Alec Baldwin, um ator marcado pelo escândalo

O intérprete norte-americano se reinventou continuamente, mas sua incontinência verbal e suas numerosas brigas profissionais e pessoais tumultuaram sua carreira

Alec Baldwin na cerimônia do Emmy em 2017.
Alec Baldwin na cerimônia do Emmy em 2017.MIKE BLAKE (Reuters)
Los Angeles -

Alec Baldwin (Nova York, 63 anos) utilizou em uma ocasião as palavras de um dos colegas de profissão que mais admira ―“o incrivelmente inteligente e sábio Warren Beatty”― para explicar seus contínuos problemas de imagem. “O que acontece é simples e ocorre muito entre atores. No momento em que ficamos diante de uma câmera, sentimos a necessidade de nos apropriar desse momento e torná-lo nosso. É o instinto, quase inconsciente, de transformar esse instante diante da câmera em algo dramático”, disse Beatty.

Na quinta-feira, durante a filmagem de Rust, o último filme em que Baldwin é protagonista e produtor, o momento não poderia ser mais dramático: foi ele quem apertou o gatilho da arma cenográfica que tirou a vida da diretora de fotografia ucraniana Halyna Hutchins, de 42 anos, e que feriu na mesma rajada o diretor do filme, Joel Souza, de 48 anos. Esse trágico instante deixou o ator calado durante horas até que pelo Twitter expressou o “choque e a tristeza” que sentia, oferecendo seu apoio à família da falecida e afirmando que estava “cooperando plenamente” com a polícia na investigação do acidente. Sumiu de suas contas nas redes sociais uma foto publicada dias antes vestido de cowboy como seu personagem em Rust e todo manchado de sangue.

Com Alec Baldwin o escândalo sempre aparece, graças a ele ou não, se o que se procura é esse dramatismo de que fala Beatty. É o irmão mais velho de uma família de origem irlandesa e católica de classe média formada por seis irmãos, dos quais os quatro homens fazem parte do mundo do cinema, mesmo não podendo ser mais diferentes entre si. Daniel teve problemas com as drogas. Stephen agora faz parte de uma igreja evangélica e suas ideias são enviesadamente conservadoras. O outro, William, definiu seu irmão Alec em um perfil publicado na The New Yorker como “alguém que sempre encontra algo do que reclamar”. Alec é o mais velho, o esperto e o mais disciplinado, mas também quem os protegia contra os abusos de outros garotos, já que era o mais briguento. Entrou na universidade com a ideia de se tornar presidente dos Estados Unidos, mas ao ver as poucas oportunidades de sucesso desse plano mudou e se matriculou no instituto Lee Strasberg, em que demorou anos para se formar.

Alec Baldwin, em uma briga com um fotógrafo nas ruas de Nova York em 2014. FREDDIE BAEZ (CORDON)
Alec Baldwin, em uma briga com um fotógrafo nas ruas de Nova York em 2014. FREDDIE BAEZ (CORDON)freddie baez (cordon)

Sua carreira poderia ter sido como a de Jack Nicholson e Al Pacino, atores a quem admira, mas sua geração não era a mesma. Talvez nem mesmo seu talento e, claro, o mundo do cinema. Baldwin conseguiu ser comparado aos seus ídolos por sua interpretação na Broadway da famosa peça de teatro Um Bonde chamado Desejo, que três anos depois também protagonizou em um filme para a televisão. Não só conseguiu uma indicação ao Tony como seu nome foi comparado (de maneira positiva) com o de Brando. Nessa época interpretou no cinema Jack Ryan, o agente da CIA protagonista de A Caçada ao Outubro Vermelho, ao lado de Sean Connery.

Com o passar do tempo, o nome de Baldwin começou a aparecer mais por sua vida social e seus escândalos do que por suas conquistas profissionais. Seu casamento de Hollywood com a também estrela Kim Basinger, a quem conheceu em 1991 na filmagem de Uma Loira em Minha Vida, acabou pessimamente, da mesma forma que a relação com a única filha do casal, Ireland, a quem dedicou em uma mensagem telefônica de 2007 epítetos nada carinhosos divulgados aos quatro ventos, possivelmente como parte de um amargo divórcio.

Alec Baldwin, após receber o Globo de Ouro de melhor ator de comédia por seu papel na série de televisão '30 Rock'.
Alec Baldwin, após receber o Globo de Ouro de melhor ator de comédia por seu papel na série de televisão '30 Rock'.

Depois vem o outro Alec Baldwin. “Amargurado, na defensiva e mais misantropo do que penso”, como se definiu em um solilóquio publicado na revista Vulture em 2014. Na época já tinha fama de ser violento e egocêntrico, além de homofóbico, como resultado de diversos incidentes ventilados na imprensa. E, claro, boquirroto. Ainda assim, o ator conseguiu retomar sua carreira do modo mais inesperado: rindo de si mesmo.

O papel do ridículo e vaidoso executivo televisivo Jack Donaghy que interpretou na televisão durante sete temporadas (de 2006 a 2013) na série 30 Rock, inspirado no próprio Baldwin, fez com que ele recuperasse a popularidade perdida. Chegou a iniciar em 2011 uma nova etapa pessoal com sua atual esposa, Hilaria Baldwin, com quem tem seis filhos. Mas como já disse um dos melhores amigos do ator, Lorne Michaels produtor do famoso programa noturno Saturday Night Live, onde Baldwin teve um novo sucesso nos últimos anos com suas imitações do presidente Trump ―“tudo iria melhor se ele fosse capaz de aproveitar o que tem”.

Suas brigas, às vezes físicas, muitas vezes verbais, com os paparazzi e qualquer um que na opinião da estrela viole sua intimidade foram frequentes até nas produções nas quais trabalhou. Em 2013, o ator Shia LaBeouf foi despedido da obra teatral Orphans, representada na Broadway, quando Baldwin disse: “Ou ele ou eu”. E anos antes uma atriz abandonou outra montagem teatral com Baldwin após deixar por escrito um comentário em que afirmava que temia por sua segurança “física, mental e artística”.

Alec Baldwin, em uma de suas imitações do ex-presidente Trump no programa ‘Saturday Night Live’. EL PAÍS
Alec Baldwin, em uma de suas imitações do ex-presidente Trump no programa ‘Saturday Night Live’. EL PAÍS EL PAÍS

Cada uma das reinvenções de Baldwin parece inexoravelmente seguida de uma nova queda. Ao lado do ator que afirmou várias vezes seu desejo de abandonar a vida pública está esse outro apaixonado pelas redes sociais, com o impulso de escrever um tuíte para cada ocasião. Muitas dessas intervenções nas redes cobram seu preço, como em 2017 quando junto com o vídeo de um incidente policial em que o suspeito acaba morto por um tiro escreveu: “Como se sente alguém que mata por negligência?”.

Há incógnitas não resolvidas na morte de Halyna Hutchins. A investigação não revelou se a arma foi disparada aleatoriamente ou enquanto Baldwin a apontava, ainda que a transcrição da ligação à polícia pareça indicar que aconteceu durante um ensaio. Mesmo que por enquanto não existam acusações contra o ator, não se sabe se virão mais para frente. A declaração juramentada do assistente do diretor indica que Baldwin recebeu confirmação da equipe de que a arma não estava carregada. São muitos os que se perguntam se a filmagem de Rust será concluída. E o mesmo sobre o próprio ator: será capaz de se reerguer após esse novo momento dramático?

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