Eleições EUA 2020

Trump tem sintomas “muito preocupantes” e as próximas horas são críticas, diz chefe de Gabinete

O republicano está internado no Hospital Militar Walter Reed para tratar o coronavírus. A confusa explicação médica eleve a incerteza nos Estados Unidos

O Chefe de Gabinete da Casa Branca, Mark Meadows (à esquerda), observa o presidente Donald Trump deixar o Marine One ao chegar ao Walter Reed Medical Center em Bethesda, em 2 de outubro de 2020.
O Chefe de Gabinete da Casa Branca, Mark Meadows (à esquerda), observa o presidente Donald Trump deixar o Marine One ao chegar ao Walter Reed Medical Center em Bethesda, em 2 de outubro de 2020.BRENDAN SMIALOWSKI / AFP

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A incerteza sobre o estado de saúde de Donald Trump, hospitalizado por coronavírus desde sexta-feira, cresceu neste sábado após a primeira coletiva de imprensa da equipe médica que o atende e que deixou mais perguntas que respostas. O presidente dos Estados Unidos havia progredido “muito bem”, segundo informaram os médicos, mas se negaram a responder se ele havia precisado de oxigênio suplementar em algum momento. No fim, criaram uma confusão quanto ao diagnóstico, deixando entrever que o vírus pode ter sido detectado antes do anunciado, muito embora tenham ponderado ter se expressado mal. Logo após a coletiva, o chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows, expôs um panorama mais sombrio para a imprensa, e advertiu que as 48 horas seguintes “são críticas”.

O contágio do mandatário republicano implodiu qualquer previsão no país mais poderoso do mundo, a apenas 30 dias da eleição presidencial. No final, a coletiva na entrada do hospital militar Walter Reed de Bethesda (Maryland), que deveria acalmar ânimos, acabou semeando desconfiança sobre o verdadeiro estado de saúde de Trump, um homem de 74 anos de idade e 110 quilos de peso, um perfil de risco diante da covid.

O médico da Casa Branca, Sean P. Conley, disse durante a coletiva que o presidente estava “indo muito bem” e estavam “extremamente felizes” com a sua evolução. Mas num ato contínuo, uma fonte próxima à Casa Branca, citada de forma anônima pela maioria dos veículos de imprensa, mas que a Associated Press identificou como o chefe de gabinete de Trump, Mark Meadows, deu uma versão mais pessimista. Meadows afirmou que a jornada desta sexta tinha sido “muito preocupante”, e que as próximas 24 horas seriam “críticas”. “Não temos ainda uma clareza sobre a sua recuperação”, relatava.

Conley tinha assegurado que Trump não tinha tido febre desde a sexta pela manhã, e que não havia sofrido com problemas de respiração em nenhum momento, sem a necessidade de receber oxigênio suplementar. No entanto, questionado em várias ocasiões se em algum momento o presidente republicano teria requerido esse complemento de oxigênio, Conley negou-se a responder. Horas depois, uma fonte anônima citada pela AP admitiu que ele precisou de oxigênio na sexta-feira ainda na Casa Branca, antes do traslado ao hospital.

O presidente entrou no hospital, localizado a 30 minutos de Washington, por volta das seis e meia da tarde desta sexta. Trump deixou a Casa Branca a pé, vestindo terno e gravata, fez sinal de positivo para a imprensa e embarcou no helicóptero Marine One, que o transportou para o centro médico. Antes, deixou gravado um breve vídeo em que dizia: “Quero agradecer a todos pelo incrível apoio. Vou para o Hospital Walter Reed. Acho que estou indo muito bem, mas vamos assegurar que tudo vai ser solucionado. A primeira-dama está muito bem. Muito obrigado, nunca vou esquecer”, diz.

Trump informou sobre o seu contágio em sua conta no Twitter por volta da 1 hora da manhã desta sexta, horas depois da confirmação do teste positivo de Hope Hicks, uma colaboradora próxima com quem ele havia viajado a diversos atos públicos por todo o país na última semana. Mesmo assim, neste sábado surgiram dúvidas sobre quando Trump foi efetivamente diagnosticado, ou quando começou a sentir os primeiros sintomas.

Sua agenda na semana foi intensa, começando pelo debate eleitoral com o candidato democrata, Joe Biden, em Cleveland (Ohio), e em seguida um comício em Minnesota além de um evento de arrecadação de fundos naquela mesma quinta-feira em seu campo de golfe em Bedminster (Nova Jersey).

O doutor Conley disse a repórteres neste sábado que o diagnóstico de Trump demorou “72 horas”, o que significaria que o vírus foi detectado antes do anúncio oficial. Minutos após a coletiva, porém, enviou um comunicado esclarecendo que havia se confundido e que, em vez de 72 horas, se referia ao “dia 3”, entendendo que quinta e sexta-feira eram os dias 1 e 2.

Não há data prevista para a alta do presidente nem certezas sobre a evolução da doença nos próximos dias. Os casos graves de coronavírus geralmente atingem seu ápice uma semana após o aparecimento dos sintomas. Costumam surgir cinco dias após a infecção. Tudo o que se sabe sobre a covid-19, um novo vírus que já matou pelo menos um milhão de pessoas em todo o mundo, foi aprendido a duras penas nos últimos meses e ainda não existe vacina ou tratamento específico. Para aumentar a complexidade da questão está uma Casa Branca como a de Donald Trump, que mesmo neste caso não foi capaz de evitar gerar um sentimento de confusão e desordem.

Na manhã de sexta-feira, horas após a confirmação de sua infecção, a Casa Branca informou que o presidente estava sofrendo de “sintomas leves”, que se sentia “cansado”, mas de bom humor. O republicano foi medicado com um coquetel de anticorpos da farmacêutica Regeneron, em tratamento experimental, e posteriormente com o Redemsivir, único medicamento para o tratamento da covid-19 aprovado pelas instituições competentes americanas e europeias. O estado da primeira-dama, Melania Trump, também com sintomas, é menos grave, por isso ela não deixou a residência oficial. Ao meio-dia, Trump escreveu em sua conta no Twitter: "Os médicos, enfermeiras e todo o grande Hospital Walter Reed, bem como outras instituições incríveis que se juntaram a eles, são INCRÍVEIS. Um enorme progresso foi feito nos últimos seis meses para combater essa praga. Com sua ajuda, me sinto bem!”

Os Estados Unidos se tornaram o epicentro da pandemia, com mais de 200.000 mortes. O presidente, que negou sua gravidade até o último momento e até zombou das medidas de prevenção, entrou para a lista dos sete milhões de infectados no país. Um mês antes das eleições, os americanos não sabem como será o resto da campanha eleitoral, qual será o papel de Donald Trump, se novos debates presidenciais podem ser realizados ou se haverá mais daqueles comícios massivos de Trump. Eles ainda não sabem se o vencedor será conhecido na mesma noite das eleições ou terá que esperar dias, devido a uma possível enxurrada de votos pelo correio. Dizer que a incerteza é total é um eufemismo.

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