_
_
_
_
_

Morre Tabaré Vázquez, o primeiro presidente de esquerda da história do Uruguai

Ex-mandatário que chegou ao poder em 2005 com a Frente Ampla governou o país vizinho por dois mandatos. Ele lutava contra um câncer

Tabaré Vázquez e Mujica em feveireiro de 2020.
Tabaré Vázquez e Mujica em feveireiro de 2020.Matilde Campodonico (AP)
Mais informações
AME8262. BUENOS AIRES (ARGENTINA), 30/09/2020.- Una mujer obtiene alimentos hoy en un comedor comunitario, en una villa de la Ciudad de Buenos Aires (Argentina). Argentina difunde este miércoles el porcentaje de la población que en el primer semestre del año estaba bajo la línea de pobreza, una situación que ya en diciembre del año pasado sufría el 35,5 % y que se espera haya aumentado por los efectos de la cuarentena por el coronavirus decretada en marzo, aún vigente. EFE/JUAN IGNACIO RONCORONI
Argentina aprova imposto sobre a riqueza para financiar a luta contra o coronavírus
Com presença de Bolsonaro, Lacalle Pou toma posse e sela o fim de 15 anos de era esquerdista no Uruguai
O discreto milagre da esquerda uruguaia: 15 anos de crescimento ininterrupto

O ex-presidente do Uruguai Tabaré Vázquez, referência da esquerda latino-americana, morreu neste domingo aos 80 anos, de câncer de pulmão. “Hoje, às 3 horas (hora local), enquanto descansava em casa, acompanhado de alguns familiares e amigos, por causa da doença, Tabaré morreu”, escreveu esta madrugada no Twitter seu filho, Álvaro Vázquez, médico oncologista, como o pai. Segundo a família, não haverá velório, mas sim uma cerimônia íntima e um cortejo fúnebre que a partir deste meio-dia percorrerá parte da cidade de Montevidéu até o cemitério de La Teja, na zona oeste da capital.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Tabaré Vázquez se tornou em 2005 o primeiro presidente de esquerda de seu país. Como líder da Frente Ampla, seu triunfo eleitoral pôs fim a décadas de hegemonia bipartidária de Blancos e Colorados, os dois grupos de centro-direita que dominaram a política uruguaia desde o retorno à democracia em 1985. Contra todas as probabilidades, a Frente Ampla permaneceu no poder por 15 anos, até março passado, com duas presidências de Tabaré Vázquez e uma de José Pepe Mujica, outra referência regional do progressismo latino-americano.

Em agosto de 2019, quando se aproximava do final do segundo mandato, Tabaré Vázquez anunciou que lhe haviam detectado um nódulo pulmonar com “características muito firmes” e que poderia ser “um processo maligno”. Cinco dias depois, foi submetido a uma intervenção que confirmou que o tumor era canceroso. Em dezembro, o Governo informou sobre a remissão do tumor e considerou o presidente curado. No mesmo mês, Vázquez chegou a viajar para a Argentina para participar da posse presidencial de Alberto Fernández. Em março, entregou a faixa presidencial ao seu sucessor, o conservador Luis Lacalle Pou. Na semana passada, os uruguaios souberam que a saúde de Vázquez se deteriorara rapidamente, resultado de uma “trombose profunda do membro inferior esquerdo” relacionada ao câncer, conforme explicou seu filho Álvaro.

Vázquez ocupou a presidência entre 2005 e 2010 e depois entre 2015 e 2020. Ele nasceu em uma família de classe média. Médico por formação, ele se tornou oncologista depois que seus pais e sua irmã morreram de câncer. Em 2005, quando iniciou seu primeiro mandato, já era referência médica no Uruguai. Uma de suas batalhas políticas mais relevantes foi a luta contra o fumo, a ponto de promover uma legislação contra o consumo de cigarros no Uruguai que lhe rendeu um processo milionário da Philip Morris no Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos (CIADI). Em 2016, o centro pronunciou-se a favor do país e obrigou a indústria a arcar com as despesas do processo.

Discreto e reservado, Tabaré Vázquez foi um presidente singular: sempre era comedido em suas aparições públicas, falava pouco e não usava as redes sociais. “Quando um presidente fala, um país fala, e o presidente não pode ir além de dizer as coisas que interessam às pessoas”, costumava dizer o ex-presidente uruguaio, parafraseando o francês François Mitterrand (presidente entre 1981 e 1995), de quem se confessava um admirador. Como governante, não teve a popularidade internacional de José Pepe Mujica, com quem compartilhou a Frente Ampla. Em seu país, entretanto, era muito respeitado e admirado até mesmo entre detratores. Mais moderado que o ex-guerrilheiro e sem seu carisma, Tabaré, como o chamavam no Uruguai, cultivou a ala mais ao centro da Frente.

Um mês antes de entregar o poder, Tabaré Vázquez foi ovacionado por uma multidão no bairro de La Teja, em Montevidéu, onde nasceu em janeiro de 1940. “Nada se conquista sozinho, o que foi conquistado nós fizemos juntos, com todos participando, trabalhando com a gente, convencendo, ganhando consciência “, disse então, sabendo que se despedia da presidência para sempre. Seu último comício também foi o ponto final de uma era política no Uruguai, com líderes octogenários agora em busca de renovação. “O legado que nossa Frente Ampla vai deixar ao povo uruguaio é um legado que temos que defender, apoiar, estar convencidos da importância que tem e que é acima de tudo isto que temos feito juntos”, disse, antes de se despedir com os olhos marejados. Tabaré Vázquez não quis ser hospitalizado e preferiu morrer em casa, com a família.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_