Crítica
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‘Uma vida oculta’: Sublime em tempo parcial

Excessivamente afetado, o filme mais recente de Terrence Malick não resiste; faz tempo que sua sistemática, sempre a mesma, pesa

Cena de 'Uma vida oculta', de Terrence Malick. No vídeo, o trailer do filme.

O lirismo não se dá bem com a reiteração e a grandiloquência, porque o que está à espreita logo ao lado são a autocomplacência e o excesso. Talvez por isso, paradoxos da vida artística, as pausas sempre vieram a calhar para Terrence Malick. Tempo até demais, dizíamos então os seus fãs, de até 20 anos entre Cinzas no paraíso e Além da linha vermelha. Entretanto, quando o norte-americano conseguiu deixar seus longos retiros e se pôs a fazer cinema com a regularidade dos outros, com cinco longas-metragens entre a obra-prima A árvore da vida (2011) e este Uma vida oculta (2019), que estreia nesta semana, acabou deixando transparecer suas linhas artísticas, as metáforas e até os ritmos. Talvez seja impossível ser sublime em tempo integral.

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Mesmo assim, Uma vida oculta traz certa recuperação da emoção após a (em alguns momentos) ridícula Amor pleno e o fracasso (quase) unânime de crítica de Cavaleiro de copas (2015) e De canção em canção (2017). Desta vez, a minúcia visual e textual do Malick mais recente vem de mãos dadas com um tema maior e com subtextos muito interessantes, que se ligam bem ao magnífico Além da linha vermelha, o que deixa o filme de pé, pelo menos, durante os primeiros 75 minutos das desnecessárias três horas totais.

Na odisseia pessoal e social do camponês austríaco atropelado pela guerra, pelo nazismo e pela História (com maiúscula), objetor da ideologia do ódio em um tempo de rancor e de ovelhas no rebanho, há temas de enorme complexidade que Malick capta através de suas habituais paisagens física e humana, a da natureza e a dos rostos. São as certezas de um mártir sem nome, um desses esquecidos que, como bem se ocupa de explicitar a trama, nunca se destacaram, mas permitiram lançar as bases de nossas sociedades atuais. São os retalhos de felicidade e verdade em meio à poesia, as corridas, as brincadeiras e os choros das crianças. É a dignidade nos olhares de um homem e uma mulher que se amam. São as humilhações da massa ressentida.

Na segunda e terceira partes da narrativa, a da prisão e a do julgamento, entretanto, o cinema atual de Malick, excessivamente afetado, não resiste. Porque faz tempo que sua sistemática pesa, sempre a mesma, com três essências: os planos com steadycam e a utilização das lentes grande-angulares; a constante voz em off e a narração de tom lírico; e a utilização de músicas clássicas sobre a beleza da imagem. O fantástico diretor de Terra de ninguém não precisa de outra pausa, e sim, talvez, renovar um tanto seu estilo, porque muitas imagens de seus últimos filmes parecem intercambiáveis.

UMA VIDA OCULTA

Direção: Terrence Malick.

Elenco: August Diehl, Valerie Pachner, Franz Rogowski, Karl Markovics.

Gênero: Drama. EUA, 2019.

Duração: 180 minutos.