“Não é verdade que a Argentina se nega a reformar o Mercosul”

Ministro do Desenvolvimento Produtivo da Argentina, Matías Kulfas, afirma que uma diminuição das taxas alfandegárias como pedem o Uruguai, Brasil e Paraguai é “puro dogmatismo ideológico”

O ministro do Desenvolvimento Produtivo da Argentina, Matías Kulfas, durante a entrevista com o EL PAÍS em seu gabinete, em 31 de março de 2021.
O ministro do Desenvolvimento Produtivo da Argentina, Matías Kulfas, durante a entrevista com o EL PAÍS em seu gabinete, em 31 de março de 2021.Foto:Enrique Garcia Medina

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Matías Kulfas, ministro argentino de Desenvolvimento Produtivo, admite que o Mercosul atravessa “um momento de tensão”. Membros como o Uruguai e o Brasil querem mais flexibilidade e menores taxas alfandegárias externas e a última reunião do órgão, dias atrás, acabou de forma exasperada. “Não é verdade que a Argentina se nega a reformar o Mercosul”, diz Kulfas, durante uma entrevista realizada em seu gabinete ministerial. “Queremos uma reforma, mas com tempo e de modo pragmático. A ideia de que reduzindo taxas alfandegárias tudo se moderniza de uma vez é puro dogmatismo ideológico”.

Pergunta. O Governo argentino acaba de anunciar medidas para atrair investimentos.

Resposta. Sim, flexibilizaremos as restrições cambiais quando se tratar de investimentos grandes, superiores a cem milhões de dólares, em setores exportadores como a mineração, a energia e a agroindústria. Quando chegamos ao Governo já existia o chamado cepo (controle cambiário). Sofríamos uma crise na balança de pagamentos, mais uma em nossa história, somada a um problema de excesso de endividamento. Agora queremos que os setores exportadores possam ter divisas. Não gostamos das restrições, mas não temos alternativas, pela escassez de dólares. A nova ferramenta vai na direção de ir abrindo o cepo e esperamos que quando as exportações melhorem possamos continuar avançando por esse caminho.

P. “Temos que viver com o nosso”, já disse o presidente Alberto Fernández, sobre reduzir as importações.

R. O presidente não tem ideias autárquicas e nacionalistas. Pensa na integração internacional da economia argentina e pensa no Mercosul. O que o presidente coloca é a necessidade de sair de um modelo centrado na especulação financeira para apostar na produção e no trabalho. Queremos fomentar o comércio exterior e receber investimentos estrangeiros. Mas o ponto de partida de nosso Governo é muito complicado, com uma grande crise macroeconômica e a pandemia.

P. Seus parceiros no Mercosul criticam as altas taxas alfandegárias externas (14% em média) e querem estabelecer livremente alianças comerciais com outros países.

R. Não é verdade que nós não queremos mudar nada no Mercosul. Expusemos a nossos parceiros uma modificação da taxa alfandegária exterior comum e fomos muito ambiciosos: propusemos que em aproximadamente 1.800 itens a taxa baixe a 0%. O que acontece é que nosso olhar é pragmático. O primeiro é dar coerência à estrutura alfandegária, que ficou velha porque foi definida em meados dos anos de 1990. É preciso modernizar. A questão é como. A ideia de que reduzindo as taxas alfandegárias tudo se moderniza de uma vez é puro dogmatismo ideológico. É preciso discutir em que proporção serão reduzidas e em quais itens serão mantidas. Isso leva tempo. Na Argentina temos experiência com essas coisas, em vários momentos de nossa história tomamos decisões ideológicas, reduzimos as taxas e abrimos nossa estrutura financeira, e terminamos com uma crise na balança de pagamentos. Por isso somos cautelosos.

P. Os ânimos se acalmarão no Mercosul?

R. Apostamos nisso. O Mercosul é um bom projeto e os problemas são resolvidos dialogando. Em qualquer sociedade há momentos bons e ruins, e no Mercosul este é um momento de tensão.

P. “Nenhuma política industrial funciona se a macroeconomia é instável”. O senhor disse isso tempos atrás. É possível fazer política indústria com o quadro macroeconômico atual?

R. Vamos avançando à estabilidade. Conseguimos vencimentos mais razoáveis à dívida privada e negociamos agora com o Fundo Monetário Internacional. A lei de orçamentos contempla uma redução do déficit. Estamos recuperando o crescimento, a níveis até mesmo mais altos do que antes da pandemia. A situação irá se normalizar, apesar de todas as dificuldades.

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P. Os controles sobre os preços de milhares de produtos foram prorrogados até maio. Muitos fabricantes se queixam de que seus insumos sobem. E a inflação voltou a aumentar.

R. A inflação é um problema adicional. Chegou a 53% em 2019 e pudemos reduzi-la a 36% em 2020, mas no final do ano passado começaram a subir mundialmente os preços das matérias-primas e nós não pudemos, como outros países, absorver esse choque com política cambiária e outras ferramentas. Precisamos impor o mecanismo de preços máximos, que não significa um congelamento de preços. É verdade que muitos insumos subiram e isso afetou a margem de rentabilidade dos fabricantes. O problema existe. Queremos acabar com o mecanismo de preços máximos, mas sem que isso signifique uma explosão inflacionária.

P. Que efeito podem ter sobre os possíveis investidores estrangeiros exigências como a do poderoso Sindicato dos Caminhoneiros, que pede indenizações para todos os funcionários quando uma empresa muda de donos?

R. Mantemos um diálogo permanente com os setores da produção e do trabalho e nos últimos meses, apesar da crise, quase não sofremos conflitos sindicais. Evidentemente, há coisas das quais não gostamos. Por isso, no caso que você cita, o Ministério do Trabalho ditou a conciliação obrigatória. Não apoiamos a iniciativa do Sindicato dos Caminhoneiros porque não avalizamos os abusos, de um lado e do outro. O investidor internacional verá na Argentina o mesmo que nós vemos, um potencial enorme em recursos naturais, industriais e humanos. Naturalmente, os investidores desejam a previsibilidade e a estabilidade macroeconômica. O Governo também as deseja.

P. A disputa com o Governo anterior por se endividar com o FMI ajuda na previsibilidade?

R. O presidente traçou uma linha de trabalho clara: contra um problema de excesso de endividamento, é preciso diálogo e acordos. Essa é a linha em relação ao FMI. No meio, claro, há debate político. A realidade é que o acordo do Governo anterior com o FMI é extremamente chamativo, porque foi o maior empréstimo na história da organização e, sobretudo, não serviu para nada: não estabilizou a economia e não financiou planos de desenvolvimento. Diante disso, alguns setores expuseram a necessidade de realizar indagações adicionais pela via judicial. Tudo isso não significa que não iremos pagar. Mas é necessário pagar com recursos gerados graças ao crescimento, não com os clássicos programas de ajuste aplicados pelo Governo anterior.

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