Governo cubano alerta que não permitirá protesto pacífico convocado por opositores

Presidente Díaz-Canel anuncia pulso firme contra a “Marcha pela Mudança” marcada para 15 de novembro: “Há revolucionários suficientes para enfrentar qualquer manifestação que pretenda destruir a Revolução”

O presidente Miguel Díaz-Canel, ao centro, durante uma caminhada pelo bairro de La Timba, em Havana, na sexta-feira passada.
O presidente Miguel Díaz-Canel, ao centro, durante uma caminhada pelo bairro de La Timba, em Havana, na sexta-feira passada.Alejandro Azcuy (EFE)

A tensão política cresce em Cuba a poucas semanas do 15 de novembro, data em que ativistas de oposição organizados em torno da plataforma Arquipélago convocaram uma marcha pacífica “pela mudança”, declarada ilegal pelo Governo, mas que seus promotores insistem em realizar em várias cidades do país, amparando-se no direito de manifestação previsto na Constituição. Trata-se de algo sem precedentes em Cuba. Em mais de 60 anos de regime comunista, nunca antes se pediu uma permissão oficial para protestar contra o Governo, desafiando abertamente as autoridades com mobilizações nas ruas, uma disputa em que a corda se estica mais a cada dia. Depois de proibir a passeata por considerá-la uma “provocação” com “fins desestabilizadores”, na quinta-feira passada o Ministério Público intimou os principais organizadores para informar-lhes que, se insistirem em sair às ruas no próximo dia 15, incorrerão em vários delitos, como desobediência, manifestação ilícita e incitação ao crime, e serão julgados com severidade. A plataforma Arquipélago mantém a convocação, e o próprio presidente Miguel Díaz-Canel referiu-se no domingo passado à marcha em uma reunião do Partido Comunista de Cuba (PCC), advertindo que haverá tolerância zero. “Aqui há revolucionários suficientes para enfrentar (…) qualquer tipo de manifestação que pretenda destruir a Revolução”, declarou.

A mensagem é clara. E dá a dimensão de como a chamada Marcha Cívica pela Mudança —convocada para reivindicar “a liberação de todos os presos políticos, o fim da violência, o respeito aos direitos de todos os cubanos e a solução das diferenças através de vias democráticas e pacíficas”— revirou o tabuleiro político em Cuba, que ainda digere o choque dos gigantescos protestos de 11 de julho.

É revelador que Díaz-Canel tenha dedicado a esse assunto uma boa parte do seu discurso no Comitê Central do PCC, com a presença do ex-presidente Raúl Castro. O mandatário mencionou os fatos de julho, insistindo que “foram apenas provocações e atos de vandalismo” como parte de uma estratégia de “guerra não convencional” dos Estados Unidos. “Trata-se de manter uma narrativa que pretende apresentar o 11 de julho como uma referência de ruptura e de rechaço popular à Revolução, e das tentativas de aproveitar as inconformidades existentes para provocar desestabilização”, afirmou. Mas aquele protesto, prosseguiu, “não é uma referência de ruptura; é, aliás, uma referência de unidade, e o 11 de julho constituiu mais uma vitória da Revolução Cubana. Os revolucionários saíram para defender a Revolução com moral elevado, com disposição para lutar e vencer. Eles acreditavam que a Revolução seria derrubada em algumas horas, como acreditaram quando da queda do campo socialista, mas outra vez se enganaram”.

Sem a comoção do 11 de julho não teria havido a convocação para o 15 de novembro, que se tornou um novo divisor de águas político, gerando grande expectativa sobre o que acontecerá nesse dia na ilha. Para o Governo, as duas datas são parte das mesmas “manobras desestabilizadoras” de Washington. “O objetivo declarado do Governo norte-americano é derrubar a Revolução Cubana. A esperança do inimigo é que nossas grandes dificuldades materiais amoleçam o povo e o façam ficar de joelhos, por isso alimenta o desleixo com a ideia de que o país não pode resistir”, segundo Díaz-Canel. “A estratégia”, afirmou, “é criar o máximo de descontentamento dentro do nosso país. Fomentar a instabilidade através da piora das condições de vida da população, nos dificultar cada vez mais a possibilidade de sobreviver, para nos conduzir à eclosão de um conflito violento”.

O dramaturgo Yunior García, líder do Arquipélago e principal promotor da manifestação, considera que, ao proibi-la, o Governo deixou claro “que não está disposto a estabelecer nenhum tipo de diálogo civilizado nem de abrir espaços políticos aos cidadãos”. Ele e os demais artistas e ativistas envolvidos nessa plataforma cívica rejeitam as acusações de mercenarismo feitas pelo poder e defendem seu direito a se manifestar e a tratar de promover uma mudança em Cuba por vias pacíficas. E afirmam que não vão parar. “Não somos esse rosário de adjetivos com os quais tentam nos desqualificar. Não chegamos de paraquedas para semear o caos e a hecatombe. Somos o fruto da nossa realidade, dura e crua. Somos como qualquer um que faz filas e corre atrás de um ônibus e compra café por baixo do pano, como qualquer um que entende como a coisa está ruim e diz palavrões singularmente nossos. Mas há algo de diferente; já não funciona mais o moedor governista de continuísmos obedientes nem dogmas irrevogáveis. Cabe a nós fazer que a palavra revolução volte a significar mudança, e que a soberania finalmente seja nossa, dos cidadãos”, disse García após a notificação dos promotores.

Ainda continuam detidas centenas de pessoas que participaram das manifestações de 11 de julho, e há risco de choque se o protesto do próximo dia 15 for mantido. “Que saibam os imperialistas que terão que lutar contra um povo que não se deixa enganar, um povo suficientemente numeroso, valente e heroico para lutar, ao qual as ameaças não assustam!”, disse Díaz-Canel ao encerrar a reunião do Comitê Central.

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