O lado mais racista de Hollywood em seus cartazes de cinema

A indústria cinematográfica de Los Angeles se encarregou de construir uma identidade de nação, de supremacia branca, que os ‘race movies’ (filmes feitos por e para afro-americanos) deviam reforçar. Algo deu ‘errado’

À esquerda, um cartaz promocional para as projeções de ‘O Nascimento de Uma Nação’, fábula histórica com apologia à Ku Kux Klan; à direita, ‘Stormy Weather’, com Lena Horne, apelidada de vênus morena, uma das estrelas afro-americanas que Hollywood quis ‘embranquecer’.
À esquerda, um cartaz promocional para as projeções de ‘O Nascimento de Uma Nação’, fábula histórica com apologia à Ku Kux Klan; à direita, ‘Stormy Weather’, com Lena Horne, apelidada de vênus morena, uma das estrelas afro-americanas que Hollywood quis ‘embranquecer’.

A epifania e a épica do cinema norte-americano são apontadas pelo filme ‘O Nascimento de Uma Nação’(D.W. Griffith, 1915), fábula histórica que glorificava um movimento supremacista como o Ku Kux Klan e a representação da população negra como um povo ignorante, selvagem e violador (o filme só teve uma resposta 100 anos depois, com a versão de Nat Parker, em 2016). Os personagens afro-americanos interpretados por atores brancos maquiados de preto revelam o racismo de uma incipiente indústria cinematográfica. O debate cinema-racismo se inseria – desde o primeiro momento – na própria história do nascimento do cinema.

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Boa parte dessa história de segregação racial pode ser visualizada na iconografia dos chamados race movies, nos cartazes ou pôsteres dos filmes que entre 1915 e 1950 foram feitos para um público exclusivamente afro-americano. Era um cinema produzido, dirigido e interpretado por negros: “All collored cast”, como mostra o texto publicitário que acompanha os cartazes.

Paralelamente à mobilização do grande maquinário de Hollywood, duas companhias afro-americanas, a Lincoln Motion Picture Company e a Micheaux Film Corporation, começam a realizar filmes fora dos circuitos de Hollywood, produções distribuídas de forma independente. Enquanto nos Estados do sul os longas são projetados em salas segregadas, auditórios só para negros, no norte são feitas sessões especiais, matinais ou à meia-noite, nos teatros tradicionais para o público afro-americano. A iconografia desses primeiros race movies, que transcorre entre o cinema mudo e a chegada do cinema sonoro, reproduz gêneros populares como o western, o melodrama, filmes de suspense e musicais com a chegada do cinema sonoro. Um cinema destinado a promover a integração do afro-americano na sociedade americana e que evita temas “espinhosos” como a pobreza dos guetos, a injustiça social e a segregação racial. A mensagem: conseguir que a população afro-americana se sentisse inserida na mitologia popular norte-americana.

As estrelas do ativismo

O desenvolvimento desse cinema produz as primeiras estrelas negras, como o cantor e ativista Paul Robeson; sua poderosa estampa nos cartazes de Body and Soul e The Emperor Jones parece desafiar todas as leis segregacionistas imperantes. A voz potente de Robeson ficará unida para sempre à canção Ol' Man River do musical Show Boat. Combatente em todas as frentes pelos direitos civis, Robeson verá sua carreira truncada por culpa do macartismo.

A outra grande estrela negra daqueles primeiros momentos do cinema sonoro é a cantora e bailarina Josephine Baker, que triunfa em Paris com o espetáculo La Revue Nègre (“a revista negra”). O corpo seminu de Baker se projeta em liberdade nos cartazes europeus com uma mistura explosiva de fantasia e erotismo. A chamada “era do jazz” coincide com o renascimento do Harlem como foco de atração para músicos, cantores e bailarinos afro-americanos.

Alguns deles, Ethel Waters, Louis Armstrong e Lena Horne, uma intérprete que a indústria cinematográfica embranquecer, são reivindicados por Hollywood. Musicais como Cabin In The Sky, com um estilizado cartaz do desenhista Al Hirschfeld, e Stormy Weather, duas grandes produções protagonizadas por atores negros, são um ponto de inflexão na história do cinema norte-americano e na visibilidade dos atores afro-americanos. Pareciam distantes aqueles ridículos personagens maquiados com carvão...

A trajetória visual desta história do cinema afro-americano – daqueles race movies de ilustração melodramática e caricaturesca até os desafiantes gângsteres e proxenetas do gênero Blaxploitation – é documentada no livro Separate Cinema: The First 100 Years of Black Poster Art (Cinema segregado: os primeiros 100 anos de arte nos pôsteres negros), da editora Reel Art Press. O volume reúne parte do arquivo do pesquisador John Kisch, criador da mais extensa coleção privada sobre o cinema afro-americano.

O arquivo, com cerca de 40.000 documentos, conta com uma grande série de fotografias e sobretudo cartazes, muitos deles criados por designers europeus, onde se destaca o toque surrealista da chamada escola polonesa do cartaz, representada por Roman Cieslewicz, e clássicos americanos como Paul Rand e Saul Bass, este último designer gráfico da imagem publicitária de dois musicais negros, Porgy and Bess e Carmen Jones, dirigidos por Otto Preminger, marcos na visibilidade da cultura afro-americana na América do Norte dos anos cinquenta.

O cartaz cinematográfico projeta o nascimento – contra a corrente – de um star system afro-americano que somará nomes como Dorothy Dandridge, Harry Belafonte, Sammy Davis Jr. e Sidney Poitier em meio às turbulências de um país mergulhado em conflitos raciais e na luta pelos direitos civis. O arquivo, The Separate Archive Cinema, está depositado no futuro Lucas Museum of Narrative Art, cuja inauguração está prevista para 2022 em Los Angeles.

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