Crise política na Nicarágua

Lesther Alemán, líder estudantil detido pelo regime de Ortega, antes da prisão: “A Nicarágua é um cárcere”

Antes de ser preso, o líder estudantil concedeu ao EL PAÍS, na clandestinidade, uma das suas últimas entrevistas a um veículo de comunicação

O líder estudantil Lesther Alemán, detido pelo regime de Daniel Ortega, em uma imagem de 9 de junho, em Manágua.
O líder estudantil Lesther Alemán, detido pelo regime de Daniel Ortega, em uma imagem de 9 de junho, em Manágua.Jorge Torres / EFE

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Em abril de 2018, depois de um mês de sangrenta repressão contra os estudantes que deixou quase 400 mortos, muitos deles com um tiro no pescoço e na têmpora, um jovem de 20 anos, com a bandeira azul e branca da Nicarágua enrolada no pescoço, se levantou diante de Daniel Ortega e o chamou publicamente de assassino. Até ser detido nesta segunda-feira, esse jovem, chamado Lesther Alemán, viveu na clandestinidade, de onde conversou com o EL PAÍS.

Pergunta. O que há por trás das últimas detenções?

Resposta. Estamos enfrentando uma ditadura no papel aqui na Nicarágua. Digo “no papel” porque havia evidências de viver uma ditadura de facto, porque se estava privando da vida, restringindo liberdades e o cumprimento de direitos básicos. A mudança de uma ditadura de facto para outro tipo de repressão chega com a aprovação de quatro leis que buscam amedrontar a participação política da dissidência. O regime decide quem é traidor da pátria, consciente de que os aponta por estarem na oposição, viajarem ao exterior ou se reunirem com organismos como a OEA, a União Europeia e a ONU. Ortega segue uma narrativa não superada da década de 1980, em que criaram o mito de que confrontam um império. Um império que não existe, porque a condenação é mundial.

P. Os detidos pertencem ao mundo político, empresarial e dos direitos humanos. Qual é a mensagem?

R. A mensagem é: “Vou atrás de todos e acima de todos”. Há mensagens dirigidas a líderes políticos, aos empresários, aos jornalistas e aos defensores de direitos humanos. Há uma mensagem que é o ódio, a exclusão, a arbitrariedade, a perseguição e a incitação. A Frente Sandinista é uma estrutura desenhada para controlar, amedrontar e se perpetuar. Foi desenhada para matar.

P. Você acha que Ortega intui uma derrota eleitoral em novembro?

R. Daniel Ortega quer fazer o possível para que a oposição se retire da disputa. Ortega tem uma estratégia de sufocação política, econômica e social para que a oposição fique desmontada perante um cenário eleitoral. Isto lhe dá dois resultados: aumentar a abstenção dos nicaraguenses e impedir que se possa denunciar uma fraude, porque será muito difícil fazê-lo se decidir não participar. Desta maneira poderia justificar um quarto mandato consecutivo.

P. Acredita que Ortega vai querer negociar?

R. Daniel Ortega sabe que não vai ganhar as eleições, e por isso recorreu ao medo, à perseguição e ao encarceramento. Para negociar, Daniel Ortega tem que estar em posição de força, tem por sua vez que golpear o adversário, mas eu considero que a aposta dele ainda é sobreviver ao cenário eleitoral e posteriormente talvez restabelecer um pouco de negociação, como também pode ser a outra probabilidade de se preparar para negociar às portas de 7 de novembro.

P. Ele prende para sobreviver?

R. Há um regime que, por meio das armas, reluta em deixar o poder, mas que perdeu aceitação nacional e internacional. Sabe que está em jogo a sobrevivência social, política e econômica do país, mas parece não se importar. Em meio à nossa resistência humana temos um regime que nos pisoteia cada dia mais.

P. Como poderia definir o ambiente no país?

R. O leitor que está fora da Nicarágua deve compreender que se trata de um cárcere que se estende até as fronteiras. Aqui é mais fácil ver um policial com armas de alto calibre que uma árvore. Fomos condenados a dois cenários na Nicarágua: a prisão ou a morte, mas demonstramos que existe esperança de lutar por liberdade.

P. Qual foi o custo pessoal destes três anos desde que você confrontou Ortega publicamente?

R. Nos últimos 12 anos, Ortega se centrou em uma política de exclusão, populismo barato e eliminar o que restava de opositores, comprando-os ou exilando-os, preparando dois caminhos: sua perpetuação no poder e proteger seus bens. Em três anos foram mais de 400 mortos, 6.200 presos políticos, 130.000 exilados e a perda de mais de 300.000 empregos.

P. E o custo pessoal?

R. Recriminar Ortega significou uma mudança de vida radical. Vivi perseguição, vida clandestina, pausa nos meus estudos, assédio aos meus pais, a separação que vivi da minha família e obviamente os traumas a uma geração marcada por uma pessoa de 75 anos que se apega ao poder. Não posso ir a um lugar público com tranquilidade. Nem sequer à igreja, porque tenho que permanecer em um lugar clandestino.

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