se comunicarem, sempre atentos ao barulho de invasores, e prontos para fugir ao ouvir o grito de advertência das araras. Muitos até pararam de ter filhos.

A preocupação pela sobrevivência de povos indígenas isolados no Brasil é crescente, pois o coronavírus parece estar varrendo o país. O serviço de saúde indígena é precário e não recebe financiamento suficiente nem para a assistência básica. Enquanto isso, o presidente Bolsonaro nega que a pandemia seja algo sério. Ele e seus aliados querem facilitar o acesso para os agentes do governo contatarem indígenas isolados, contrariando a política de não forçar o contato que serve de modelo para o mundo todo.

Muitas organizações indígenas temem que isso seja usado pelos missionários evangélicos para tentar fazer contato com esses povos. A Missão Novas Tribos, agora chamada de Ethnos360 nos Estados Unidos, uma das organizações missionárias mais extremistas do mundo, acabou de comprar um helicóptero. O presidente da organização anunciou que sua nova aquisição “ajudará em todo o processo de chegar com mais facilidade nas aldeias onde não há pista de pouso”. Líderes indígenas do Vale do Javari chamaram os planos da MNT de "um ataque genocida".

As estatísticas são chocantes – o número de mortes que ocorreram devido às doenças introduzidas durante e após o contato é catastrófico. Mais de 50% da população do povo Matis morreu após o primeiro contato que ocorreu na década de 1970. Quase todos os xamãs, que possuíam conhecimento medicinal, pereceram quando a gripe os dizimou. Bina Matis, que sobreviveu à epidemia, disse à Survival:

“A primeira coisa que eu me lembro era o avião sobrevoando nossa aldeia. Eles jogaram machados, facões e cobertores. Então a FUNAI chegou. Eles vieram pela nossa trilha deixando facas e panelas nas árvores. A princípio ficamos assustados porque os brancos sempre parecem querer nos matar. Então eu fugi para a floresta. Mais tarde, fomos ao acampamento da FUNAI, sendo este o nosso primeiro contato. Eles nos deram machados, facões e nós levamos dois cachorros também. Fomos e voltamos muitas vezes, e as mulheres também. Eu tentava falar com os brancos, mas eles não me entendiam. Contraímos doenças no acampamento deles, e por isso fugimos para a floresta. Pegamos pneumonia. Muita gente morreu. Fomos atingidos por muitas doenças e agora não temos mais nenhum pajé.”

Se os governos não protegerem os territórios indígenas e instaurarem o isolamento social, o coronavírus poderá concluir o genocídio dos povos indígenas isolados da Amazônia, que começou há 500 anos, quando os primeiros europeus invadiram as Américas.

Há algumas semanas, o xamã e porta-voz Yanomami, Davi Kopenawa, solicitou à ONU apoio para os Yanomami isolados, que em breve poderão ser exterminados pelos garimpeiros que invadem seu território em busca de ouro. Ele diz que o grupo, conhecido como Moxihatatea, está em grave perigo:

“Já fugiram muitas vezes. Mas, agora, não podem mais fugir. Os garimpeiros então começaram a roubar a comida dos roçados. Os guerreiros Moxihatetea os atacaram com flechas, mas os garimpeiros, mais violentos, quiseram se vingar atirando com espingardas. Estou muito preocupado. Talvez em breve estarão exterminados. É o que eu acho. Os garimpeiros, sem dúvida, vão matá-los com suas espingardas e suas doenças, a sua malária, a sua pneumonia.”

O pior temor de Davi pode agora se tornar realidade: a primeira morte por coronavírus entre os Yanomami foi confirmada.

O modo como os indígenas isolados vivem é completamente auto-suficiente e sustentável, e qualquer reivindicação de que devam ser contatados para seu próprio benefício é totalmente errada. Eles possuem conhecimento enciclopédico de suas terras, das plantas e dos animais com os quais convivem. Suas tecnologias refinadas e habilidades únicas, aperfeiçoadas por gerações, os possibilita obter alimentos, roupas, remédios, ferramentas, materiais de construção e qualquer outra coisa que precisem, de maneira independente. Para isso, tudo o que necessitam é de sua terra. Quando suas terras estão devidamente protegidas, os indígenas isolados continuam a prosperar.

Por mais de 50 anos, a Survival International tem lutado em todo o mundo pela proteção das terras dos povos indígenas isolados. Fazemos campanhas para que sua escolha de viver sem contato, para sua própria sobrevivência, seja respeitada por todos.

Junte-se a nós: pelos povos indígenas, pela natureza, por toda a humanidade.

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