Opinião
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Para os brasileiros no Twitter, só Bernie Sanders é candidato nas primárias democratas

Análise da FGV DAPP mostra o que leva o senador de Vermont que se define como “socialista democrático” a ser o campeão da preferência

Nesta semana, com o caucus do Estado de Iowa, começa a (provavelmente longa) disputa pela difícil função de ser o oponente de Donald Trump, em novembro, nas eleições gerais dos Estados Unidos. As primárias do Partido Democrata, de forma muito pouco usual ao longo das últimas décadas, chegam ao início de votação com muitos candidatos ainda em campanha e sem um claro favorito com ampla aceitação pelo establishment e pelas pesquisas de intenção de voto. No entanto, sob o âmbito de repercussão do processo político americano para os brasileiros no Twitter, com dados coletados pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), quem dá as cartas em impacto, com sobras, é o senador Bernie Sanders, que vem adquirindo forte aumento de popularidade nas últimas semanas.

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Desde 1º de janeiro, já houve 89,3 mil menções às primárias democratas ou a seus candidatos no Twitter no Brasil, e Sanders é citado em 23% dessas publicações (20,6 mil postagens) —mais que o dobro das menções à segunda candidata com mais referências diretas, a senadora Elizabeth Warren (9%, ou 8 mil tuítes), que divide com Sanders o espectro ideológico mais à esquerda dentro do partido e da disputa. Joe Biden, que desde o começo da campanha, ainda em 2019, lidera as pesquisas, mas vem perdendo apoio nos early states (os quatro primeiros estados a votar nas primárias, Iowa, New Hampshire, Nevada e Carolina do Sul), só aparece em 5% dos tuítes (4,5 mil menções).

Uma análise qualitativa e discursiva sobre os atores, as agendas e as temáticas do debate sobre política dos Estados Unidos no Twitter brasileiro permite um entendimento mais detalhado sobre as razões do protagonismo de Sanders. E, dentre os diferentes pontos de abordagem, um desponta como principal: o fato de que proporção substancial da discussão é engajada a partir de perfis da direita brasileira pró-Trump, que assumem reiterada rejeição a bandeiras e nomes que associam à “esquerda". O senador de Vermont, autodeclarado “socialista democrático”, é a figura de maior identificação com o movimento à esquerda dos democratas nos últimos anos, daó o contraste.

Também é contribuinte o fato de que Sanders é o único dos candidatos das primárias a se manifestar regularmente sobre a conjuntura política brasileira: o senador declarou apoio à soltura de Lula, já fez muitas críticas públicas ao presidente Jair Bolsonaro e, mais recentemente, questionou a denúncia contra o jornalista Glenn Greenwald feita pelo Ministério Público Federal (processo inclusive questionado por nomes importantes da direita dos EUA, como o âncora Tucker Carlson, da FOX News). A partir desse contexto, que se soma à progressista posição do candidato em relação a pautas identitárias e em oposição ao sistema financeiro e à desigualdade, as redes brasileiras apontam-no como porta-bandeira de um movimento internacional de esquerda, cuja vitória contra Trump representaria potencial danos ao Ocidente.

As temáticas prioritárias e a polarização

Candidato de última hora, o ex-prefeito de Nova York e bilionário Michael Bloomberg vem apresentando constante aumento de apoio em pesquisas nacionais (hoje, está em quarto lugar, à frente do ex-prefeito de South Bend, Indiana, Pete Buttigieg). No debate brasileiro, por enquanto, Bloomberg aparece em posição periférica —em 3% das postagens, ou 2,7 mil tuítes—, mas é, ao lado de Bernie Sanders, ator central de associações temáticas engajadas pelos grupos de discussão brasileiros sobre a conjuntura dos Estados Unidos. E, lá como aqui, certas pautas têm notável proeminência e polarização, a começar pela sustentabilidade e pela defesa do desarmamento.

Bloomberg é alvo de críticas por influenciadores brasileiros da direita por se posicionar como defensor de medidas contra as mudanças climáticas e pela forte posição contra o amplo acesso a armamentos por cidadãos nos Estados Unidos. Argumentam que, enquanto o ex-prefeito é um bilionário com amplos recursos para se defender, o cidadão comum não desfruta dos mesmos privilégios. Em função do alinhamento aos democratas e da oposição a Trump, atribuem-no inclusive a pecha de comunista/socialista —embora Bloomberg seja, em fevereiro de 2020, a nona pessoa mais rica do mundo, com fortuna superior a 55 bilhões de dólares.

Em linhas gerais, como ocorre em praticamente qualquer discussão de âmbito nacional no Brasil, a polarização dá os contornos do posicionamento dos brasileiros sobre as eleições nos EUA: no recorte desta análise, 36% das interações via Twitter (os retuítes) vieram do grupo à direita, enquanto 25% de influenciadores da esquerda brasileira. Os demais engajamentos são muito fragmentados a partir de perfis e postagens específicas, sem a formação de grupos com contas que interajam entre si ou que apresentem clara coerência posicional ou opinativa sobre assuntos da pauta. Um desses perfis “isolados” do debate é o de Andrew Yang, empreendedor de notável popularidade em redes sociais e que apresenta como bandeira principal de campanha um programa de renda básica universal. A presença de Yang no debate brasileiro decorre de retuítes feitos no país por apoiadores do candidato.

Outro eixo, mais recente, de alinhamento aos polos na discussão é o processo de impeachment contra Trump, citado em 23% das publicações (cerca de 20,5 mil tuítes). Com a intensa atividade da direita em defesa do presidente, sempre acompanhada de críticas aos democratas e da associação do partido ao socialismo/comunismo, a esquerda se põe, em resposta (e com menor força), em manifesta rejeição a Trump. No entanto, com um diferente e importante atributo argumentativo, se comparada à direita: é igualmente manifesta na base à esquerda brasileira a oposição a figuras relevantes do Partido Democrata e aos Estados Unidos de forma geral. Tanto que, com 8% de presença na discussão, está a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, derrotada por Trump em 2016. Clinton não participa da atual corrida eleitoral, mas é diretamente citada por conta da disputa de quatro anos atrás e sob a conjuntura do impeachment e da posição “centrista” entre os democratas.

Conjuntura internacional

Entre os perfis da esquerda e da direita brasileiras, o endosso ou repúdio a Bernie Sanders (e, também, a Elizabeth Warren) é representativo do posicionamento de ambos os campos não só em relação aos Estados Unidos, mas em relação aos papeis de Brasil e EUA dentro do panorama internacional de polarização e de sucessivas vitórias de grupos conservadores em eleições no Ocidente. Ao longo da última semana, o recém-instaurado Brexit surgiu na discussão, em mais de 1,8 mil postagens, como substancial componente do debate, e o embate entre Estados Unidos e Irã aparece em 4 mil menções.

Ao assumir Sanders como o ator principal de organização dos polos opinativos nas redes, direita e esquerda demarcam, igualmente, sob quais eixos temáticos a discussão sobre a política americana se desdobrará pelos próximos meses —a depender, evidentemente, dos resultados nas primárias. Demarcam, ainda, como reconhecem a projeção do espectro político brasileiro em âmbito mundial: Buttigieg é forte candidato nos early states, e a senadora Amy Klobuchar tem bons números para as primeiras eleições estaduais, mas nenhum dos dois é citado em sequer 2% das postagens. Ambos são, assim como Biden, mais próximos ao centro do espectro democrata.

Não por acaso, a pequena projeção do centro como objeto de debate sobre as eleições nos Estados Unidos é reflexo da baixa presença de grupos externos à polarização em discussões políticas no Brasil. Isso não implica, necessariamente, em sucesso eleitoral: vice-presidente de Barack Obama, Biden ainda é o mais próximo do leve favoritismo no pleito, e não há maciça participação de perfis comuns no debate brasileiro do Twitter: as discussões são fortemente pautadas por influenciadores, e 62% (55,7 mil tuítes) das postagens encontradas sobre as primárias democratas, no Brasil, são retuítes.

Ao projetar no sucesso ou fracasso de Sanders o compasso de acompanhamento sobre a política dos Estados Unidos, cujos papeis discursivo, econômico e diplomático exercem poderoso impacto sobre o Brasil, os grandes núcleos de debate das redes sociais brasileiras no Twitter impõem um enfrentamento digital que perpassa múltiplas agendas comuns aos dois países —impostos sobre grandes fortunas, desenvolvimento sustentável, promoção de direitos de minorias, segurança pública, saúde e ensino superior gratuitos.

Se o senador independente de Vermont prevalecer e ganhar o direito de enfrentar Trump em novembro, há fortes indicativos de que a polarização no Brasil se intensificará, nas redes. Entretanto, caso seja derrotado, há de se fazer a pergunta: que posição as bases de esquerda do Brasil, frente ao atual presidente dos Estados Unidos, assumirão, especialmente se não for Warren a vencedora? Haverá mobilização de debate para apoiar uma opção mais próxima ao centro (e o centro no Brasil, como se portará)? São questões importantes, porque podem sinalizar predisposições importantes para outros debates políticos e eleitorais brasileiros no futuro, e o resultado de novembro nos EUA têm poder para gerar mudanças significativas do espaço discursivo (à direita e à esquerda) do Brasil.

Lucas Calil é mestre e doutor em Linguística pela Universidade Federal Fluminense, pesquisador de redes sociais e Coordenador de Linguística da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV.

Sobre a metodologia

A análise desenvolvida pela FGV DAPP emprega uma metodologia linguística de identificação de temas, atores, e instituições, a partir de dados de Twitter, Facebook, YouTube, WhatsApp e Instagram, para o monitoramento do debate público no ambiente digital. A pesquisa utiliza fontes primárias (APIs) e secundárias para obtenção de dados das plataformas, sempre respeitando a política de acesso a dados de cada uma e a privacidade dos usuários. Para mais informações, acesse o caderno metodológico de referência da FGV DAPP.

As manifestações expressas por integrantes dos quadros da Fundação Getulio Vargas, nas quais constem a sua identificação como tais, em artigos e entrevistas publicados nos meios de comunicação em geral, representam exclusivamente as opiniões dos seus autores e não, necessariamente, a posição institucional da FGV.