Eleições Estados Unidos 2020

Reação a protestos raciais vira arma eleitoral nos Estados Unidos

Depoimento do secretário de Justiça no Congresso expõe a tempestade política provocada pela mobilização de agentes federais em cidades com prefeitos democratas

O secretário de Justiça dos EUA, William Barr, durante sua audiência no Congresso nesta terça-feira.
O secretário de Justiça dos EUA, William Barr, durante sua audiência no Congresso nesta terça-feira.POOL / Reuters

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A reação aos protestos antirracistas desatados pela morte do afro-americano George Floyd, cujos rescaldos em Portland ainda são combatidos com pulso firme por agentes federais, se transformou em material eleitoral de primeira grandeza. Isso ficou claro nesta terça-feira no depoimento do polêmico secretário (ministro) da Justiça, William Barr, no Congresso. Reforçando a mensagem de lei e ordem à qual o presidente Trump se agarra como principal cartada para tentar a reeleição ―em meio a uma grave crise e à deterioração de sua popularidade―, Barr se referiu a “anarquistas” que “sequestraram os protestos legítimos para provocar caos e destruição”. Os democratas o acusam de açular a violência e de servir aos interesses eleitorais de seu chefe.

Trata-se de um dos últimos enfrentamentos públicos do Congresso contra a Administração Trump antes das eleições, e William Barr, acusado pela maioria democrata da Câmara de ter transformado o Departamento de Justiça em um mero braço executor da vontade do presidente, partiu para a ofensiva. Defendeu com veemência a tão criticada reação federal aos protestos contra a violência policial que ainda percorrem o país desde a morte do afro-americano George Floyd, em 25 de maio, pelas mãos da polícia. “Os arruaceiros violentos e os anarquistas”, advertiu a máxima autoridade responsável pelas forças de segurança federais, “sequestraram os protestos legítimos para provocar caos e destruição sem sentido”.

O papel de Barr foi central na mobilização de agentes federais nos últimos dias para conter os distúrbios em Portland (Oregon) e outras cidades, operação que se tornou uma nova frente na batalha cultural travada no país desde a morte de Floyd, sufocado pelo joelho de um policial de Minneapolis, numa cena que foi gravada em vídeo e deu a volta ao mundo. O episódio, mais um na longa lista de atuações policiais desproporcionalmente violentas contra cidadãos negros, detonou em junho, em plena pandemia do coronavírus, protestos que se espalharam por todo o país. Estes por sua vez motivaram uma discussão nacional sobre o racismo estrutural nos Estados Unidos, deram lugar a uma reforma na polícia e provocaram um debate sobre o patrimônio histórico confederado. E os incidentes violentos que salpicaram os protestos, marginais em relação ao maciço tom pacífico do movimento, forneceram a Trump a oportunidade de se mostrar, nas suas próprias palavras, como “um presidente da lei e a ordem”, a poucos meses de disputar a reeleição.

A chama dos protestos continua viva em várias cidades, a maioria das quais administradas por prefeitos democratas, e a Casa Branca acusa os manifestantes de terem traído a causa simbolizada por George Floyd e de terem se entregado a uma mera violência antissistema. “Está ausente nestas cenas de destruição qualquer tentativa dos vândalos de conectarem suas ações à morte de George Floyd ou a qualquer reivindicação legítima de reforma”, denunciou Barr no Capitólio. As autoridades locais e os ativistas, por outro lado, acusam justamente a Administração de açular com fins eleitorais uma violência marginal e que já estava recuando, mas recrudesceu com o envio de mais agentes federais ―os quais, segundo o The Washington Post, continuavam chegando a Portland nesta terça.

Os democratas consideram que a disputa federal com as autoridades locais é parte de uma estratégia eleitoral de Trump, evidente em sua atividade tuiteira das últimas semanas, que busca exibir pulso firme frente a democratas descritos como cúmplices de uma violência que afundaria o país no caos. Os críticos veem Barr, mais uma vez, como um mal disfarçado executor da agenda política do presidente, traindo a obrigatória independência do cargo que ostenta ―pois é também o chefe do Ministério Público norte-americano.

“Desta vez ele não pode se esconder em ficções legais, dá para ver o que está fazendo”, cutucou o democrata Jerry Nadler, presidente do Comitê Judicial da Câmara de Representantes (deputados), que organizou a audiência. “O presidente quer algo para sua campanha, e o senhor atende. Em muitas destas cidades os protestos estavam remetendo antes de vocês agirem. Vocês projetam medo e violência para obter óbvios objetivos políticos. Deveria ter vergonha.”

Barr, sem sair do seu roteiro, quis focar os ataques de vândalos violentos contra edifícios federais de Portland, os quais, denunciou, a polícia local fez pouco para evitar. “Deveríamos ser todos capazes de estar de acordo em que não há lugar neste país para multidões armadas que buscam estabelecer zonas autônomas fora do controle do Governo, ou derrubar estátuas e monumentos que comunidades respeitosas com as leis decidiram erguer, ou destruir a propriedade e o sustento de empresários inocentes”, afirmou Barr, evitando mencionar o caráter pacífico de boa parte dos protestos e o fato de a atuação dos agentes federais ter sido criticada por sua dureza.

O secretário de Justiça precisou responder também a perguntas sobre a intervenção do Departamento em rumorosos casos judiciais contra amigos do presidente, derivados da investigação do procurador especial Robert Mueller sobre a chamada trama russa. Trata-se da decisão de retirar as acusações contra o ex-assessor de Segurança Michael Flynn e das pressões para obter uma condenação leve para Roger Stone. Barr defendeu aos deputados que Flynn, que se declarou culpado de mentir ao FBI, nunca deveria ter sido acusado, e que o pedido inicial de pena da promotoria contra Stone era excessivo. “Os promotores queriam defender uma sentença que era o dobro do que alguém numa situação similar jamais cumpriu”, afirmou Barr sobre Stone.

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