Conflito político emperra vacinação contra covid-19 na Venezuela

País atravessa uma segunda onda de contágios com hospitais lotados e os planos de imunização atrasados

Agentes de saúde aplicam vacinas em um hospital público de Caracas (Venezuela), em março.
Agentes de saúde aplicam vacinas em um hospital público de Caracas (Venezuela), em março.MIGUEL GUTIÉRREZ (EFE)
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As curvas do Google Trends podem dar uma ideia da situação atual da covid-19 na Venezuela. A ferramenta mostra como as buscas com a palavra “oxigênio” dispararam no último mês. Os relatórios oficiais indicam um aumento de casos, mas inferior à percepção nas ruas, onde crescem os apelos desesperados por respiradores e leitos hospitalares e se multiplicam as vaquinhas destinadas a ajudar os doentes.

Nas últimas três semanas, os casos positivos de coronavírus passaram de pouco mais de 700 para quase 1.800 por dia, o maior número relatado no país que menos faz exames de covid-19 na região, conforme alertou a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Assim a Venezuela vive a sua segunda onda de contágios, de maior expansão e impacto que a anterior, em meio a uma crise política, social e econômica que complica o panorama e dificulta o arranque da vacinação.

O prolongado atrito entre o chavismo e a oposição liderada por Juan Guaidó alcançou uma trégua em junho passado, quando foi assinado um acordo conjunto para a gestão da pandemia, com mediação da OPAS. Com vários tropeços, o acordo permitiu que recursos do Estado depositados no exterior ―os quais são controlados por Guaidó, devido às sanções impostas pelos Estados Unidos ao regime chavista― fossem usados para a compra de equipamentos de proteção para os profissionais da saúde (mais de 400 deles morreram em um ano) e a ampliação da capacidade de diagnóstico. Ao todo, 137 toneladas de produtos médicos chegaram por essa via, pagos com 10 milhões de dólares (56 milhões de reais) “descongelados” por iniciativa do dirigente opositor.

Já neste ano, os mesmos atores voltaram a se sentar ao redor de uma mesa com um só objetivo: elaborar um plano único para a vacinação maciça e obter o acesso ao mecanismo Covax da OPAS, apesar das dívidas que o país acumula desde 2017 com alguns de seus fundos. O organismo multilateral reservou entre 1,4 milhão a 2,4 milhões de doses da vacina da AstraZeneca para a Venezuela. A comissão parlamentar dirigida por Guaidó já iniciou os trâmites administrativos para o pagamento de 30 milhões de dólares pelo primeiro lote e para fazer os investimentos que garantam a cadeia de frio no deteriorado sistema de saúde venezuelano.

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Recusa de Maduro à AstraZeneca

Tudo parecia correr bem. Mas, horas depois do anúncio, Nicolás Maduro recusou a oferta das doses da AstraZeneca, baseando-se nos alarmes ativados em outros países após os casos de trombose entre alguns indivíduos vacinados. “Não vai entrar nenhuma vacina no país, nem deve ser enviada, que não tiver sido autorizada por nossos institutos científicos nacionais”, declarou o mandatário há alguns dias, para em seguida afirmar que a Venezuela não precisava “mendigar” vacinas.

A maioria dos países da região já iniciou seus planos de vacinação, alguns com atrasos, outros com mais velocidade. A Venezuela recebeu apenas 750.000 doses (500.000 da chinesa Sinopharm e 250.000 da russa Sputnik V), suficientes para apenas 1,3% da população. Só para imunizar os profissionais sanitários seriam necessárias um milhão de doses. O Governo dá poucas explicações. Até agora, foram vacinados apenas uma parte dos trabalhadores do setor sanitário e alguns professores, além de deputados, governadores, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. “Eu já me vacinei. Tenho imunologia [sic]”, alardeava Maduro neste domingo. Para aplicar uma dose em 70% dos venezuelanos seriam necessárias 20 milhões de vacinas. O país está muito longe desse objetivo.

O chavismo não quis aparecer retratado nos esforços de negociação política para obter as vacinas através do Covax. Também parece se negar a cumprir os acordos. “Há uma guerra no mundo pelas vacinas, e a vacinação não teve o impacto desejado”, disse Maduro, enquanto ordenava uma terceira semana consecutiva de confinamento rigoroso em todo o país. “Até agora, a primeira geração de vacinas que existe são vacinas que protegem o corpo para que a doença não te pegue tão forte, mas não impedem que você se contagie. Você estando vacinado pode se contagiar e transmitir”, acrescentou.

Uma das condições do acordo com a oposição era que o plano cumprisse critérios técnicos e epidemiológicos e que a distribuição fosse politicamente neutra. Apesar do desplante do Governo, as gestões junto ao Covax continuam, afirmam fontes envolvidas na negociação.

Maduro rejeitou as doses da AstraZeneca, mas apostou nas vacinas experimentais de Cuba: a Soberana 02 e a Abdala. O mandatário disse que 30.000 dose de cada protótipo chegarão neste mês para serem aplicadas como parte da fase 3 dos ensaios clínicos. Em junho, acrescentou, sua aplicação será maciça.

As boas relações da Venezuela com a China e a Rússia não se traduziram, até agora, em um maior acesso às vacinas produzidas por esses dois países. Maduro prometeu em outubro que até abril chegariam 10 milhões de doses da Sputnik V, um anúncio que se desvaneceu em meio à pressão mundial para obter vacinas.

Preocupação empresarial

A entidade patronal Fedecámaras também apresentou há alguns dias um plano para participar da vacinação e oferecer recursos para a compra de cinco milhões de doses, que serviriam para imunizar trabalhadores do setor privado.

A incerteza sobre a vacinação alimentou a preocupação de vários setores num momento em que a imunização deve se acelerar para evitar o desastre. Nas redes sociais, nos últimos dias ganharam espaço as hashtags #VacunasParaLosVenezolanos (“vacinas para os venezuelanos”) e #DejenEntrarLasVacunas (“deixem as vacinas entrarem”), que servem para expor os obstáculos. “Se vacinarmos e evitarmos a propagação ampla do vírus evitaremos a aparição e impacto de novas variantes, abrindo o caminho para sairmos da pandemia”, disseram nesta semana as academias de Medicina e Ciências Físicas, Matemática e Naturais em um comunicado no qual cobram urgência na criação de um plano robusto de vacinação contra a covid-19 na Venezuela.

Sem oxigênio

Enquanto a vacinação está emperrada, a covid-19 avança como um tsunami, depois de ficar quase todo o ano passado sob controle. Sem gasolina e sem conexões aéreas, os venezuelanos vêm tendo pouco contato entre suas regiões e com o resto do mundo. Em março, Arianallys Pea precisou conseguir um concentrador de oxigênio para seu pai, afetado pelo vírus e com agravantes de diabetes e obesidade. Na sua casa, tanto ela quanto seus pais adoeceram. Com mal-estar leve, a jovem de 23 anos, sem um seguro médico privado, administrou o atendimento de toda a família para evitar ter que recorrer aos colapsados hospitais públicos de Caracas.

Durante vários dias, Arianallys ligou para mais de cem fornecedores e particulares em busca de oxigênio. “Não disponível”, escutou dezenas vezes, até que um dia conseguiu um equipamento que poderia usar durante 15 dias. Pagou 300 dólares (1.677 reais). Durante sua busca, lhe ofereceram equipamentos para vender ou, no caso dos alugados, com cauções que variavam de 1.500 a 5.000 dólares, num país onde o salário mínimo é de apenas um dólar. Entre vários membros da família, levantaram o dinheiro para a máquina e para o atendimento por um médico domiciliar. “É angustiante, porque isto se complica de uma hora para a outra”, comenta por telefone.

A crise do oxigênio é um indicador claro do aumento dos casos, mas há pouco a fazer quando se chega a este ponto, reconhece Betulio Chacín, presidente da Sociedade Venezuelana de Pneumonologia. “Um paciente com enfisema pulmonar, asma ou fibrose pulmonar pode precisar de dois a três litros de oxigênio por minuto. O que estamos vendo é que nos pacientes com covid-19 precisamos de 15 litros de oxigênio por minuto, por isso é necessário conectar dois cilindros ao mesmo tempo, e uma só pessoa pode acabar com até seis por dia”, explica o especialista falando de Maracaibo, no noroeste da Venezuela, onde o sistema hospitalar alcançou seu limite no ano passado.

“Não há maneira de suprir essa demanda por oxigênio ao mesmo tempo, porque foge a qualquer cálculo”, acrescenta. Por isso, esse médico se une ao apelo de outros setores. “Conseguir vacinas é o mais importante, e começar a vacinar os que estão na batalha do dia a dia, porque vamos ficar sem pessoal”, adverte. “Cada vez que morre um trabalhador da saúde, o medo cresce.”

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