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Eleições EUA 2020
Análise
Exposição educativa de ideias, suposições ou hipóteses, baseada em fatos comprovados (que não precisam ser estritamente atualidades) referidos no texto. Se excluem os juízos de valor e o texto se aproxima a um artigo de opinião, sem julgar ou fazer previsões, simplesmente formulando hipóteses, dando explicações justificadas e reunindo vários dados

Sobriedade de Pence é um ativo para Trump

A democrata Harris não atacou o candidato republicano, que sai quase ileso deste debate e com isso mantém as esperanças do seu partido

Mike Pence durante o debate desta quarta-feira.
Mike Pence durante o debate desta quarta-feira.ALEX WONG (AFP)
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Salt Lake City (United States), 07/10/2020.- Senator Kamala Harris (L) and US Vice President Mike Pence during the Vice Presidential debate at the University of Utah's Kingsbury Hall in Salt Lake City, Utah, USA, 07 October 2020. The debate is the only one between the two and follows one debate between President Donald J. Trump and former Vice President Joe Biden who are scheduled to debate two more times before the US Election Day on 03 November, 2020. (Elecciones, Estados Unidos) EFE/EPA/JIM LO SCALZO
Mike Pence neutraliza Kamala Harris e se esquiva de ataques no debate dos candidatos a vice nos EUA
FILE PHOTO: Democratic U.S. vice presidential nominee and Senator Kamala Harris speaks in Las Vegas, Nevada, U.S., October 2, 2020. REUTERS/David Becker/File Photo
Debate dos candidatos a vice dos EUA marca salto de Kamala Harris para a linha de frente da campanha

Aconteceu na noite desta quarta-feira em Utah o único debate vice-presidencial da campanha eleitoral deste ano nos Estados Unidos. Um debate tradicionalmente considerado de segunda categoria, em um Estado pouco importante para o resultado final das eleições, mas que, no contexto atual, situou seus protagonistas, Mike Pence e Kamala Harris, em primeiro plano.

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A notícia de que Donald Trump contraiu a covid-19 deixou os eleitores mais conscientes do que nunca quanto à real possibilidade de que o próximo presidente fique incapacitado ou inclusive faleça no cargo. Ao longo da história norte-americana, o vice-presidente precisou substituir o titular em nove ocasiões, e a idade avançada dos candidatos, somada à pandemia, amplia o risco.

Os dois rivais chegavam com aura competitiva: Kamala Harris é lembrada pelo primeiro debate nas primárias democratas, quando varreu o próprio Biden. Com relação a Pence, tem experiência nesses duelos e já em 2016 foi considerado o vencedor contra o candidato a vice de Hillary Clinton, Tim Kaine.

O debate não decepcionou, embora a mediadora, Susan Page, estivesse mais preocupada em controlar o tempo e seguir o roteiro (aceito pelas campanhas) do que em promover o debate em si, de modo que várias passagens intensas e vibrantes de possíveis réplicas entre os candidatos foram desperdiçadas.

A expressão hierática de Pence contrastou com a gestualidade expansiva de Harris que, apesar de demonstrar a energia que faltou a Biden, revelou em sua linguagem não verbal (perante cada fala de Pence) um tom ácido e irônico que pode ser prejudicial. A frieza e sobriedade de Pence foram um ativo convincente frente à tentativa de empatia constante da democrata. Pence mostrou uma atitude imperturbável a qualquer investida da adversária rival e contra-atacou a cada oportunidade mostrando fragilidades, contradições ou imprecisões da chapa Biden-Harris.

Harris nem sempre encontrou as mensagens assertivas para os públicos decisivos. Já Pence, com sua repetição de “o presidente Trump e eu”, foi sólido na exposição de uma ideia de equipe, à qual Harris não conseguiu contrapor com clareza com sua proposta ou com seu binômio.

No bloco de política externa, Harris preferiu atacar Trump e Pence a questionar ou criticar a China. Deixar aos republicanos a narrativa da defesa dos Estados Unidos contra a “agressão estrangeira” pode ser um erro estratégico alimentado pela mentalidade trumpista.

Harris não atacou Pence, que sai quase ileso deste debate e com isso mantém as esperanças dos republicanos. O problema dos republicanos é que eles têm um candidato sólido, mas que não é o presidencial. O problema dos democratas é que Harris não pareceu o complemento de Biden, e sim sua superação.

Pence deixou mensagens para todos os seus públicos (“O povo precisa saber”), dos cristãos aos cidadãos dos subúrbios. Harris teve profundidade e empatia. Mostrou sua preparação e sua competência técnica, mas não necessariamente sua competitividade eleitoral. Pence, sem complexos, se pôs a criar dúvidas razoáveis sobre Biden e Harris, e esteve convincente e assertivo sem se esforçar em matizes, logrando quase sempre direcionar a discussão para seus parâmetros.

O momento mais vibrante ficou para o final. A ex-promotora Harris mostrou as garras no debate sobre a questão racial: “Não vou permitir a Pence que me dê um sermão sobre como cumprir as leis”. Foi seu melhor momento, mas só chegou no final. Quanto a Pence, não se importa em parecer um pregador conservador. Aliás, não parece que se importe muito com sua imagem, só quer competir e ganhar. Essa autoestima de Harris é, paradoxalmente, sua força e —talvez— sua fraqueza. Pence não parece ter essa preocupação, só uma profissional ambição controlada. Quando os segundos são os primeiros.

Antoni Gutiérrez-Rubi é assessor de comunicação.

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