Rolling Stones deixam de tocar ‘Brown Sugar’ por suas referências à escravidão

Keith Richards diz que “estão tentando enterrar” a música, enquanto Mick Jagger defende a decisão de retirá-la do repertório dos shows

Da esquerda para a direita: Mick Jagger, Keith Richards e Ron Wood, dos Rolling Stones,no Hollywood Burbank Airport de Burbank, Califórnia, Estados Unidos, em 11 de outubro.
Da esquerda para a direita: Mick Jagger, Keith Richards e Ron Wood, dos Rolling Stones,no Hollywood Burbank Airport de Burbank, Califórnia, Estados Unidos, em 11 de outubro.Chris Pizzello (GTRES)

Cada dia é mais difícil reconhecer os Rolling Stones. Depois da recente ausência pela morte de Charlie Watts, célebre baterista da banda e um de seus membros originais, agora o politicamente correto chega ao ponto de retirar de sua lista de músicas Brown Sugar, uma das composições mais famosas do grupo, emblema do som e da irreverência da formação de rock mais importante do planeta.

A notícia veio à tona por meio de uma entrevista com os integrantesdos Stones publicada pelo jornal Los Angeles Times. Quando lhes perguntaram por que deixaram de tocar Brown Sugar no repertório da atual turnê pelos Estados Unidos, Keith Richards não pôde evitar a resposta. “Vocês não perceberam que essa música fala dos horrores da escravidão? Estão tentando enterrá-la. Por enquanto, não quero ter problemas com toda essa merda, mas espero que possamos ressuscitar essa beleza em toda a sua glória nesta turnê”, disse o guitarrista, que não se mostrou muito de acordo com a decisão. Logo depois, Mick Jagger, sempre mais correto e com uma visão empresarial sobre o grupo acima da brejeira e despreocupada de Richards, afirmou: “Tocamos ‘Brown Sugar’ em todos os nossos shows desde 1970, e às vezes dizemos: ‘Vamos retirar [essa canção] e ver que acontece’. A lista de músicas para uma turnê em estádios é complicada.’”

A lista é complicada, mas também parece complicado justificar por que se retira uma das músicas mais reconhecidas do grupo, peça fixa em seus espetáculos durante décadas desde que estreou, em 1969, no desastroso show gratuito de Altmont. Os Stones tiveram que fugir do deserto californiano de helicóptero ante os distúrbios ocasionados pelos Hell’s Angels, contratados pela banda como seguranças e que mataram um jovem negro a punhaladas. Foram as palavras de Keith Richards que deixaram entrever que o grupo não quer problemas com a cultura do cancelamento em sua atual turnê No Filter, um espetáculo itinerante pelos EUA que foi lançado em 2017, mas precisou ser suspenso devido à pandemia. Foi retomado no mês passado para oferecer os últimos 13 shows.

Brown Sugar sempre foi também uma das músicas mais polêmicas dos Stones. Sua letra reúne uma miscelânea de imagens polêmicas ao se referir à escravidão, ao estupro, ao machismo, à violência e às drogas. De fato, a letra alude de forma direta à tortura e à exploração sexual à qual foram submetidas as mulheres afro-americanas nas plantações de algodão. “Barcos negreiros na costa de ouro com destino aos campos de algodão/Vendidos no mercado na cidade de Nova Orleans/Velhos traficantes de escravos com cicatrizes sabem que estão fazendo isso bem/Ouça-os açoitando as mulheres ao redor da meia-noite”.

O próprio Jagger, que em certas ocasiões mudou a letra nos shows, chegou a renegá-la em entrevistas, como a que concedeu em dezembro de 1995 à revista Rolling Stone. “Só Deus sabe do que estou falando nessa música! É uma confusão com todas as coisas desagradáveis ao mesmo tempo... Não pensei naquele momento. Nunca voltaria a escrevê-la… Porque provavelmente eu mesmo me censuraria. Pensaria: Oh Deus, não posso. Tenho que parar. Não posso escrever coisas tão bisonhas como essa.” Jagger já censurou o título da composição, que faz referência a um cunnilingus e que inicialmente se chamava Black Pussy.

Assim como suas distintas interpretações, há também discrepâncias sobre como a música foi composta. Jagger, que poderia ter se inspirado numa de suas namoradas da época, a cantora negra Marsha Hunt, sempre disse que a letra foi escrita durante sua temporada na Austrália, quando rodava o filme Ned Kelly, no qual o cantor interpretou um dos bandoleiros e criminosos mais conhecidos do século XIX. Porém, tanto Keith Richards como Jim Dickinson, que fez parte da gravação tocando piano, dizem que a letra foi feita no mesmo dia da gravação nos estúdios Muscle Shoals no Alabama. O certo é que, na época, as drogas dominavam a existência dos Stones, que costumavam compor e gravar consumindo cocaína e heroína. Inclusive chegou-se a afirmar que a letra faz referência à heroína.

Sem Brown Sugar, tocada em quase 1.300 shows, nem Charlie Watts, rosto essencial da banda substituído por Steve Jordan, os músicos britânicos se afastam um pouco de si mesmos. Não só isso: Paul McCartney afirmou em outra entrevista recente na Rolling Stone que o grupo liderado por Jagger e Richards é “uma banda de versões de blues”. “Não tenho certeza de que deva dizer isso, mas é uma banda de versões de blues, isso é o que são os Stones”, disse o ex-cantor e baixista dos Beatles – grupo que, segundo McCartney, tinha “uma rede de influências mais ampla” que a dos Stones.

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