Pandemia de coronavírus

Assim opera a máfia que não para durante a pandemia

Os clãs do sul da Itália aproveitam a crise para ganhar apoio distribuindo comida e dinheiro, mas alguns moradores se organizam para evitar

Bairro napolitano de Santa Lucia.
Bairro napolitano de Santa Lucia.PAOLO MANZO / EL PAÍS

Um assassinato em Agrigento (Sicília). Um barco na Calábria com 600 quilos de coca. Um fugitivo capturado depois de uma longa fuga quando ia fazer compras usando máscara e luvas. Ninharias em comparação com o ritmo normal. Mas a principal atividade dos clãs mafiosos na Itália hoje em dia é se reposicionar, ganhar apoio e buscar novas formas de usar seu dinheiro, que retornará em abundância quando a crise sanitária acabar. Na Calábria e na Sicília, a polícia já surpreendeu mafiosos distribuindo sacolas de compras para alguns moradores. Enquanto não chegar a ajuda anunciada pelo Governo de Giuseppe Conte, as máfias se infiltrarão no tecido social, concordam as fontes judiciais e policiais consultadas. Também são abundantes os empréstimos a empresários com a corda no pescoço que precisam de dinheiro vivo. “Agora são só facilidades”, assinala um comandante dos carabinieri em Trapani. Os clãs têm liquidez. Quando a crise passar, vão cobrar a conta.

O confinamento tem alguns mestres que o praticavam muito antes que o mundo soubesse o que é um coronavírus. Nicola Gratteri, procurador-chefe de Catanzaro e provavelmente o maior especialista do mundo na ‘Ndrangheta − a máfia mais poderosa da Itália, com mais de 30.000 filiados só na Calábria e capaz de faturar 43 bilhões de euros (245 bilhões de reais) anuais −, teme o pior: “O objetivo da elite da ‘Ndrangheta não é só enriquecer, mas exercer o poder. No sul há milhares de pessoas que sempre trabalharam na informalidade e ganhavam no máximo 40 euros [228 reais] por dia. Esse dinheiro evaporou. O Estado está preparando uma injeção que chegará em poucos dias, mas muitas pessoas necessitadas aceitam encantadas as compras pagas pelo chefão da vez. Aceitam também ajudas de 300 ou 400 euros [1.710 ou 2.280 reais]. Para eles não é nada, para o pobre é tudo. Daí surge o modelo do homem poderoso, que poderá pedir que votem em seu candidato quando houver eleições”. É hora de semear.

As recessões são oportunidades perfeitas para as máfias, alertam o chefe da polícia nacional da Itália, Franco Gabrielli, e o procurador-geral antimáfia do país, Federico Cafiero de Raho. A crise acaba com o dinheiro em espécie, algo que organizações como a ‘Ndrangheta, cuja principal fonte de renda é o tráfico de drogas, têm em abundância, lembra Gratteri. “[Essas organizações] buscarão emprestar dinheiro com usura a empresários. A juros baixos, para competir com os bancos. As pessoas − hoteleiros, donos de restaurante − vão procurá-las. O objetivo do agiota mafioso é se apoderar dessa atividade comercial quando, pouco a pouco, forem aumentando os juros até o empresário não conseguir pagar. Depois que o negócio for roubado, o mafioso o usará para lavar dinheiro. É assim que funciona. Este período servirá para isso”, acrescenta o procurador.

Isso acontece na Calábria. Mas também na Sicília e nas vielas do centro de Nápoles. Quando o Estado dá um passo atrás, os clãs devoram o território. As três regiões estão no topo das estatísticas de pobreza e de economia informal, com cifras em torno de 20% de sua riqueza, segundo o Instituto de Estatística Italiano (Istat). São milhares de famílias sem nenhuma provisão neste momento. O Governo prometeu 400 milhões de euros (2,3 bilhões de reais) aos municípios para a concessão de vouchers, mas o sistema é lento e a burocracia, fatal para o tecido social. Em Palermo e Nápoles, multiplicam-se as denúncias de assaltos a supermercados.

Alguns moradores, liderados pela associação Liberi di Volare (Livres para voar)e pela Fundação San Gennaro, organizaram-se para distribuir alimentos a famílias necessitadas em Nápoles. É outra forma de evitar a infiltração de clãs mafiosos. Davide Marotta faz parte do esquadrão que distribui 350 pacotes de comida semanais e vales-compra no bairro napolitano de Sanità. “Quem recebe ajuda, muitas vezes, não pensa se vem de alguém que mata ou vende drogas. Fome é fome. Nápoles já estava cheia de problemas antes do coronavírus. O Estado está ausente nessas áreas, e muitas vezes a Camorra o substitui. O único mercado que não para é o ilegal. E é usado o velho método do clientelismo político. O que nós fazemos é ocupar esse espaço”, diz Marotta, por telefone, no único dia de descanso dos voluntários.

O prefeito de Palermo, Leoluca Orlando, um dos primeiros a alertar sobre o incêndio social que estava chegando às ruas de sua cidade, resume assim: “Quando você está doente e o médico não chega, acaba indo ao curandeiro. Devemos evitar que esses falsos médicos batam à porta. Os mafiosos estão alimentando o mal-estar social para transformar aos novos pobres em transportadores de drogas, escravos. Só o dinheiro público é a alternativa ao dinheiro mafioso. E isso vale em toda a Itália, também no norte”. E hoje tudo acontece às escuras.

A pandemia complica o trabalho de investigação, explica um dos procuradores mais importantes da luta contra a máfia em Palermo, que pede anonimato. “Neste momento, os pontos de escuta, os lugares onde foram instalados microfones [pela polícia], os esconderijos, já não estão dando muitos frutos, porque não são frequentados. Os carros estão parados, e nas residências, estando em família, nem sempre é possível obter informações, porque há mais barulho e as conversas são de outro tipo. Quanto menor o movimento, menos visíveis são os encontros e menos informações obtemos”, diz ele. Um comandante policial especialista no combate à Cosa Nostra assinala: “É mais difícil para todos: para eles, que dão cobertura e logística para a distribuição de drogas, e para nós, que devemos segui-los e não podemos nos camuflar entre os carros e as pessoas”.

A Covid-19, no entanto, corrói a parte fraca da máfia. A que precisa do barulho para viver em silêncio. Para grandes fugitivos, como o chefe da Cosa Nostra Matteo Messina Denaro, foragido há 26 anos, hoje é mais difícil se esconder. “São como baleias. Vivem submersos e de vez em quando têm de vir à superfície para respirar. Vamos caçá-los quando fizerem isso... ou morrerão afogados.”

No Brasil o crime organizado se divide. Segundo o jornal O Globo, as milícias fluminenses pressionam comerciantes para que continuem trabalhando, uma vez que sem receita eles não tem como pagar os grupos criminosos que vivem da cobrança de taxas e extorsão. Por outro lado, traficantes de facções como Comando Vermelho e Amigo dos Amigos tem colocado faixas em algumas comunidades pedindo que todos fiquem em casa.

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