CORONAVíRUS DE WUHAN

Mortos pelo coronavírus na China chegam a 56 e hospitais entram em colapso em Wuhan

Wuhan construirá um segundo hospital para os afetados. Número de contagiados no país asiático subiu mais de 500 em 24 horas, para 1.350

Médico com um paciente na unidade de terapia intensiva do hospital Zhongnan, em Wuhan.
Médico com um paciente na unidade de terapia intensiva do hospital Zhongnan, em Wuhan.AP

A China entrou neste sábado em um novo ano lunar, o do Rato, e não começou com o pé direito. A crise pelo coronavírus de Wuhan parece estar ficando cada vez mais grave e as próprias autoridades dessa cidade, o epicentro do contágio, reconhecem que os suprimentos médicos estão atingindo níveis alarmantemente baixos. O número de mortos na China já chega a 56 e o de infectados passa de 1.700 −um salto de mais de 500 pessoas em 24 horas−, um total que pode ser muito maior, já que há outros 2.000 casos suspeitos. Entre os mortos está um médico que tratava esses pacientes em Wuhan, identificado como Liang Wudong, de 62 anos.

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Liang, um especialista em doenças respiratórias do hospital Hubei Xinhua, começou a apresentar os sintomas −tosse, febre alta, dificuldade para respirar− há uma semana, disseram seus colegas à imprensa local, e estava internado desde então.

A morte de Liang pôs em evidência os riscos aos quais estão expostas as equipes médicas de Wuhan e outras 13 cidades da província de Hubei, nas quais 46 milhões de pessoas estão em quarentena. As autoridades de saúde já tinham confirmado dias atrás que entre os infectados estavam 15 médicos e enfermeiros, 14 deles contagiados por um único paciente, um homem submetido a uma cirurgia cerebral. Na quinta-feira morreu outro médico, o especialista em doenças infecciosas Jiang Jijun, que teve uma parada cardíaca enquanto atendia pacientes.

A sobrecarga dos hospitais é evidente em vários vídeos que circulam nas redes sociais, apesar da censura. Em um deles, uma enfermeira chora de esgotamento; em outro, uma mulher que se descreve também como enfermeira denuncia a presença, em um corredor, de três corpos que ninguém tem tempo de retirar. Outros mostram salas de espera superlotadas. Alguns hospitais começaram a recusar pacientes devido à impossibilidade de atendê-los.

Não se trata apenas de esgotamento. Os níveis de suprimentos para tratar os doentes estão caindo para níveis alarmantes, o que levou os hospitais públicos a lançar um apelo solicitando doações. Pedem máscaras, aventais cirúrgicos, desinfetantes, óculos de proteção. Os suprimentos atuais, segundo o jornal estatal The Paper, chegam para no máximo cinco dias. Um funcionário provincial citado pela Reuters reconheceu que os estoques desses materiais estão muito baixos e a crise continua em níveis graves. Segundo esse funcionário, até o momento foram recebidas doações de 1,2 milhão de máscaras e 30 milhões de yuans (mais de 18 milhões de reais).

Para tentar aliviar a situação o mais rápido possível, e num sinal da urgência da situação, Wuhan construirá às pressas um segundo hospital dedicado exclusivamente a pacientes com coronavírus, com 1.300 leitos. Esse hospital, informou o Diário do Povo, vai se somar ao que foi anunciado na sexta-feira, que começou a ser erguido com módulos pré-fabricados e deve ser concluído em apenas 10 dias, com mil leitos.

Além disso, a Comissão Nacional de Saúde enviou a Hubei mais de 1.200 profissionais de saúde procedentes do resto do país. O Exército chinês também deslocou um contingente de 450 médicos militares, alguns deles especializados na luta contra o ebola na África e contra o SARS, uma síndrome respiratória que é causada por um coronavírus da família do atual e matou mais de 700 pessoas em 2003.

Proibição de tráfego rodoviário

Para incentivar os 11 milhões de habitantes de Wuhan a ficar em casa e evitar assim o contágio, o governo municipal anunciou a proibição do tráfego rodoviário na área central da cidade a partir da meia-noite. Só poderão circular veículos especialmente autorizados em casos de emergência ou encarregados de transportar alimentos e remédios a pessoas necessitadas, após a aprovação de um comitê de moradores.

O contágio já se espalhou para uma dezena de países em quatro continentes. A França, que confirmou três casos em seu território, foi o primeiro país afetado na Europa. Austrália e Malásia também confirmaram seus primeiros casos, que, com os que já foram registrados nos Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, Taiwan, Vietnã, Nepal, Cingapura e Tailândia, somam quase 30.

Os primeiros casos na Europa foram anunciados sexta-feira em Paris pela ministra francesa da Saúde, Agnès Buzyn. Dois foram diagnosticados em um hospital da capital francesa e aparentemente estão relacionados entre si, e o outro foi registrado em um centro de saúde de Bordeaux, no sudoeste do país. Os três pacientes estão internados, mas não foram divulgados detalhes sobre seu estado de saúde. Buzyn disse que provavelmente serão diagnosticados mais casos na França nos próximos dias. Na Espanha, o Ministério da Saúde descartou na manhã de sexta-feira dois casos em estudo, mas à noite o Departamento de Saúde do País Basco notificou que uma paciente com alguns sintomas suspeitos, que visitou Wuhan recentemente, estava sob vigilância. O ministro espanhol da Saúde, Salvador Illa, pediu “tranquilidade” e afirmou que a Espanha está “preparada para enfrentar” a doença.

No Reino Unido, autoridades de saúde e agentes de imigração uniram forças para localizar 2.000 pessoas que chegaram ao país procedentes de Wuhan nas últimas duas semanas, informou a agência Efe. O Ministério da Saúde confirmou neste sábado que as autoridades britânicas procuram “o maior número possível de passageiros” para verificar seu estado.

Na China, o coronavírus já se espalhou por todas as províncias, exceto o Tibete. O paciente mais jovem é um menino de dois anos na região de Guangxi, no sul do país. Mas a grande maioria está na província de Hubei. Lá foram registrados 729 casos e ocorreram 39 das 41 mortes.

Portadores sem sintomas clássicos

Na sexta-feira, o governador de Hubei, Jiang Chaoliang, disse que Wuhan “fará todos os esforços” para aumentar o número de leitos e de salas de isolamento para os possíveis casos. A detecção é complicada porque alguns dos portadores do vírus não apresentam os sintomas clássicos de cansaço, febre ou dificuldade para respirar, apontou um grupo de cientistas em um estudo publicado sexta-feira na revista médica The Lancet.

A situação ofuscou as celebrações do Ano Novo lunar, o dia mais importante no calendário de festividades da China. Com a grande maioria dos eventos públicos cancelados, muitos locais de recreação fechados e a recomendação das autoridades de saúde de evitar aglomerações e deslocamentos, o clima está muito longe do júbilo habitual. As ruas das principais cidades estão encontram desertas; é difícil encontrar pedestres sem máscara.

No total, 18 das 30 províncias da China continental declararam o nível máximo de emergência de saúde. Hong Kong, onde já foram registrados cinco casos e há outros 107 suspeitos, somou-se neste sábado a essa medida, que permite cancelar eventos públicos e pôr em quarentena quem chega ao território autônomo chinês. A chefa do Governo local, Carrie Lam, anunciou que serão prolongadas por duas semanas as férias escolares para evitar riscos de contágio de crianças. Também ficarão suspensos até nova ordem os voos e rotas ferroviárias entre a ex-colônia britânica e Wuhan.

O coronavírus de Wuhan, conhecido provisoriamente como 2019-nCoV, pode causar sintomas semelhantes aos da gripe comum, como tosse, febre e dificuldade para respirar, que podem levar a uma pneumonia.

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