Governo cubano lança ofensiva para neutralizar protesto por mudanças

Autoridades acusam os Estados Unidos de estar por trás da manifestação convocada para o dia 15

Um grupo de pessoas se manifesta em Havana, em julho passado.
Um grupo de pessoas se manifesta em Havana, em julho passado.ALEXANDRE MENEGHINI (EL PAÍS)

O clima político em Cuba se turvou e esquenta a cada dia nestas semanas que antecedem a Marcha Cívica pela Mudança, marcada para 15 de novembro em várias cidades da ilha. À medida que se aproxima o dia da manifestação, convocada pela plataforma digital opositora Arquipélago e proibida pelo Governo por considerá-la uma “provocação desestabilizadora”, a confrontação se intensifica e a polarização social cresce a níveis jamais vistos. Nunca uma iniciativa dissidente tinha gerado tanto ruído popular – é hoje um dos principais temas de debate nas ruas, nas casas e nas redes sociais –, o que provocou a reação frontal do Governo. Na última semana, os principais dirigentes do país e a mídia oficial dedicaram horas ao assunto, desacreditando a marcha e vinculando-a a “planos subversivos dos EUA”.

Inicialmente, autoridades e opositores mediram forças numa espécie de jogo do gato e rato. Depois que foi convocada uma passeata em várias cidades do país em 20 de novembro, o Governo reagiu marcando para esse mesmo dia manobras militares nacionais, o que levou os organizadores a anteciparem o protesto para o dia 15. Depois chegou a resposta oficial de declarar ilegais as manifestações, junto com uma advertência do Ministério Público de que seus organizadores serão julgados se violarem a lei. A plataforma Arquipélago dobrou a aposta e manteve a convocação. Nesta disputa, inédita em Cuba, a tensão cresce à medida que as horas passam, e o confronto já é escancarado.

Os principais organizadores do protesto denunciam uma campanha de pressões sem precedentes, com atos de repúdio, ofensivas midiáticas de descrédito, detenções arbitrárias, intimidações às famílias, demissões, condenações exemplares para os detidos durante os protestos de 11 de julho e ameaças de que serão severamente punidos por diversos delitos se saírem à rua nesse dia – incluindo o crime de rebelião, que pode acarretar penas de 20 anos de prisão. Para denunciar possíveis atos de repressão contra quem manifesta seu apoio à marcha, a plataforma Arquipélago criou uma comissão independente de juristas para auxiliar os manifestantes do próximo dia 15, a qual já recebeu dezenas de denúncias.

As autoridades insistem em que tudo é parte de uma manobra orquestrada por Washington, elevando o tom das suas acusações contra o principal líder do Arquipélago, o dramaturgo Yunior García. Na segunda-feira, apresentou-se um agente da segurança infiltrado na dissidência, segundo quem García é um “líder criado por manuais” e preparado pelos EUA com o propósito de provocar um enfrentamento civil em Cuba.

A acusação do chamado agente Fernando – na verdade o médico Carlos Leonardo Vázquez González – foi feita no programa Razones de Cuba, da TV estatal, que em comparou Yunior García a Vaclav Havel, dissidente do regime comunista tcheco que depois se tornaria presidente do seu país. García foi acusado pelo agente de participar em 2019 em uma oficina, organizada na Espanha pela universidade norte-americana de Saint Louis, sobre “o papel das forças armadas em uma transição”, com a presença do ex-premiê espanhol Felipe González. A televisão oficial acusou o ex-chefe de Governo do país europeu de ser o criador dos “Grupos Antiterroristas de Liberação responsáveis por sequestros, torturas e assassinatos [no contexto do conflito separatista basco]”.

Segundo Vázquez, o líder do Arquipélago “está convocando a uma marcha que diz ser pacífica [...], mas ele sabe que não é pacífica, porque na oficina paramilitar da qual participamos havia dois generais”, denunciou. “O que ele está procurando é o enfrentamento das Forças Armadas com o povo, e isso não permitiremos”, acrescentou o espião no vídeo exibido, que também vincula García a figuras do exílio histórico dos cubanos em Miami, que Havana acusa de estar por trás de diversas atividades terroristas contra Cuba.

Imediatamente depois da exibição dessa entrevista, García denunciou um ato de repúdio às portas da sua casa, e nesta quarta-feira respondeu às acusações: “Entendo a necessidade do regime de buscar a quinta pata do gato para negar o óbvio. O Arquipélago e a passeata são propostas totalmente genuínas, nascidas dentro de Cuba, como resultado da crise econômica, política, social, cultural e moral que sofremos os cubanos, como consequência da falta de direitos, democracia, liberdade e soberania popular que enfrentamos há sete décadas”.

García, que em numerosas ocasiões rejeitou as acusações oficiais de ser um “operador político dos EUA”, declarou que a oficina na capital espanhola foi transparente e agradeceu “ao evento acadêmico de três dias em Madri pela oportunidade de conhecer a Guernica, de visitar museus, de falar de mudanças políticas em Cuba como algo absolutamente normal e necessário, de perguntar a Felipe González sobre aquelas noites de pesca com Fidel e de aumentar minha cultura sobre o papel dos exércitos em sociedades democráticas”.

A duas semanas da manifestação, as coisas estão assim de inflamadas em Cuba, onde o ocorrido não é habitual nem pode ser entendido sem levar em conta o novo papel desempenhado pelas redes sociais e as graves penúrias econômicas que transformam o cotidiano da ilha em um calvário. Em um ambiente hiperpolarizado depois dos protestos de 11 de julho, detratores e defensores da plataforma Arquipélago inundam o Facebook e o Instagram com suas opiniões, transformando essas redes sociais em alto-falantes de posições extremas, embora também haja apelos por prudência e para evitar que haja violência no dia 15, ultrapassando uma linha vermelha.

Washington promete seguir a situaçãode perto

A chamada Marcha Cívica pela Mudança não poderia ter mais propaganda. Desde sua convocação pela plataforma Arquipélago, há mais de um mês, centenas de páginas foram escritas a seu respeito, a favor ou contra, e até o Governo cubano lhe dedicou espaços destacados na imprensa e nos discursos, acusando os EUA de estarem por trás do que considera uma “manobra subversiva”. Grupos do exílio apoiaram a marcha desde o início, convocando manifestações paralelas em mais de 50 cidades do mundo, enquanto deputados e senadores cubano-americanos também a respaldaram. Até a Administração Biden declarou que vigiará de perto os acontecimentos desse dia. Antecipando-se aos fatos, Juan González, o principal assessor do presidente Biden para a América Latina, afirmou que os Estados Unidos responderão, possivelmente com sanções, se houver “violação dos direitos fundamentais” do povo cubano ou processos contra os organizadores da manifestação. Na União Europeia, deputados do Partido Liberal pediram ao Parlamento que seus diplomatas em Havana saiam às ruas nesse dia para monitorar de perto os acontecimentos.
Para o Governo cubano, a Marcha pela Mudança não é mais do que “uma tentativa de gerar um clima de insegurança, desestabilização e ingovernabilidade, justamente no dia que o país abre suas fronteiras internacionais e mais de 1,6 milhão de alunos voltam às escolas”. Para os opositores da plataforma Arquipélago, trata-se simplesmente do exercício de um direito legítimo, o de manifestação, para expressar seu desacordo com o sistema.

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