Pandemia de coronavírus

Brasil se prepara para turbulência puxada por Petrobras enquanto mercados globais acumulam alta

Nas bolsas mundiais, petróleo atinge as maiores cotações nos últimos doze meses e analistas discutem risco de bolha. Bolsonaro injeta incerteza sobre estatal e fala em “meter o dedo” no setor de energia

Fachada da sede da Petrobras, no Rio.
Fachada da sede da Petrobras, no Rio.SERGIO MORAES / Reuters

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O barril de petróleo do tipo Brent chegou perto dos 65 dólares (cerca de 350 reais) nesta semana, o maior valor em um ano, após o forte declive há dez meses, impacto da pandemia. Não é apenas o petróleo. Matérias-primas como o cobre estão atingindo seu pico em quase uma década, impulsionadas pela crescente demanda da China. As bolsas dos Estados Unidos e da Ásia (nem tanto as europeias) nadam na abundância. No entanto, nada disso se aplica ao Brasil ou à gigante estatal brasileira Petrobras. Enquanto os analistas discutem se há risco de uma nova bolha na bonança global, o país se prepara para uma das semanas mais tensas na sua principal Bolsa, a de São Paulo, por conta das incertezas sobre o futuro da empresa e de outras sob controle do Governo, especialmente a Eletrobras, provocadas pelas recentes ações e declarações de Jair Bolsonaro.

O presidente brasileiro, que se elegeu dizendo aderir às teses liberais e pró-mercado, na sexta-feira indicou o general Joaquim Silva e Luna, ex-ministro da Defesa e atual diretor-geral da hidrelétrica Itaipu Binacional, para substituir Roberto Castello Branco no comando da Petrobras. A decisão, que precisa ser chancelada pelo conselho de administração empresa na terça-feira, veio depois de dias de críticas do presidente à política de preços dos combustíveis da estatal, atualmente atrelados à variação mundial. Só na sexta as ações da Petrobras chegaram a cair quase 8%.

No fim se semana, Bolsonaro resolveu dobrar a aposta e prometeu “mais mudanças”. Chamou o aumento do diesel acumulado no ano de “covardia” ―um claro aceno à estratégica categoria dos caminhoneiros que apoia o Planalto. Enquanto isso, seu indicado Silva e Luna dava à Folha de S. Paulo declarações mais amenas: negou que a intenção seja qualquer intervenção na empresa. A apoiadores, o presidente prometeu ainda “meter o dedo na energia elétrica, que é outro problema também”. Foi o suficiente para que os analistas já anunciassem uma segunda-feira agitada. Não só para a Petrobras, mas também para a Eletrobras e a cotação do dólar frente ao real. No domingo, a XP investimentos estimou que o real deve cair 2% em relação à moeda americana nesta segunda-feira e que o índice Ibovespa deve recuar 4%, de acordo com a sondagem feita com clientes institucionais.

Bonança mundial e risco de bolha

Longe das crises autoinfligidas do Brasil, o mundo mira para a alta das commodities. Algumas vozes alertam agora para um aquecimento excessivo dos mercados. A questão é se estamos assistindo apenas a uma melhora racional ou à gênese de outra bolha em algum dos setores em expansão. Na terceira edição de seu livro Exuberância Irracional, publicado em 2015, o prêmio Nobel de Economia Robert J. Shiller disse que parecia lógico pensar que as pessoas tivessem aprendido a lição com o último impacto financeiro para não voltarem aos mercados em expansão. “Mas as evidências de que existem bolhas têm se precipitado desde a crise”, acrescentou.

Os especialistas consultados reduzem o tom do alarme. A ideia mais difundida é que os mercados já enxergam o fim da crise econômica provocada pela pandemia que, graças às vacinas, poderia ser superada durante o segundo semestre. Os perigos para a estabilidade financeira estão à espreita: existe medo tanto de que uma nova mutação do coronavírus arruíne tudo o que se avançou quanto de um excessivo aquecimento dos mercados que acabe gerando alta inflação ou novas bolhas. Mas esses riscos, por enquanto, são baixos.

O combustível com o qual se queima mais madeira está claro. Os pacotes de estímulos que os Governos de meio mundo aprovaram para combater a crise ―o mais recente é o plano de 1,9 trilhão de dólares (cerca de 10,23 trilhão de reais) que a gestão Biden finaliza nos Estados Unidos―, bem como o fluxo de recursos injetados desde muito tempo pelos bancos centrais enche a economia de liquidez. “É verdade que existe um acúmulo de estímulos que pode ser até excessivo, mas neste momento é melhor errar pela prudência. Se nada der errado ao longo do caminho, poderemos assistir a uma saída da crise um pouco mais potente do que acreditávamos até recentemente”, afirma José Manuel Amor, diretor de Análise Financeira da consultoria Afi. “As coisas estão simplesmente voltando ao seu curso, à certa normalidade de uma economia que, no final de 2019, antes do terremoto do coronavírus, desacelerava lentamente”, acrescenta o analista Juan Ignacio Crespo. Certa normalidade é, por exemplo, que o barril de brent esteja sendo negociado em torno de 63 dólares. É verdade que a alta do petróleo é fortemente influenciada por fatores circunstanciais, como a nevasca histórica no Texas ou a diminuição da produção na Arábia Saudita, mas também há uma corrente de fundo de melhora na demanda e nas perspectivas econômicas.

As bolsas também se beneficiam dessas melhores expectativas, mas nem todas. Enquanto os índices nova-iorquinos Dow Jones e S&P mais do que recuperaram seus níveis pré-crise ―sem falar no tecnológico Nasdaq, que quase dobrou seu nível de março do ano passado―, os europeus ainda estão longe de reconquistar tudo o que perderam por causa da crise do coronavírus. O Ibex espanhol está quase 20% abaixo de onde estava há um ano.

Na reunião de janeiro, os diretores do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, mostraram preocupação com a elevada valorização de alguns ativos, de acordo com as atas publicadas nesta semana. O Banco Central Europeu também discutiu em sua última reunião a possibilidade de que o recente aumento da rentabilidade do mercado de dívida esteja antecipando pressões altistas sobre os preços. Mas o órgão chefiado por Christine Lagarde descarta os riscos inflacionários e continua apostando na manutenção dos estímulos.

Voltando ao título do livro de Robert J. Shiller, até que ponto esses altos e baixos respondem a dados fundamentais da economia ou são apenas mais um exemplo de mercados cada vez mais difíceis de entender? “As bases dessa exuberância são as políticas de dinheiro barato dos bancos centrais. Há uma boa parte de irracionalidade em alguns movimentos, especialmente nas criptomoedas. Tudo indica que alguns segmentos do mercado estão caindo em excessos”, respondeu o presidente do Banco Renta 4, Juan Carlos Ureta, a este jornal na quinta-feira em um evento organizado para discutir o caso GameStop e a entrada maciça de pequenos investidores na Bolsa. “Quando a volatilidade nos mercados financeiros vem de fenômenos psicológicos ela não é boa, porque os mercados começam a parecer casinos”, acrescentou o ex-presidente da Comissão Nacional do Mercado de Valores (CNMV), Manuel Conthe. Outro caso de exuberância nos mercados, neste caso bastante irracional.



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