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Os republicanos que continuam contando cédulas um ano depois

Há 12 meses a vitória de Joe Biden foi certificada nos Estados Unidos, mas continuam as demandas para impugnar o resultado em meio a uma ofensiva para impedir o acesso das minorias ao direito a voto

Carolyn Brown vota no condado de Campbell County, nas eleições da Virgínia na terça-feira.
Carolyn Brown vota no condado de Campbell County, nas eleições da Virgínia na terça-feira.Kendall Warner (AP)

Os republicanos de Racine, condado de Wisconsin de 200.000 habitantes entre Milwaukee e Chicago, descobriram há três semanas 23.000 votos das eleições presidenciais de 2020 vindos de eleitores registrados com o mesmo número de telefone. E não só isso. Havia outros quatro mil atribuídos a pessoas de 103 anos nascidas no mesmo improvável dia: 1 de janeiro de 1918. Como Biden venceu no Estado por 20.000 votos, por fim vieram as contas da conspiração. Esse punhado de republicanos obcecados em continuar a contagem de cédulas não se importou com a explicações da Comissão eleitoral de Wisconsin, que esclareceu que a obrigação de dar um telefone e uma data de nascimento deixou de ser efetiva há tempos, e que ao migrar as bases de dados muitos municípios com menos de 5.000 habitantes preencheram os registros com números genéricos.

No domingo se completa exatamente um ano em que os grandes veículos de imprensa norte-americanos deixaram de ranger os dentes e, quatro dias depois da eleição, se decidiram a proclamar Joe Biden o 46º presidente dos Estados Unidos. Já se passaram 12 longos meses, mas adversários de Estados como Wisconsin, Arizona, Michigan, Pensilvânia, Georgia e Arizona resistem a virar a página e reconhecer a derrota de Donald Trump. Lembram em sua obstinação Hiroo Onoda, o soldado japonês que continuou mobilizado em uma ilha filipina até 1974. O problema é que, ao contrário de Onoda, que precisou ser convencido por um antigo superior de que a Segunda Guerra Mundial havia terminado, o comandante Trump continua entrincheirado em seus boatos.

Ele os trouxe à tona recentemente em uma carta ao diretor publicada em 27 de outubro pelo Wall Street Journal. Respondia a um editorial do jornal em que era citada de passagem “a confusão eleitoral da Pensilvânia”, onde perdeu por 80.555 votos e um juiz ordenou separar as cédulas chegadas por correio após o fechamento das urnas com a única e espúria intenção de semear dúvidas sobre o processo (o que não disse é que o mecanismo já era previsto por lei).

Melania e Donald Trump, em 30 de outubrona quarta partida da final do beisebol em Atlanta, cuja equipe, os Braves, conquistou o título nesta semana.
Melania e Donald Trump, em 30 de outubrona quarta partida da final do beisebol em Atlanta, cuja equipe, os Braves, conquistou o título nesta semana.ELSA (AFP)

O texto do Journal era puro Trump: em 600 palavras, trazia tamanha quantidade de dados sem provas que poderia manter ocupada uma equipe de checagem durante toda uma semana. E concluía: “Bom, na verdade a eleição foi fraudada, o que, lamentavelmente, os senhores ainda não foram capazes de descobrir”.

A carta deu fôlego a um debate jornalístico sobre se o jornal fez bem em publicar um texto que sabiam estar recheado com as falsidades que acabaram sendo conhecidas com a “Grande Mentira”. É a mesma que causou o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro por uma turba enfurecidaque acreditou no boato do roubo eleitoral, entre outras insanas teorias da conspiração, apesar de muitos dos participantes se envolverem sabendo que era falso.

A CNN exibiu na noite de sexta-feira o documentário Trumping Democracy. An American Coup (Ataque à Democracia: a Tentativa de Golpe de Trump), que coletou o depoimento de conhecidos congressistas republicanos que ousaram desafiar o magnata para enfrentar essas mentiras e foram ameaçados por ele. Em uma das entrevistas, Alyssa Farah, que foi diretora de comunicação da Casa Branca até pedir demissão em dezembro de 2020, disse que o entorno mais próximo a Trump não dava crédito a essas teorias. “Ainda assim, as sustentaram em público; enganaram o povo norte-americano, e o próprioTrump, que provavelmente acreditava nessas bobagens”. Por fim, o candidato passou toda a campanha semeando a sombra da dúvida democrática sobre o processo em uma profecia que acabou por se autocumprir.

Desde novembro de 2020, foram apresentadas mais de 60 demandas para revisar o resultado. Somente uma foi adiante, na Virgínia. Afetava uma quantidade tão pequena de votos que foi irrelevante. Entre as tentativas mais comentadas está a do Arizona, feudo tradicionalmente republicano, que foi essencial na vitória democrata. A câmara estadual, majoritariamente vermelha (cor do Partido Republicano), pediu uma revisão de 2,1 milhões de votos registrados no condado de Maricopa (onde está a capital, Phoenix) a uma empresa de cibersegurança chamada Cyber Ninjas. O cálculo acabou com um ajuste desprezível: os democratas tinham na verdade 99 votos a mais, e Trump, 261 a menos.

De acordo com a análise do Brennan Center for Justice, organização não partidária que, após estudar a história eleitoral dos Estados Unidos, colocou a porcentagem de fraude entre 0,0003% e 0,0025%, a “Grande Mentira” é indissociável da ofensiva legal iniciada em 19 Estados “para levar adiante 33 leis que irão dificultar o voto nos Estados”, como diz Ricardo Ramírez, um de seus assessores.”Eles se baseiam na ideia de que o sistema não é confiável, o que é completamente falso. Esses políticos divulgam esses boatos por interesse próprio com o objetivo de dividir os eleitores. As alegações de fraude são mentiras e fantasias políticas de setores conservadores radicais que procuram manipular suas bases atacando uma instituição norte-americana fundamental, o mesmo que fazem com a ciência, com as vacinas e com a história. É sempre possível melhorar a segurança das eleições, mas essas melhorias precisam expandir o acesso às urnas”.

O que a facção mais dura do Partido Republicano pretende é justamente o contrário: acrescentar dificuldades a um processo já por si complicado para impedir a votação das minorias, que estão alterando o mapa eleitoral nos Estados Unidos. Como? No Texas, por exemplo, o governador Gregg Abbott prevê ter pronta uma lei a tempo para as eleições primárias de 2022 que adianta o horário de abertura das urnas nos condados menores, predominantemente republicanos, e limita em territórios de maior população a possibilidade de votar fora de horário e sem descer do carro, duas práticas muito populares entre os eleitores negros, majoritariamente democratas, nas últimas eleições. Eleições que alguns não parecem dispostos a dar como encerradas.

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