Estados Unidos

A quem pertence a Finlândia e outros episódios explosivos do livro de John Bolton sobre Trump

O pedido de ajuda a Pequim para vencer as eleições, acusações sobre o escândalo de Ucrânia e amostras da falta de conhecimentos gerais do presidente figuram nas memórias do ex-assessor de Segurança Nacional

O ex-assessor de Segurança Nacional John Bolton na Carolina do Norte, em fevereiro deste ano.
O ex-assessor de Segurança Nacional John Bolton na Carolina do Norte, em fevereiro deste ano.JONATHAN DRAKE / Reuters

Se a Casa Branca não conseguir impedir, The Room Where It Happened (“a sala onde aconteceu”), a polêmica autobiografia do ex-assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Bolton, chegará às livrarias na próxima terça-feira. São 592 páginas de material inflamável, que pintam um retrato estrambótico e corrupto do presidente Donald Trump a partir dos 17 meses (abril de 2018 a setembro de 2019) que esse falcão da política externa passou na Casa Branca. Bolton afirma que o escândalo da Ucrânia, estopim do processo de impeachment, não foi o único caso pelo qual mandatário merecia ser julgado. Trump acusa Bolton de mentir. Estes são alguns dos episódios mais explosivos, segundo os trechos do livro ao qual veículos norte-americanos como The Washington Post, The New York Times e CNN tiveram acesso:

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Uma mão de Pequim para ganhar as Eleições. Bolton relata um jantar de trabalho entre Trump e o líder chinês, Xi Jinping, durante a cúpula do G20 realizada em junho de 2019 no Japão. No momento em que Xi se queixava das críticas à China nos Estados Unidos, o republicano mudou de assunto abruptamente. “Então, assombrosamente, desviou a conversa para as eleições presidenciais de 2020 nos Estados Unidos, aludindo à capacidade econômica chinesa de afetar as campanhas”, afirma o ex-assessor de Segurança Nacional. Além disso, segundo sua versão, o presidente norte-americano viu com bons olhos a construção de um campo de internamento para membros da minoria muçulmana uigur, que habita o extremo oeste da China.

Mais lenha no escândalo da Ucrânia. No começo deste ano, Trump foi julgado e absolvido pelo Senado (de maioria republicana) pelas acusações de abuso de poder e obstrução de uma CPI, relacionadas a pressões dele para que a Ucrânia investigasse seu rival político Joe Biden e seu filho Hunter por negócios deles nesse país europeu, na época em que Biden era vice-presidente (2009-2017). Bolton corrobora um dos pontos principais deste caso: que o presidente barrou a entrega de 391 milhões de dólares (2,1 bilhões de reais) em ajudas militares a Kiev, como forma de pressão. Em 20 de agosto, segundo a versão do ex-assessor, o mandatário “disse que não estava a favor de enviar nada para eles até que todos os materiais da investigação sobre [Hillary] Clinton e Biden se tornassem públicos”.

“Ah, vocês são uma potência nuclear?”. Bolton descreve várias situações que, se verdadeiras, mostram um vergonhoso despreparo de Donald Trump para exercer a presidência do país mais poderoso do mundo. Por exemplo, afirma que em uma reunião em 2018 com Theresa May, então primeira-ministra britânica, um funcionário presente se referiu ao Reino Unido como uma potência nuclear, ao que Trump respondeu: “Ah, vocês são uma potência nuclear?”. “Não disse como brincadeira”, afirma Bolton. Relata que também chegou a perguntar, antes de sua cúpula com Vladimir Putin em Helsinque, se a Finlândia “é uma espécie de satélite da Rússia”.

Seria ‘bacana’ invadir a Venezuela. Em suas conversas sobre o país caribenho e a campanha para retirar Nicolás Maduro do poder, Bolton diz que Trump chamou de ‘bacana’ (cool, em inglês) a possibilidade de uma invasão. A Venezuela, disse também o presidente (de acordo com Bolton), era “realmente parte dos Estados Unidos”. O ex-conselheiro de Segurança afirma que Trump, de qualquer forma, não estava entusiasmado com Juan Guaidó, reconhecido como presidente interino pelos Estados Unidos e por meia centena de países. Via Guaidó como uma “criança”, diante de um “forte” Maduro, e isso o fez repensar sua estratégia.

Interferência na Justiça em favor de Erdogan. Bolton acusa Trump de fazer “favores pessoais aos ditadores de que gostava” e transformar a obstrução da Justiça em um “estilo de vida”. Relata um caso sobre a empresa estatal turca Halkbank, que estava sendo investigada por escapar das sanções dos EUA ao Irã. Em 2018, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan entregou a Trump um relatório dos representantes legais da empresa estatal, que o norte-americano abençoou quase sem ler. “Trump disse então que cuidaria disso. Explicou que os procuradores do Distrito Sul [encarregado do assunto] não eram sua gente, mas de Obama, um problema que seria resolvido quando ele os substituísse pelos seus”, escreve Bolton, conforme relatado pelo Post.

O erro da cúpula com Kim. Os encontros de Donald Trump com o ditador norte-coreano foram vistos com suspeita por vários membros importantes de sua Administração, inclusive por seu atual secretário de Estado, Mike Pompeo, que não costuma criticar as decisões ou declarações do presidente. Segundo Bolton, Pompeo disse que a estratégia diplomática do mandatário tinha “zero chance de sucesso”. Para Bolton, foi “um erro estúpido”. Na época, diz o ex-assessor de Segurança Nacional, Trump estava empenhado em enviar a Kim um exemplar do disco Rocket Man (homem-foguete) autografado por Elton John, num aceno à zombaria com a qual o norte-americano se referiu ao norte-coreano na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2017.

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