Quem são os principais líderes do Talibã

O veterano mujahedin e líder religioso Hibatullah Akhundzada comanda o grupo insurgente e deve se tornar na prática o dirigente máximo do Afeganistão quando for concluída a transferência de poder

Um grupo militantes do Talibã no palácio presidencial de Cabul, em uma imagem da Al Jazeera exibida em 16 de agosto. Em vídeo, o Talibã toma o Palácio presidencial de Cabul. FOTO: AFP / VÍDEO: REUTERS / AL JAZEERA
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O ex-presidente afegão Hamid Karzai, o homem-forte no Governo de transição entre a queda do regime Talibã no final de 2001 e as eleições presidenciais de 2014, será um dos encarregados de negociar com a milícia fundamentalista a transferência de poderes que ocorre atualmente em Cabul. Não faz muito que Karzai e líderes do Talibã se viram pessoalmente. Em março, em Moscou, numa conferência sobre o Afeganistão, junto a representantes norte-americanos, chineses, russos e paquistaneses, Karzai compartilhou mesa com dois dos homens mais visíveis da atual cúpula do Talibã. A três cadeiras do ex-presidente afegão se sentaram o mulá Abdulghani Baradar e Sher Mohammad Abbas Stanikzai, membros das shuras (assembleias) de Quetta (Paquistão) e Rahbhari, principais órgãos de liderança do grupo insurgente. Estes são os principais líderes e nomes da atual direção do Talibã:

Abdulghani Baradar. A história do mulá (líder religioso) Abdulghani Baradar, nascido na província de Uruzgan em 1968, serve sem dúvida para ilustrar o apogeu, queda e ressurreição do Talibã. Baradar é um dos fundadores deste movimento fundamentalista surgido no final da década de 1980 nos seminários religiosos da fronteira afegão-paquistanesa. Sob a direção do mulá Mohamed Omar, o mais procurado pelos Estados Unidos junto a Osama Bin Laden depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Baradar ocupou vários postos no aparelho militar do Talibã até a invasão norte-americana. A Interpol o situou como vice-ministro de Defesa do regime deposto no final de 2001.

Depois daquela derrota do Talibã, Baradar sempre manteve uma posição de liderança e um perfil propício às negociações. Em fevereiro de 2010, as forças de segurança paquistanesas detiveram esse líder do Talibã na cidade de Karachi, um golpe comemorado pelos EUA. Em outubro de 2018, oito anos e meio depois, Baradar foi libertado. Conforme publicou o jornal paquistanês The News na ocasião, ele foi solto a pedido do Governo do Qatar, país que acolheria as negociações de paz entre o Governo afegão e o Talibã.

Abdul Ghani Baradar, vice-líder e negociador do Talibã, e dois outros membros da delegação participam da conferência de paz afegã em Moscou, Rússia, em 18 de março de 2021.
Abdul Ghani Baradar, vice-líder e negociador do Talibã, e dois outros membros da delegação participam da conferência de paz afegã em Moscou, Rússia, em 18 de março de 2021.POOL (Reuters)

Atualmente, Baradar é o líder político do Talibã e um de seus rostos mais conhecidos. Porém, no topo da estrutura está Maulaui Hibatullah Akhundzada, nascido em 1961 em Panjwayi, na província de Kandahar. Akhundzada é considerado o emir al muminin, ou seja, o líder ou príncipe dos crentes, máximo dirigente político, religioso e militar do Talibã e dos seus fiéis. Deste modo, quando se confirmar a transmissão de poderes aos fundamentalistas, após a saída do presidente Ashraf Ghani do país, Akhundzada seria o principal dirigente desta espécie de emirado islâmico que o grupo armado pretende instaurar no Afeganistão.

De Akhundzada se sabe menos. Veterano da guerra contra a União Soviética na década de 1980, como a maioria dos líderes do Talibã, seu papel esteve mais vinculado ao aparato religioso, à frente dos rigorosos tribunais da sharia (lei islâmica) e das escolas corânicas na província paquistanesa do Baluchistão, que faz fronteira com o sul do Afeganistão. O veterano mujahedin assumiu as rédeas do Talibã depois da morte, em um ataque dos EUA em 2006, do mulá Akhtar Mohamed Mansur, sucessor do mulá Omar, falecido em 2013 por causa de uma doença em um hospital de Karachi (Paquistão).

Haibatullah Akhundzada, líder da milícia Talibã, em uma foto divulgada em 2016.
Haibatullah Akhundzada, líder da milícia Talibã, em uma foto divulgada em 2016.REUTERS

Nenhum dos anteriores aparece na lista dos mais procurados do Departamento de Estado norte-americano. Esse é o caso – associado a uma recompensa de 10 milhões de dólares por informações sobre seu paradeiro – de Sirajuddin Haqqani, líder da rede Haqqani, organização considerada terrorista por Washington desde 2012 e estreitamente vinculada ao Talibã. Muitos membros desta organização familiar armada estão entre os alvos da guerra ao terrorismo ainda travada pelos EUA.

Sirajuddin Haqqani, que tem entre 40 e 50 anos de idade, lidera a rede há precisamente 20. Os serviços de inteligência norte-americanos situam esta organização no Waziristão, na fronteira entre o Paquistão e Afeganistão, de onde atacou as forças regulares afegãs e da coalizão liderada pelos EUA. Ele foi também responsabilizado por uma tentativa de assassinato contra o agora ex-presidente Ashraf Ghani.

Cartaz do FBI com fotos sem data de Sirajuddin Haqqani.
Cartaz do FBI com fotos sem data de Sirajuddin Haqqani.Handout . (Reuters)

Conforme veio à tona através de entrevistas concedidas por um dos porta-vozes do Talibã, Zabihullah Mujahid, Sirajuddin Haqqani estaria no comando do leste do país, a área que faz fronteira com o Paquistão. Junto a Baradar e Haqqani, o mulá Mohamed Yaqoob completaria o trio de lugares-tenentes sob as ordens do emir Akhundzada no organograma do Talibã. Yaqoob, de 30 anos, é o filho do mulá Omar, fundador do Talibã e primeiro emir afegão. Educado em Karachi, estaria à frente das operações militares do grupo fundamentalista.

Naquela reunião de março em Moscou estava também Sher Mohammad Abbas Stanikzai, nascido na província de Logar em 1963, responsável pelo escritório político do Talibã em Doha (Qatar), embora não lidere as negociações. Também veterano da jihad armada contra os soviéticos, Stanikzai é um dos rostos mais retratados do aparelho político do grupo armado, graças à sua atividade diplomática no exterior e por ter falado em inglês à mídia ocidental durante o Governo do Talibã (1996-2001). Stanikzai ocupou na época diferentes cargos nos ministérios de Saúde e Relações Exteriores do Talibã.

À frente da equipe negociadora do Talibã em Doha, sede das conversações entre o grupo armado e o Governo afegão, encontra-se desde setembro Maulaui Abdul Hakim Haqqani, de 53 anos. Ex-chefe judicial da organização, autor de várias fátuas (decretos religiosos) durante os últimos cinco anos, Hakim Haqqani é considerado um dirigente duro, próximo do emir Akhundzada e uma das referencias religiosas mais respeitadas entre os talibãs.

Finalmente, dois nomes estão começando a soar como porta-vozes habituais do grupo islâmico neste atual esforço do grupo insurgente por apresentar um rosto mais amável à comunidade internacional: Suhail Shaheen, porta-voz em Doha – que chegou a entrar em contato com a BBC para relatar em um programo ao vivo quais são os planos do Talibã nesta transição de poder –, e o representante do escritório político do grupo, Mohamed Naeem.

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