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Quem é Yoshihide Suga, o escolhido pelo partido para comandar o Japão

Braço direito de Shinzo Abe deve ser referendado pelo Parlamento nesta semana. Político tem fama de ser meticuloso e de conhecer bem as engrenagens da legenda

Yoshihide Suga, até agora ministro porta-voz e sucessor de Shinzo Abe, em 14 de setembro, na sede do seu partido, em Tóquio.
Yoshihide Suga, até agora ministro porta-voz e sucessor de Shinzo Abe, em 14 de setembro, na sede do seu partido, em Tóquio.EUGENE HOSHIKO (AFP)
Macarena Vidal Liy
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Japanese Prime Minister Shinzo Abe bows during a news conference at the prime minister's official residence in Tokyo, Japan, August 28, 2020. Franck Robichon/Pool via REUTERS     TPX IMAGES OF THE DAY
O Japão inacabado de Abe
28 August 2020, Japan, Tokyo: Japanese Prime Minister Shinzo Abe bows to the Japanese national flag ahead of a press conference at the Prime Minister Official Residence. Citing his health, Abe says he will step down as premier after seven years and eight months in office. Photo: -/ZUMA Wire/dpa
28/08/2020 ONLY FOR USE IN SPAIN
Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, renuncia por problemas de saúde
Two activists dressed up as US President Trump and Russian President Putin ride two atomic bomb models during a protest for a world without nuclear weapons in front of the Brandenburg Gate in Berlin, Germany, July 30, 2020. Several peace and disarmament organizations as well as environmental protection groups demonstrated on the Pariser Platz for a nuclear weapons-free world before the start of negotiations between the USA and Russia on further action in nuclear arms control. (Fabian Sommer/dpa via AP)
75 anos após a bomba de Hiroshima, a ameaça nuclear ressurge em um novo tabuleiro geopolítico

Ele passou seis anos falando aos jornalistas de manhã e à tarde, mas pouca gente o reconhecia nas ruas. Até abril do ano passado, quando, diante das câmeras de televisão de meio mundo, Yoshihide Suga, ministro porta-voz e chefe de gabinete do Governo do Japão, anunciou o nome pelo qual ficaria conhecido o reinado do novo imperador: Era Reiwa (“bela harmonia”). A partir de então, o braço direito do primeiro-ministro Shinzo Abe ficaria famoso nos lares nipônicos como Reiwa Ojisan (“tio Reiwa”). Agora ele deve ser, depois da demissão de Abe, o novo líder do Executivo em Tóquio, um cargo no qual poucos o teriam situado há um ano e meio.

Suga, de 71 anos e fiel auxiliar de Abe durante os sete anos e oito meses de seu mandato, foi nomeado para o comando do Partido Liberal Democrata (PLD, conservador) com o respaldo de 377 dos 535 convencionais (394 deputados e 141 delegados provinciais) que participaram da votação desta segunda-feira em um hotel de Tóquio. Seus rivais, o ex-ministro de Defesa Shigeru Ishiba e o ex-ministro de Relações Exteriores Fumio Kishida, obtiveram, respectivamente, 68 e 89 votos. O cômodo triunfo do novo líder já era dado como certo desde que as principais alas do partido manifestaram seu apoio a ele, numa aposta pela continuidade. Nas horas que antecederam à eleição interna, o canal de TV NHK antecipava que Suga obteria 70% dos votos, como de fato ocorreu.

Na quarta-feira, Suga deve ser ratificado como primeiro-ministro pelo Parlamento, dada a maioria absoluta de que goza o PLD e seu parceiro de coalizão Komeito.

Aos 71 anos e sem vínculos com nenhuma das grandes alas do PLD, tio Reiwa —um homem miúdo e bem apessoado, com penteado de risca em um dos lados e orelhas ligeiramente protuberantes— é, sobretudo, um candidato de compromisso. Em circunstâncias normais, é difícil pensar que depois da demissão do Abe por motivos de saúde as facções que controlam o PLD teriam escolhido este gestor discreto e disciplinado, que diferentemente da maioria da classe política nipônica não procede de nenhuma das estirpes tradicionais do país.

Claro que as circunstâncias deste ano de pandemia de coronavírus, recessão econômica e adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio são tudo menos normais. E Suga, como chefe de gabinete —cargo que combina as funções de porta-voz, assessor e ministro da Casa Civil— do atual premiê, é uma garantia de continuidade. A grande questão é se, uma vez empossado, vai se limitar a manter as políticas de seu predecessor e protetor ou optará por adotar medidas e um estilo próprios. Durante sua campanha eleitoral, prometeu manter os rumos do atual Governo.

Em temperamento e em histórico, Abe e Suga são como a noite e o dia. O atual premiê é carismático e visionário, ao passo que seu tecnocrata sucessor é discreto e meticuloso. Abe é filho e neto de ministros, criado na elite de Tóquio e acostumado desde o berço a lidar com dirigentes estrangeiros; Suga procede de uma modesta família de agricultores de Akinomiya, no frio norte do país, e começou sua vida profissional fabricando caixas de papelão. Pagou os estudos de direito trabalhando em um mercado e como faz-tudo num jornal, antes de entrar para a política como secretário de um vereador em Yokohama, a cidade onde desenvolveu a maior parte de sua carreira como deputado. Sua experiência internacional é mínima; sua capacidade de liderança nunca foi testada.

Mas poucos conhecem melhor as entranhas do Governo ou o pensamento de Abe. Durante os sete anos e oito meses de mandato deste, Suga esteve lealmente ao seu lado, comunicando a mensagem do chefe, impassível em momentos de escândalos ou demissões de ministros. Quando caiu o primeiro gabinete dele, em 2007, Suga —então seu ministro da Comunicação— o estimulou a não desistir e prometeu que voltariam ao poder.

Conseguiram. Cinco anos mais tarde, e depois de uma etapa em que chegou a ser considerado uma figura irrelevante do passado, Abe retornava ao Kantei, a sede do Executivo. Que tenha se tornado o chefe de Governo mais duradouro da história japonesa contemporânea, após anos de líderes fugazes, deve-se em boa parte ao trabalho de bastidores do seu braço direito. É um perfeito conhecedor de como conseguir a colaboração dos funcionários e conta com contatos imbatíveis nos meios de comunicação, onde é temido e respeitado na mesma medida. Como chefe de gabinete, suas nomeações burocráticas ajudaram a concentrar a tomada de decisões no escritório do primeiro-ministro, em detrimento de outros ministérios ou do próprio Parlamento, fazendo dele o líder com mais poder neste país nas últimas décadas.

Sua descomunal capacidade de trabalho é marcante: aos 38 anos foi eleito pela primeira vez vereador em Yokohama depois de gastar seis pares de sapatos visitando 30.000 lares. Leitor voraz, começa cada dia com a leitura dos principais jornais e uma centena de agachamentos. Promove duas entrevistas coletivas por dia. Para se reunir com o maior número possível de pessoas, não é raro que este político frugal e abstêmio vá a dois jantares numa mesma noite, possivelmente após ter participado de um café da manhã e um almoço de trabalho. Conclui o dia com outra centena de agachamentos. Casado com Mariko, de 66 anos, e pai de três filhos, seu grande hobby é a pesca.

Embora inicialmente sua candidatura não tenha motivado muito entusiasmo —só era respaldado por 14% dos cidadãos—, sua popularidade cresceu nas últimas semanas. “É um homem com quem muitos japoneses podem se identificar, por sua ética do trabalho, suas raízes humildes e sua ascensão gradual até chegar à chefia do Governo”, opina o professor Stephen Nagy, da Universidade Cristã Internacional, de Tóquio.

E Suga não é, recorda o especialista, “nenhum zé-ninguém na política. Seu trabalho lado a lado com Abe durante quase oito anos e sua profunda experiência nas negociações internas do PLD e com a burocracia significa que um experiente operador político, com muito da visão de Abe, será primeiro-ministro durante pelo menos um ano. Isso implica estabilidade, sustentabilidade e continuidade da política nas frentes interna e internacional”.

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