México registra 21 assassinatos de mulheres durante os dois dias de protesto feminista

Feminicídios ocorridos em 8 e 9 de março batem novos recordes, apesar de a cifra geral de homicídios ter caído no país neste fim de semana

Meninas durante os protestos do domingo na praça Zócalo, na Cidade do México.
Meninas durante os protestos do domingo na praça Zócalo, na Cidade do México.Marco Ugarte / AP

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Enquanto nas principais cidades do México centenas de milhares de mulheres protestavam por uma causa primordial —“Nem uma a mais”—, no resto do país a estatística se impunha com força. Dez mulheres assassinadas ao dia, gritavam os cartazes. E nestas 24 horas de protesto, no último domingo, 8 de março, 11 mulheres foram assassinadas. Na segunda-feira, durante a greve geral de mulheres, outras 10. O presidente López Obrador anunciou as cifras nesta terça-feira, e a insistência em relacionar as reivindicações feministas com uma campanha de oposição irrita ainda mais esta metade da população, que exige medidas urgentes.

As cifras gerais de homicídios diminuíram neste fim de semana no país. E o presidente louvou os efeitos de sua estratégia de segurança pública, pois a média de mais de 90 por dia —a taxa mais alta em três décadas— ficou reduzida a 72 assassinatos. A notícia escondia, porém, uma guerra que não deu trégua às mais de 63 milhões de mulheres mexicanas. A cifra, também histórica, de mais de 10 feminicídios por dia, mantinha-se sem variação e explica por que não se pode relacionar os crimes machistas com a violência generalizada no país, geralmente associada ao crime organizado. Enquanto o tráfico deixa de matar, o machismo não cessa.

Morreram assassinadas no México em 2018 —o último ano registrado pelo Instituto Nacional de Estatística— 3.752 mulheres, o dado mais alto em 29 anos. E o alerta de feminicídios uniu um movimento em uma reivindicação básica: lutar contra a violência.

As jornadas de 8 e 9 de março representaram um momento histórico para o feminismo mexicano. Nunca o país tinha sofrido este nível de violência machista e tampouco uma passeata pelos direitos das mulheres tinha tido uma acolhida semelhante. Muito menos se convocou e acatou uma greve geral de mulheres em todo o país.

As ruas, o metrô e os comércios da capital estavam quase vazios nesta segunda-feira. O sistema de transporte público registrou uma redução de 40% no número de usuários, ou seja, cerca de 660.000 pessoas menos. Além disso, as condutoras dos trens e 340 bilheteiras do metrô (de um total de 370) aderiram à greve, segundo as cifras da instituição. O Governo da Cidade do México anunciou ainda que 40% das trabalhadoras da Administração local se somaram à paralisação, quer dizer, 60.000 funcionárias das diferentes secretarias públicas.

A Secretaria de Educação Pública (SEP), que conta com 1,3 milhão de professoras (62% da força magisterial) tinha prometido não sancionar quem aderisse à greve. E o anúncio impossibilitou centenas de escolas de abrirem suas portas nesta segunda-feira.

Embora não haja dados do impacto econômico real da greve de mulheres e tampouco da eficácia do movimento, as estimativas de alguns especialistas indicavam que, como a força de trabalho feminina representa 45,5%, se 100% das mulheres trabalhadoras tivessem parado isso representaria cerca de 23,4 bilhões de pesos (5,2 bilhões de reais). Caso a paralisação tivesse 40% de adesão —como aconteceu nas instituições públicas da capital—, o impacto econômico seria de 9,36 bilhões de pesos (2,07 bilhões de reais). E a cifra poderia ser maior, pois 60% do trabalho informal é feito por mulheres.

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