Candidato de Trump à chefia do BID acusa Argentina de tentar “sequestrar a eleição” do novo presidente

Mauricio Claver-Carone chama de “uma minoria” os países que buscam adiar o processo de sucessão do maior banco regional do mundo. UE, Argentina e Chile não querem os EUA no controle

Um homem em frente a um logo do BID, em um centro de convenções no Panamá.
Um homem em frente a um logo do BID, em um centro de convenções no Panamá.Carlos Jasso (Reuters)
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O candidato dos Estados Unidos à direção do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Mauricio Claver-Carone, acusou nesta terça-feira a Argentina de adotar “uma tática obstrutiva” para “tentar sequestrar a eleição” prevista para setembro. A declaração foi feita depois que Buenos Aires organizou uma estratégia destinada a adiar o processo para escolher ao novo presidente da instituição. O homem forte do presidente Donald Trump para a América Latina se pôs ao telefone com a imprensa internacional e falou em espanhol sobre os questionamentos à sua candidatura e o crescente consenso sobre o adiamento da eleição para março de 2021.

Claver-Carone apontou sem titubear o Governo de Alberto Fernández, acusando-o de reunir “uma minoria” para impedir sua eleição no BID. “Querem roubar a bola e sair de campo”, queixou-se. A Argentina e a União Europeia foram os primeiros a chamar a atenção para a inédita indicação de um norte-americano para dirigir a instituição, rompendo um histórico acordo tácito, e por isso sugeriram o adiamento da votação para depois da eleição presidencial de novembro nos EUA, com a possibilidade de que Trump deixe de ser o inquilino da Casa Branca. Nos últimos dias, os apoios à estratégia argentina cresceram: México, Chile e Costa Rica se decidiram pela abstenção na votação de setembro, para assim evitar o quórum de 75% do poder de voto dos sócios, necessário para validar o resultado. Outros países ainda estão avaliando sua participação. Segundo Los Angeles Times, fontes diplomáticas afirmam que o Canadá poderia se somar nos próximos dias ao bloco liderado pela Argentina.

O BID, fundado em 1959, tem um capital de mais de 100 bilhões de dólares (538 bilhões de reais). É o maior banco regional do mundo e tem os Estados Unidos como principal acionista. Com créditos de 12 bilhões de dólares, lidera a lista de ajudas ao desenvolvimento no continente. Um acordo não escrito reserva a direção do banco a um latino-americano, mas Trump decidiu neste ano apresentar a candidatura de Claver-Carone. “O que me torna menos hispânico?”, diz, inflamado, o candidato norte-americano de ascendência cubana e articulador da agenda da Casa Branca para o subcontinente. “Os Estados Unidos são o segundo país com mais pessoas que falam espanhol, depois do México”, argumenta.

A eleição estaria assegurada pelo apoio dos Estados Unidos, que tem 30% dos votos, Brasil (11,3%), Colômbia (3,1%) e outros países latino-americanos alinhados com Washington. Mas o avanço de Trump não caiu bem na União Europeia e, sobretudo, na Argentina, que tem seu próprio candidato: Gustavo Beliz, atual secretário de Assuntos Estratégicos na Casa Rosada. Sem os votos necessários para vencer Claver-Carone, a única saída possível é o adiamento. O chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, enviou em julho uma carta a todos os países do Eurogrupo para advertir que o candidato norte-americano romperia com um modelo dominantemente latino-americano.

Claver-Carone conta com o apoio de pelo menos 17 países, incluindo, segundo ele, alguns sócios europeus. “A opinião do senhor Borrell é pessoal e não representa o voto dos países europeus no BID”, afirma. Segundo diferentes fontes consultadas por este jornal, a intenção do bloco europeu é acompanhar a recomendação de Borrell – seguramente no caso da Espanha (1,94% do total de votos), ao passo que Alemanha (1,89%) e França (1,89%) estariam mais próximas do sim do que do não. O apoio destes três países europeus, mais os votos da Argentina, Chile, Costa Rica e México, seriam suficientes para consumar a estratégia abstencionista.

O principal argumento do candidato norte-americano é que os países que participam do banco decidiram por unanimidade em 9 de julho fazer a votação de setembro por teleconferência, quando o contexto da suspensão de atividades pela pandemia do coronavírus já existia. Claver-Carone, além disso, disse que pretende passar cinco anos à frente do banco, sem tentar um novo mandato. “Os Estados Unidos não têm nenhuma intenção imperialista”, disse. O candidato de Trump apelou ao trabalho que os Estados Unidos empreenderam na região para impulsionar o envio de recursos, por exemplo, no caso do México e da América Central, para onde Washington destinou cinco bilhões de dólares para impulsionar a geração de emprego e evitar a migração para os Estados Unidos.

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