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A luta sindical que a Amazon quer sufocar

Trabalhadores de um depósito do Alabama tentam se organizar enquanto a promotora de Nova York processa a empresa por falta de segurança contra o coronavírus

Trabalhadores da Amazon protestam em Nova York, em fevereiro.
Trabalhadores da Amazon protestam em Nova York, em fevereiro.Erik McGregor / LightRocket via Getty Images

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Em alguns setores da economia dos Estados Unidos se sindicalizar é uma atividade de risco. Os quase 6.000 trabalhadores de um depósito de distribuição da Amazon em Bessemer (Alabama) sabem muito bem, há semanas recebendo pressão da empresa para que desistam do revolucionário empenho de formar um sindicato. Os empregados alegam condições de trabalho extremas: retirada dos celulares durante os turnos; pausas exíguas para almoçar e ir ao banheiro e corridas contra o tempo para percorrer uma distância equivalente a 14 campos de futebol americano desde a entrada do complexo para bater o ponto a tempo. O atraso pode custar o corte do salário e uma demissão, denunciam os funcionários.

O depósito do Alabama está aberto há somente um ano — foi inaugurado para atender a grande demanda originada pela pandemia —, de modo que é possível imaginar o mesmo, e até pior, em outros centros logísticos mais antigos. Como os de Queens e Staten Island (Nova York), cujo suposto déficit de segurança durante a pandemia, e as represálias da empresa aos denunciantes, são objeto de um processo da promotora do Estado, Laetitia James. “Não é minha intenção expulsar a Amazon da cidade, e sim proteger a segurança e a saúde dos trabalhadores”, declarou.

Está em jogo a autodefesa do trabalhador contra poderosos interesses econômicos, em um dos âmbitos mais lucrativos, por números de mercado e crescimento exponencial; um setor quase intocável. Mas condições draconianas, ameaças e até demissões dos que se atrevem a levantar a cabeça acima da multidão colocaram os holofotes sobre o gigante tecnológico, o segundo maior empregador dos EUA — com 40.000 trabalhadores somente em depósitos e pontos de entrega —, cujos lucros dispararam graças à pandemia.

Se as leis do Estado também não ajudam, como no Alabama, a luta sindical se torna titânica. O sulista, um dos 27 “Estados com direito ao trabalho” onde os trabalhadores não são obrigados a pagar mensalidades aos sindicatos que os representam, abriga a única fábrica da Mercedes-Benz no mundo que não tem um. Um terreno propício para a Amazon, que afirma que já oferece aos seus empregados o que os sindicatos exigem: subsídios, oportunidade de desenvolvimento e um salário que parte dos 15 dólares (84 reais) por hora.

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Ainda que as grandes tecnológicas sejam um terreno inclemente à atividade sindical, por sua cultura do trabalho individualista e o férreo silêncio corporativo, em janeiro trabalhadores do Google deram um passo à frente e se organizaram no primeiro sindicato do ramo. Após um ano de reuniões secretas, 225 engenheiros da Alphabet Inc, a empresa matriz do Google, formaram um sindicato que pretende lutar pela igualdade de trabalho e a observância de princípios éticos no modelo de negócio. A formação é consequência direta de protestos sem precedentes dentro da empresa.

A diferença fundamental entre a ação pioneira do Google e a luta dos funcionários da Amazon está na qualificação deles; na distância sideral entre os trabalhadores de colarinho branco do Google e os de macacão azul: os funcionários de depósito, carregadores e empacotadores dos centros logísticos. A do Alabama é a maior tentativa sindical na empresa desde sua fundação em 1995; após ter silenciado iniciativas semelhantes em sua rede de supermercados Whole Foods; por isso o medo de que provoque uma reação em cadeia.

Com SMS diários e mensagens em um site criado ex profeso para desencorajar a mobilização, a empresa tentou convencer os trabalhadores de que um sindicato só lhes custaria dinheiro — pelas contribuições— sem dar-lhes benefícios; também pediu aos funcionários que “não abandonassem a equipe vencedora”, mas foi em vão. Até 29 de março, e por e-mail — a Justiça do Trabalho recusou a petição da empresa de que o voto fosse presencial—, os quase 6.000 empregados do depósito de Bessemer poderão se pronunciar sobre sua representação.

A última vez que os trabalhadores da Amazon tentaram se organizar foi em 2014, em uma iniciativa residual que não foi bem-sucedida quando 21 técnicos de um depósito em Delaware votaram contra a união à Associação de Maquinistas. Seis votaram a favor. A Amazon tem 1,3 milhão de empregados em todo o mundo.

Dessa forma, além de uma reedição da luta de Davi contra Golias, o germe sindical em uma das Big Five — as cinco grandes tecnológicas — coloca um halo de pioneirismo semelhante ao que deu fôlego à tarefa messiânica de forjar o país. Ou seja: entrar em território desconhecido, mas sem equipamentos, de modo que existirão vítimas a se lamentar.

Em março, a Amazon despediu um trabalhador que liderou uma greve no depósito de Staten Island que exigia medidas de proteção contra o coronavírus. Os empregados que participaram também foram demitidos, mas a Amazon argumenta que por outros motivos. Um vice-presidente, Tim Bray, chegou a renunciar no ano passado, alegando que não poderia continuar enquanto os empregados fossem silenciados. Em outubro, a empresa confirmou que 20.000 de seus trabalhadores testaram positivo para o coronavírus. O demitido, de cargo intermediário, pediu uma quarentena após um colega de departamento se infectar.

“Meu objetivo é proteger a segurança e a saúde dos trabalhadores. A porta do meu escritório está aberta para a Amazon, podemos arbitrar uma condição que signifique a recontratação dos demitidos, e a salvaguarda da saúde e da segurança no trabalho, e com isso teremos resolvido o problema”, disse nesta semana a promotora James em um fórum virtual organizado pelo The New York Times. “Eu me guio por um conceito muito simples, o da justiça; defender os direitos dos indivíduos, especialmente quando empresas poderosas os pisoteiam”, frisou. A primeira, e única, voz que utilizou a palavra “direitos” para apresentar a questão.

Frustração crescente

Ainda que sem chegar ao extremo do McDonald’s, que chegou a criar falsos perfis no Facebook para rastrear os funcionários que organizam protestos em demanda de aumentos salariais, a crescente frustração em um setor de salários altos como a das tecnológicas — desde que o perceptor seja um profissional de colarinho branco, não um funcionário de depósito — colocou em evidência condições de trabalho insalubres nas grandes corporações; uma cultura de empresa que permeia toda a estrutura, e incomoda a base.

A promotora-geral do Estado de Nova York mencionou esse clima na segunda-feira, assim como a enxurrada de ações feitas contra as grandes tecnológicas por desrespeitar a legislação antimonopólio. “Durante a Administração anterior o Governo federal brilhou por sua ausência em muitas áreas, principalmente em relação às leis antimonopólio. A questão é que essas grandes empresas sufocam a concorrência, a inovação e a criatividade, e ameaçam nossa privacidade ao monetizar nossos dados. Por isso a importância de que eu mesma e outros promotores-gerais do país tenhamos decidido realizar ações legais contra as Big Tech”, frisou Laetitia James.

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