Freddie Highmore, o menino-prodígio que deixou a atuação para estudar Filologia

O inglês, protagonista da série ‘The Good Doctor’, chegou à fama aos 13 anos, após interpretar o menino Charlie no filme ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’

Freddie Highmore e Paife Spara na quinta temporada de ‘The Good Doutor’.
Freddie Highmore e Paife Spara na quinta temporada de ‘The Good Doutor’.Jeff Weddell (ABC via Getty Images)
Celia Fernández Arenas

“Todo muy bien aquí en Vancouver. ¿Tú qué tal?” Freddie Highmore (Londres, 29 anos) atende o telefone, no começo de outubro, falando em perfeito espanhol, no estúdio onde roda a quinta temporada do The Good Doctor, série pela que foi indicado a um Globo de Ouro em 2018 e que, com sua primeira temporada, obteve um enorme sucesso naquele mesmo ano. Grande parte da conversa acaba acontecendo em inglês, embora ele reconheça que dentro de um mês, quando viajar a Madri para a estreia do novo filme de Jaume Balagueró, Assalto ao Banco da Espanha, falará castelhano “o tempo todo”. Highmore, ao mesmo tempo intimista e reservado, foge sem querer dos estereótipos, tanto na tela como na vida real. Filólogo, reside em Vancouver, não tem redes sociais e há algumas semanas se casou em segredo.

O ator chegou à fama aos 13 anos, após protagonizar o garoto Charlie em A Fantástica Fábrica de chocolate. Depois, encadeou vários sucessos infantis, como Arthur e os Minimoys e As crônicas de Spiderwick, mas decidiu se afastar durante um tempo da interpretação para se graduar em Filologia Árabe e Espanhola pela Universidade de Cambridge. Além disso, viveu durante um ano em Madri, fazendo estágio de tradução em um escritório de advocacia. O freio na sua carreira de menino-prodígio teve “diferentes motivos”, segundo Highmore, mas eles poderiam ser resumidos em uma só palavra: curiosidade. Aquele jovem de 18 anos, que apesar de seu fama precoce teve uma infância “normal”, não queria perder a experiência universitária e sentia uma especial fascinação pelos idiomas: “Eu gosto de poder me comunicar com as pessoas e me aprofundar em culturas diferentes da minha. E acredito que a melhor maneira de experimentar isso, seja na literatura ou no cinema, é sem ter que recorrer aos subtítulos ou à tradução”. E como pano de fundo, uma inclinação especial pela cultura ibérica: “Sempre me senti atraído pela Espanha”, acrescenta.

Freddie Highmore no programa de Jimmy Kimmel, em 27 de setembro.
Freddie Highmore no programa de Jimmy Kimmel, em 27 de setembro. Randy Holmes (ABC via Getty Images)

Depois daquela pausa, voltou a atuar. Durante cinco temporadas foi Norman Bates, o assassino de Psicose, de Hitchcock, na série The Bates Motel, e desde 2018 é o rosto de The Good Doctor. E, há um ano, viajou a Madri para rodar Way Down. Recordou então um instante de 2010 quando, rodeado por bandeiras espanholas, telões e milhares de torcedores, comemorou na praça Cibeles a conquista da Copa do Mundo de futebol pela Espanha. Desta vez, saltou de novo gritando gol, mas cercado de câmeras e com o roteiro na mão. “Foi muito engraçado”, lembra. “Fechamos a praça Cibeles e recriamos o evento do qual eu tinha tantas lembranças.”

Filme de ladrões

Balagueró escolhe essa final futebolística como pano de fundo para o argumento de seu filme: o assalto ao Banco da Espanha. Highmore, que encarna Thom, um jovem gênio da Universidade de Cambridge, cerca-se no filme de um elenco de atores europeus, entre os quais Liam Cunningham, Luis Tosar e José Coronado. “Trabalhar com Tosar foi bonito, ver um ator tão fenomenal... Já o admirava, por Cela 211″, diz o londrino.

“Uma das coisas que me atraíram neste projeto foi a oportunidade de participar de um filme que parecia muito claramente europeu”, descreve o ator, que embora, desfrute da natureza de Vancouver, sente falta de Londres, em parte por sua proximidade com o continente. “Adoro que se celebre a identidade europeia e, em particular, a espanhola. Sinto que culturalmente são coisas importantes, com as quais será preciso continuar a se esforçar na hora de contar histórias e fazer filmes. É fácil recorrer ao thriller norte-americano”. Sobre o isolamento de seu país natal depois do Brexit, ele é claro: “Ainda me sinto europeu, e espero que continuem me considerando como tal…”, ri.

Essa sensibilidade em participar de histórias com pano de fundo se materializa também nos personagens aos quais dá vida. Nem Thom nem Bates nem o médico Shaun Murphy, portador da síndrome de Asperger, representam o estereótipo de masculinidade alfa retratado nos filmes e séries atuais. “Shaun é um tipo de homem muito diferente do que estamos acostumados a mostrar como protagonista de uma série de televisão. E talvez não na mesma medida, mas Thom tampouco é um macho alfa. Ele não vai ganhar através da ação, e sim pela da forma como pensa e pela qual é capaz de encontrar uma solução”, aponta. “Acho que eu nunca fui essa pessoa [macho alfa]. E para ser sincero, não acredito que seja a experiência da maioria dos homens, embora na tela tenha sido a versão mais representada da masculinidade.”

Sua ambição é poder interpretar e criar “algo que seja divertido, mas que também fale de coisas importantes”. O ator já produziu, escreveu e dirigiu vários capítulos das séries de que participou nos últimos anos, e gostaria de continuar fazendo isso em seus próprios projetos. “Tinha um desejo natural de querer provar outras coisas em um mundo que conhecia tão bem. Sempre gostei de participar desse processo mais amplo”, explica, e sua incontrolável curiosidade aflora mais uma vez.

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