Venezuela

Juan Guaidó: “Não quero usar a palavra negociação; causa muitos conflitos dentro da Venezuela”

O líder oposicionista, ainda reconhecido como presidente interino 60 países, diz que manterá a agenda do Parlamento, apesar de o chavismo ter acabado de retomar o controle da Assembleia Nacional

Juan Guaidó posa para uma foto durante uma sessão em setembro de 2019 em seu gabinete na assembleia.
Juan Guaidó posa para uma foto durante uma sessão em setembro de 2019 em seu gabinete na assembleia.Carlos Becerra / Bloomberg

Já faz quase dois anos desde que Juan Guaidó (La Guaira, 37 anos) assumiu a presidência da Assembleia Nacional da Venezuela. Em questão de semanas, deixou de ser um político quase desconhecido para liderar a oposição ao chavismo. Como chefe do Parlamento, ele se proclamou presidente interino e, com forte apoio da comunidade internacional, tentou forçar a queda de Nicolás Maduro, a formação de um Governo de transição e a realização de eleições com garantias.

No entanto, a revolução bolivariana continua expandindo seu poder. Em 6 de dezembro, recuperou o controle do Legislativo em eleições marcadas por denúncias de fraude e que registraram apenas 30% de participação. Guaidó respondeu com uma consulta alternativa realizada online ao longo da semana passada e concluída no sábado com uma votação presencial. Líder do partido Vontade Popular, o mesmo de Leopoldo López, Guaidó busca conter o desgaste, a desmobilização e as críticas internas motivadas pelo fracasso da estratégia. Nesta entrevista a EL PAÍS, realizada por videoconferência, ele mostra a sua determinação em manter ativa a Assembleia Nacional de maioria oposicionista, a partir de 5 de janeiro, quando os novos deputados tomarão posse.

Pergunta. Qual a confiabilidade da consulta que vocês acabam de convocar?

Resposta. Para além do esforço que o comitê organizador fez, devemos comparar isto com o que é. Um movimento cívico, organizado a partir da sociedade civil, que é claro, no meu caso, eu promovi pessoalmente. Foram cinco dias de participação muito bem-sucedidos porque conseguiram passar mensagens importantes, apesar da pandemia e da perseguição e ao contrário do que foi o dia 6 de dezembro [realização das eleições legislativas]. Primeiro, que a organização e união são fundamentais na Venezuela. Segundo, a rejeição da fraude, mas também elevar a luta e a solução para o conflito em eleições presidenciais e parlamentares. Seria um erro comparar com o 6 de dezembro, até mesmo porque o 6 de dezembro foi feito usurpando as ferramentas e os recursos do Estado.

P. Mas quão fidedigno será um resultado que não foi auditado? Não estão cometendo um erro semelhante ao que criticam?

R. Não, essa é a grande diferença. Não se pode comparar um processo como aquele com um de manifestação de voluntários e participação cívica. Hoje ainda temos pessoas presas por terem entregue um panfleto ou terem armado um local [de votação].

P. Em 5 de janeiro terminará a legislatura da Assembleia Nacional de maioria oposicionista que foi conquistada de modo contundente em 2015, pelo qual você é reconhecido como presidente interino por cerca de 60 países. Desse dia em diante, quem será Juan Guaidó?

R. O reconhecimento internacional e a presidência interina hoje são instrumentos de defesa do que resta de democracia na Venezuela. A continuidade institucional é o princípio que estamos abraçando neste momento, por não ter havido uma eleição válida, para dar continuidade ao mandato da Assembleia Nacional e da presidência interina. Com que base? O artigo 233 da Constituição, a não eleição realizada em 6 de dezembro. Mas o mais importante é a defesa dos venezuelanos, das pessoas. Não podemos permitir um vazio na interlocução. Para chegar a uma solução, vamos necessitar de força interna e do diálogo legítimo do povo da Venezuela, o que significa manter e instalar em 5 de janeiro a continuidade constitucional do Parlamento.

P. A partir de 6 de janeiro, então, você vai continuar se considerando presidente interino?

R. Pela Constituição e a continuidade institucional com base no Parlamento nacional. Não podemos cair na armadilha. O que eles estão querendo? Aniquilar a alternativa democrática, por isso, por exemplo, não aceitaram a oferta muito sensata que a Europa fez recentemente para afastar a fraude e reunir condições para um processo reconhecido e competitivo. Maduro não está interessado na legitimidade desse processo do 6 de dezembro.

P. Você foi proclamado presidente interino e reconhecido para conseguir um objetivo: cessação da usurpação, um Governo de transição, eleições livres. Dois anos depois, nada disso foi alcançado. O seu Governo interino deve ser mantido da forma como está estruturado ou precisa ser modificado e reduzir cargos?

R. Acho que deveria ser melhorado para se tornar mais rápido. A pressão internacional tem que ser facilitada, mas também as garantias para aqueles que hoje apoiam Maduro. Qualquer transição cria incertezas, mesmo nas democracias. Em suma, a partir de 5, 6 de janeiro o que temos que fazer é fortalecer a coalizão internacional, a mobilização interna para fazer pressão, mas também as garantias, o marco para a transição.

P. Todos esses objetivos que você enfatizou muitas vezes também perderam credibilidade. Nestes dois anos, as expectativas foram muito altas e há muitas críticas à estrutura desse Governo interino. Essa estrutura deve ser mantida?

R. A revisão tem a ver com o objetivo e também com o ambiente da Venezuela. Hoje, a vida cotidiana na Venezuela é uma façanha, desde pôr gasolina até comprar comida. Se quisermos ampliar o reconhecimento do Parlamento nacional, a rejeição da fraude e aumentar as pressões, provavelmente não precisamos de 36 embaixadores, precisamos de 44. Mas, na Venezuela, como protegemos aqueles que foram nomeados pelo Governo interino?

P. No ano passado, nós lhe perguntamos sobre o fracasso de seus planos e você pediu para não confundir esse termo com frustração. Você ainda acredita que não fracassou?

R. Continuo acreditando que as pessoas querem a saída de Maduro. Nosso grande mandato é sair da ditadura, conseguir a transição e eleições livres. Tudo o que for orientado nesta direção funcionará. Ver de outra forma é dar razão à ditadura, que torturou, assassinou e roubou eleições. É preciso melhorar processos, mas sem perder de vista o contexto. Por exemplo, a desigualdade de informação. Nas emissoras de âmbito nacional a consulta popular não foi mencionada nenhuma vez, não se falou em fraude e Juan Guaidó não pôde ser citado em nenhum programa.

P. Qual foi seu principal erro nestes dois anos?

R. Acho que há duas coisas a melhorar no curtíssimo prazo. A primeira, produzir a certeza de que haverá uma transição, dar garantias precisas a todos os setores. Um exemplo pontual é como melhorar um processo como o da Noruega ou o que transcorreu em 30 de abril. As garantias são essenciais para gerar pressões e dilemas para a ditadura. E o outro elemento importante é a gestão da construção de consensos efetivos. O que isto significa? Unidade, que tem que ser em dois sentidos: a estabilidade e a governabilidade, mas também tem que ser audaz.

P. Do primeiro se deduz que a força interna talvez tenha sido um pouco deixada de lado pela força internacional, especificamente por causa do grande apoio que os EUA lhes deram. Isso foi um erro?

R. Não, mais do que isso são as garantias. Em nível interno, temos visto grandes mobilizações, grandes manifestações, mas podemos conseguir fortalecer esse quadro. Há muita gente no entorno de Maduro que também está cansada.

P. Até agora apelaram para o imediatismo. Um dos seus lemas era “o momento é agora”, mas se olharmos para o futuro se vislumbra uma espécie de travessia do deserto. O que virá agora e como você vai convencer todo o universo antichavista de que você é a pessoa certa para continuar liderando essa tentativa de forçar a mudança?

R. Aí tudo se resume, em forçar uma solução, o que podemos oferecer no curto prazo. Para poder oferecer garantias, é necessário um diálogo legítimo. Como conseguir isso? Por meio do Parlamento nacional. O Parlamento tem uma liderança e uma direção, que neste caso a presidência interina assume em razão da situação extraordinária que a Venezuela atravessa. E nisso há um consenso político de todos os partidos da alternativa democrática. Para além da pessoa, creio que existe um absoluto consenso político, tirando as diferenças públicas que vocês conhecem e que eu reconheço, mas que são opiniões e casos pessoais.

P. E a solução vai passar por uma negociação?

R. Não quero falar de negociação porque o termo é diferente, pelo que se entende na comunidade internacional e o que vivemos na Venezuela. Quando Maduro fala em negociação, ele o faz de maneira retórica, para diminuir a solução do conflito. A solução para o conflito passa por eleições presidenciais e parlamentares. Mais do que negociação, eu gostaria de falar em garantias para conseguir uma eleição. Para isso precisamos de pressão, de força, porque Maduro mostrou voluntariamente que não concorda com uma negociação. Os exemplos mais próximos são os enviados de Bruxelas a Caracas, a comissão de reivindicações, a mediação do Reino da Noruega. Eu troco a palavra negociação para torná-la mais específica e pôr na mesa garantias a todos os setores para conseguir uma eleição presidencial e parlamentar e assim não distorcer o conceito, porque Maduro até o tornou pejorativo ao fazer mau uso dele.

P. Ou seja, não se vai negociar a saída de Maduro, mas, sim, poderiam negociar as condições para que haja um cenário que permita aos venezuelanos decidir a saída ou não de Maduro.

R. Não quero usar a palavra negociação, de novo, porque isso gera muitos conflitos dentro da Venezuela. E peço ajuda à comunidade internacional para dar significado a isto, porque, se assim não for, alimentamos a narrativa da ditadura. As garantias vão permitir eleições presidenciais e parlamentares. Considero que é importante que Maduro saia e isso passa por outros mecanismos de pressão. Mas as garantias são direcionadas até mesmo ao seu entorno.

P. Durante o processo de paz com as FARC na Colômbia, o Governo comentava sobre o problema que tinha internamente ao usar uma ou outra palavra. Você sabe que a comunidade internacional fala de uma saída negociada, mas essa palavra assusta muito porque talvez o setor extremo, mais conservador, que há na Venezuela o rejeitaria. Você acha que precisa mudar esse equilíbrio entre o que tem que dizer para o lado de fora e o que tem que dizer para o lado de dentro?

R. Não tenho meios na Venezuela para explicar isso. O mecanismo de comunicação com os cidadãos para nós é o Twitter. E apenas oito em cada dez venezuelanos têm acesso diário à Internet.

P. E por essa virtualidade você é mais presidente interino para a comunidade internacional do que para os próprios venezuelanos.

R. Eu não falaria em virtualidade, mas em eficácia para sair de Maduro. No final do dia a grande necessidade do povo da Venezuela é sair de Maduro.

P. Haverá uma mudança em Washington, onde vocês tiveram em Trump seu maior apoiador na comunidade internacional. O que esperam de Joe Biden? Você teria preferido que Trump tivesse vencido a eleição novamente?

R. O mais importante com a Administração do presidente eleito Biden é simples: oferecer aos nossos aliados a oportunidade de resolver o conflito. Queremos a abordagem bipartidária que tivemos até agora. Em relação à Administração do presidente Trump, o agradecimento dos venezuelanos pela determinação na luta pela democracia. Mas, no final das contas, os americanos elegem, nós respeitamos 100% esse processo, antes, durante e depois da eleição. Queremos que a solução do conflito sirva também como segurança para todo o continente.

P. Dias atrás você pediu o reforço das sanções. Por quê? Acha que as medidas tomadas até agora serviram para alguma coisa?

R. Mais do que fortalecer, falei em homologar. Porque a ditadura, através do Irã ou de outros países, tenta contornar as sanções, então as pressões não surtem o efeito desejado. Quando falo em fortalecer, quero dizer melhorar, sustentar de modo eficaz.

P. E as que foram adotadas até agora conseguiram alguma coisa?

R. São a única ferramenta que levaram a ditadura, por exemplo, a sentar-se com a Noruega, a sentar-se com a Europa, são a única ferramenta que há que realmente dói para eles. Hoje não estamos no cenário de um Governo ruim. [Maduro] é um criminoso de lesa humanidade que tortura, assassina e reprime sistematicamente.

P. Você sabe que na UE existem muitas posições diferentes. Teme que a partir de agora alguns países retirem o apoio a seu cargo?

R. Tenho plena confiança no apoio da UE à causa venezuelana e no entendimento da intenção da ditadura de aniquilar a alternativa democrática.

P. Entenderia que a UE mantivesse esse apoio à causa venezuelana, que o mantivesse como interlocutor, mas não continuasse a reconhecê-lo com o título de presidente interino?

R. Acho que o fortalecimento em si mesmo é importante, tanto do cargo como da instituição. E acho que há uma compreensão disso. O contrário seria, novamente, validar a tese da ditadura.

P. Se a UE não continuar lhe reconhecendo como presidente interino, considera que isso valida Maduro?

R. Não valida Maduro, mas é preciso insistir na proteção da alternativa democrática. O que acontece se a ditadura me sequestra? Esse sempre é um risco latente.

P. Não gosta da palavra negociação, mas tanto a UE como a Noruega patrocinaram em várias ocasiões uma espécie de mediação, uma exploração de uma via de saída. Vocês estão dispostos a participar de alguma iniciativa com essas características?

R. Quem não quer a negociação é Maduro. Se quisesse uma negociação, teria concordado com algo. A ditadura joga muito com a propaganda. Estamos dispostos a fazer tudo o que estiver próximo de garantias no menor tempo possível.

P. Há um nome que pairou na conversa, embora não tenha sido citado. Pode-se fazer uma oposição sólida sem que Juan Guaidó e Henrique Capriles estejam juntos?

R. Pode-se fazer oposição, sem dúvida, não é uma questão de pessoas. Acho que isso a facilita, mas não são fatores exclusivos. Por exemplo, Henrique faz parte de um partido político, o Primeiro Justiça, que está absolutamente alinhado com tudo o que temos falado. Não é um fator determinante, mas seria um fator facilitador.

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