Êxodo pelo Brexit agrava a crise da saúde pública britânica

Milhares de enfermeiros da UE deixam o NHS, um sistema atingido pela falta de funcionários, os cortes e a deterioração do atendimento aos pacientes

Boris Johnson em visita ao West Cornwall Community, na Cornualha, no final de novembro.
Boris Johnson em visita ao West Cornwall Community, na Cornualha, no final de novembro.DAN KITWOOD / AFP

Sentado com um grupo de profissionais da saúde em um hospital da Cornualha, no sudoeste do Reino Unido, Boris Johnson lembra sua promessa de contratar milhares de enfermeiras se ganhar as eleições, que ocorrerão nesta quinta-feira. “Existe uma árvore de enfermeiras?”, lhe pergunta ironicamente uma mulher presente à visita do primeiro-ministro. “De onde virá toda essa gente?”, acrescenta. A cara de incredulidade de uma estudante de residência sentada ao lado do político conservador, com um chá nas mãos, a gravata entre os botões da camisa e as mangas arregaçadas, diz tudo. Essa cena, que está em um vídeo que percorreu a Internet como pólvora, mostra as fortes tensões entre os funcionários do Sistema Nacional de Saúde (NHS, em inglês) e o Governo após uma década de gestão tory marcada pelos cortes que deixaram a saúde pública nos ossos e com uma grande crise de trabalhadores.

500 quilômetros ao norte da Cornualha, no Northern General Hospital de Sheffield, Joan Pons Laplana lembra ter visto o vídeo. “Eu também não sei de onde irão tirar esses 50.000 enfermeiros”, se pergunta esse enfermeiro de 44 anos de Barcelona que está há duas décadas no Reino Unido. Em seu hospital, um dos maiores do país, há uma pessoa dedicada a recrutar funcionários no estrangeiro, agora principalmente da Índia e Filipinas. O NHS tem 100.000 cargos vagos (de um total de 1,5 milhão), entre eles 40.000 enfermeiros e 10.000 médicos, e é cada vez mais difícil encontrar candidatos dispostos a fazer as malas para trabalhar no país.

“Quando vim, o salário era muito bom; era o rei da cocada preta”, diz Pons sorrindo. “Eu me sustentava, mandava dinheiro para minha família, saía de férias... Mas isso mudou”. Em primeiro lugar, porque os salários estão congelados há uma década, enquanto a libra desvalorizou significativamente desde a votação a favor do Brexit, em 2016, o que se traduziu em uma perda de poder aquisitivo. Em segundo lugar, porque há alguns meses se alertou sobre a possibilidade de que a experiência acumulada por enfermeiros e médicos da UE no NHS, que agora pode virar pontos para ganhar créditos em concorrências em toda a União, poderiam desaparecer no caso de uma saída sem acordo. “Se você tem uma esposa inglesa, um filho de 17 anos e uma hipoteca, como eu, não é tão fácil voltar, mas para os jovens sem impedimentos é, e muitos o fazem”, afirma.

Quase 5.000 enfermeiros e parteiras da UE partiram entre 2017 e 2018, de acordo com os últimos dados do conselho que regulamenta a profissão. O número de pedidos de trabalho de países europeus caiu 87% no ano passado. Apesar do êxodo, os espanhóis continuam sendo, com 3.370 enfermeiros, a maior concentração não britânica atrás da Irlanda. No total, no Reino Unido há 33.035 enfermeiros da UE.

“Eu me sinto traído, porque sempre me senti em casa aqui e agora preciso pedir permissão para ficar”
Joan Pons, enfermeiro que está há 20 anos no Reino Unido

“O fim da liberdade de movimento das pessoas da UE após o Brexit pode causar uma maior desaceleração no número de chegadas de trabalhadores que ocupam postos essenciais ao sistema”, afirmam Mark Dayan e Billy Palmes, do think tank Nuffield Trust e autores de um relatório recente que aponta a crescente dependência do NHS da mão de obra estrangeira. Entre 2000 e 2019, a proporção de funcionários nascidos fora do Reino Unido quase duplicou, até chegar a 23,5%.

A falta de funcionários foi fundamental na deterioração da qualidade do serviço que, apesar de tudo, continua sendo bem avaliado nas pesquisas de satisfação dos pacientes. Não é de se estranhar que a oferta de Johnson de contratar 50.000 enfermeiros (na realidade 20.000 deles já trabalham no NHS) tenha sido uma das promessas eleitorais que geraram mais debate. Quando se pergunta aos britânicos sobre suas prioridades políticas, o estado do NHS sempre está nas primeiras colocações da lista. As eleições de quinta-feira não são uma exceção e os partidos colocaram o assunto no centro da campanha.

A situação dos empregados não britânicos do NHS que decidem ficar não é fácil. “O que mais me afeta, acima de tudo, é que desde o Brexit me sinto traído, porque sempre me senti em casa aqui e não quero partir”, confessa Pons em sua sala, localizada no outro extremo da entrada principal do hospital fundado em 1878. “E agora preciso pedir permissão para morar aqui e essa permissão vale para seis anos. O que acontecerá depois? Receberei minha aposentadoria? Porque as condições legais podem mudar depois”.

Nas redes sociais, Pons luta contra a degradação do NHS e contra o Brexit. Desde que chegou ao país, passou por vários destinos, mas agora trabalha na digitalização do NHS. “Queremos que a informação dos pacientes esteja interconectada para reduzir os riscos de um erro e perder menos tempo na papelada”, afirma. Também dá palestras a crianças do ensino primário sobre o que é o trabalho de um enfermeiro para que “mais jovens se encorajem a estudar isso”. No Reino Unido esses estudos não têm muita demanda.

Na entrada do hospital, ao lado de uma banca de frutas instalada “para compensar a péssima comida das máquinas”, Pons comenta declarações recentes de Johnson: “Disse que os imigrantes europeus puderam tratar o Reino Unido como se fosse parte de seu próprio país durante muito tempo”. Palavras que lhe trazem à memória uma das mensagens centrais da campanha a favor do Brexit há três anos.


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