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Pandemia de coronavírus
Tribuna
São da responsabilidade do editor e transmitem a visão do diário sobre assuntos atuais – tanto nacionais como internacionais

A volta do conhecimento

Tínhamos nos acostumado a viver na névoa da opinião; mas hoje, pela primeira vez desde que temos memória, prevalecem as vozes de pessoas que sabem e de profissionais qualificados e corajosos

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Raquel Marín (EL PAÍS)
Antonio Muñoz Molina

Pela primeira vez desde que temos memória, as vozes que prevalecem na vida pública espanhola são as de pessoas que sabem. Pela primeira vez assistimos à aberta celebração do conhecimento e da experiência, e ao protagonismo merecido e até então inédito de profissionais de diversas áreas cuja mistura de máxima qualificação e coragem civil sustenta sempre o mecanismo complicado de toda a vida social. Nos programas de televisão em que, até recentemente, reinavam exclusivamente dissertadores especializados em opinar sobre qualquer coisa a qualquer momento, agora aparecem médicos de família, epidemiologistas, funcionários públicos que enfrentam diariamente uma doença que perturbou tudo e que a qualquer momento pode atacá-los. Todas as noites, às oito, nas ruas vazias, eclodem aplausos como uma tempestade repentina, dirigidos não a demagogos embusteiros, mas a trabalhadores da saúde, que até ontem cumpriam sua tarefa acossados por cortes contínuos, pela falta de meios, pelo desdém às vezes agressivo de usuários caprichosos ou resmungões. Agora, exceto nos redutos habituais, não ouvimos slogans, nem lemas de campanha criados por publicitários, nem banalidades cunhadas por essa espécie de gurus ou de aprendizes de feiticeiro que inventam estratégias de “comunicação” e que aqui também, que remédio, já são chamados de spin doctors: charlatães, trapaceiros, vendedores de fumaça.

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A realidade nos obrigou a nos colocarmos no terreno até agora muito negligenciados dos fatos: os fatos que podem e devem ser verificados e confirmados, para não serem confundidos com delírios ou mentiras; os fenômenos que podem ser medidos quantitativamente, com o mais alto grau de precisão possível. Tínhamos nos acostumado a viver na névoa da opinião, da diatribe sobre as palavras, do descrédito do concreto e do comprovável, inclusive do aberto desdém pelo conhecimento. O espaço público e compartilhado do real havia desaparecido em um turbilhão de bolhas privadas, dentro das quais cada um, com a ajuda de uma tela de celular, elaborava sua própria realidade sob medida, seu próprio universo cujo protagonista e centro era ele mesmo, ela mesma.

Estava andando pela rua e notava que quase todo mundo ao meu redor se virava para viver dentro de seu espaço privado, exatamente igual que se estivesse na sala de estar de sua casa, em seu quarto, até mesmo em seu banheiro: o diadema dos capacetes gigantes para não ouvir o mundo exterior e ser alimentado a cada momento por um fio sonoro ajustado às suas preferências; o olhar não nas pessoas com que você cruza, mas na tela à qual olha; a voz que fala no mesmo tom que em um quarto fechado, tão descuidada dos outros que era habitual assistir involuntariamente a conversas íntimas embaraçosas, brigas, explosões de lágrimas.

“O senhor tem todo o direito do mundo às suas próprias opiniões, mas não aos seus próprios fatos”, escreveu o grande senador democrata e ativista cívico Patrick Moynihan. Disse isso antes de um porta-voz de Donald Trump cunhar o termo “fatos alternativos”, e de que a penúria financeira dos meios de comunicação os levasse a se alimentar de opiniões mais do que de fatos, uma vez que sempre será muito mais caro, mais trabalhoso e até mais arriscado investigar um fato do que expressar uma opinião. Soma-se a isso uma difusa hostilidade coletiva, que os meios de comunicação incentivam, em relação a tudo que pareça demasiado sério, pesado, pouco lúdico. O entrevistador não esconde sua impaciência diante do convidado que soa lento enquanto se esforça em uma explicação. Ele o interrompe: “Me dê uma manchete”. Investigar com rigor e explicar com clareza requer conhecimento e experiência, que é o conhecimento mais profundo que só pode ser obtido com o tempo e a prática: são as qualidades necessárias para exercer uma tarefa pública comprometida, desde assistir a um doente em uma sala de emergência a mantê-la limpa, ou dirigir uma ambulância, ou montar um hospital de campanha da noite para o dia.

Mas entre nós a experiência havia perdido qualquer valor e todo o seu prestígio, e o conhecimento provocava receio e até zombaria. Quando tudo tem de parecer ostensivamente jovem e associado à última novidade tecnológica, a experiência não serve para nada e até se torna uma desvantagem para quem a possui; quando alguém acredita que pode viver instalado na bolha de seu narcisismo particular ou daquele outro narcisismo coletivo que são as fantasias identitárias, o conhecimento é uma substância maleável que assume a forma que se deseja dar a ele, assim como sua presença pessoal é moldada pelos filtros virtuais apropriados. E a política deixa de ser o debate sobre as formas possíveis e sempre limitadas de melhorar o mundo em benefício da maioria para se tornar um teatro perpétuo, um espetáculo de realidade virtual, não submetido ao pragmatismo nem à cordura, uma fantasmagoria que se fortalece graças à ignorância e que encobre com eficácia a crua ambição pelo poder, o abuso dos fortes sobre os fracos, a propagação da injustiça, o desperdício, o roubo do dinheiro público.

Na Espanha, a guerra da direita contra o conhecimento é imemorial e também é muito moderna: combina obscurantismo arcaico com a proteção de interesses venais perfeitamente contemporâneos, os mesmos que impulsionam nos Estados Unidos a guerra aberta do Partido Republicano contra o conhecimento científico, financiada pelas grandes empresas petrolíferas. A direita prefere esconder os fatos que prejudicam seus interesses e privilégios. A esquerda desconfia dos que parecem não se adequar aos seus ideais ou aos interesses dos aproveitadores que se disfarçam com eles. A esquerda cultural se filiou há muitos anos a um relativismo pós-moderno que considera qualquer forma de conhecimento objetivo suspeita de autoritarismo e elitismo. Nem a esquerda nem a direita têm o menor inconveniente em substituir o conhecimento histórico por fábulas patrióticas ou lendas retrospectivas de vitimismo e emancipação.

Curiosamente, na Espanha, a esquerda e a direita sempre concordaram em deixar de lado ou encurralar as pessoas dotadas de conhecimento e experiência na esfera pública e submetê-las ao controle de pseudoespecialistas e apaninguados. Professores do ensino fundamental e médio estão sujeitos ao flagelo de psicopedagogos e comissários políticos há décadas; os médicos e enfermeiros da saúde pública estão sujeitos ao capricho e à inexperiência de supostos especialistas em gestão ou em recursos humanos, cujo único talento é medrar no emaranhado dos cargos políticos.

Foi necessária uma calamidade como a que estamos sofrendo agora para que descobríssemos bruscamente o valor, a urgência, a importância suprema do conhecimento sólido e preciso, para nos esforçarmos em separar os fatos dos boatos e da fantasmagoria e distinguir com nitidez imediata as vozes das pessoas que sabem de verdade, aquelas que merecem nossa admiração e nossa gratidão por seu heroísmo de servidores públicos. Agora ficamos com um pouco de vergonha de termos nos acostumado ou resignado durante tanto tempo ao descrédito do saber, à celebração da impostura e da ignorância.

Antonio Muñoz Molina é escritor.

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