Stones no Brasil

Os Rolling Stones e as histórias por trás de cinco músicas famosas

As canções inspiradas no Brasil e a faixa com vocais de Lennon e McCartney são algumas surpresas

A banda britânica The Rolling Stones se apresenta no programa ‘Thank Your Lucky Stars’, do Reino Unido, em 1965.
A banda britânica The Rolling Stones se apresenta no programa ‘Thank Your Lucky Stars’, do Reino Unido, em 1965.David Farrell (Redferns)

Os Rolling Stones inauguram neste sábado a série de shows pelo Brasil, com uma apresentação no Maracanã. Depois, seguem para São Paulo (shows nos dias 24 e 27) e Porto Alegre (dia 2 de março). Para aquecer, contamos curiosidades sobre algumas das músicas mais famosas da banda.

(I Can’t get no) Satisfaction

1965 foi um ano crucial na história da música. Foi neste ano que os Beatles tocaram pela primeira vez em um estádio, o Shea Stadium, em Nova York, inaugurando uma nova era das apresentações – agora para multidões. Foi também em 1965 que seus conterrâneos Rolling Stones forjaram seu primeiro sucesso internacional: (I Can’t get no) Satisfaction – também parido pelo choque cultural entre Inglaterra e Estados Unidos. Os Stones estavam no meio de uma turnê em solo americano e um dia, após um show na Flórida, Keith Richards acordou com um riff e com um verso na cabeça: I can’t get no satisfaction. De início, ele chegou até a desprezar o riff, pois era muito parecido com Dancing in the streets, do grupo Martha and the Vandellas (a propósito, anos depois, David Bowie e Mick Jagger gravaram a música). Mick Jagger compôs o restante da letra em 10 minutos, cheia de referências (nem tão) veladas à sexualidade e críticas ao consumismo visto nos Estados Unidos.

We love you

As duas maiores bandas da história são conterrâneas e contemporâneas. Mas isso não quer dizer que elas tenham sido rivais – pelo menos não como o imaginário coletivo faz parecer. Os Beatles e os Rolling Stones não só não eram competidores como também colaboravam entre si. Prova é que, apesar de não creditados, na canção We Love You, John Lennon e Paul McCartney fazem os backing vocals. O poeta Allen Ginsberg estava presente na gravação.

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Honky Tonk Women

A letra evoca um saloon no Tennessee, mas foi em Matão, no interior de São Paulo, que ela nasceu. No final de 1968, Jagger e Richards vieram ao Brasil com suas respectivas famílias para assistir à queima de fogos em Copacabana. Para fugir do assédio da imprensa, refugiaram-se na Fazenda Boa Vista, a convite do banqueiro Walther Moreira Salles. As aventuras dos dois no lugar (que inclui uma festa junina para a criançada da fazenda em pleno dezembro) são narradas no livro Sexo, Drogas e Rolling Stones e no documentário Aliens 69: Quando os Rolling Stones invadiram Matão. Foi lá, entre pés de manga, passeios a cavalo e o ritmo da música caipira, que a dupla escreveu a letra de Honky Tonk Women, sobre uma garçonete bar.

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Sympathy for the Devil

A relação dos Stones com o Brasil começou um pouco antes do episódio contado acima, da viagem a Matão. Eles já tinham vindo ao Brasil no início de 1968 e nessa época conheceram a Bahia. Se até para um brasileiro a primeira visita a um terreiro de umbanda é impactante, imagine para esse grupo de ingleses. Fascinados pelo som dos tambores dos rituais de candomblé que conheceram no Brasil, os Stones incluíram as percussões que fazem a introdução inesquecível de Sympathy for the Devil. A ideia da letra, composta por Mick Jagger, surgiu das leituras do poeta francês Charles Baudelaire e do escritor russo Mikhail Bulganov e traz referências a eventos históricos como as mortes na família Kennedy, a Revolução Russa e a Segunda Guerra Mundial. Não é preciso dizer que os Stones foram acusados de satanismo por causa dessa faixa.

Gimme Shelter

Difícil imaginar essa música, gravada em 1969, sem o arrepiante backing vocal. A dona da desconcertante voz que, literalmente, grita Rape, Murder. It’s just a shot away (Estupro, assassinato. Está a um tiro de distância) é a cantora Merry Clayton. No documentário A um passo do estrelato, vencedor do Oscar na categoria em 2014, Clayton conta que foi acordada tarde da noite em sua casa para, às pressas, gravar a faixa com os Stones, que tiveram a ideia de inserir um vocal feminino na música.

Ainda de pijamas e rolos no cabelo, ela arrastou seu barrigão (estava grávida de oito meses) para realizar o desejo do grupo. Se ainda hoje a entrega total na interpretação de Merry Clayton impressiona, imagine naquela noite, naquele estúdio. Os Stones ficaram chocados, e as reações de espanto podem ser ouvidas na faixa com o vocal isolado da cantora. Na volta para a casa depois da sessão, Clayton sofreu um aborto espontâneo provocado pelo esforço para atingir as notas.

Gimme Shelter já foi considerada a melhor música dos Stones pelas revistas Uncut e Rolling Stone. Certamente, o cineasta Martin Scorsese concorda: a canção aparece na trilha de três filmes seus - Os Bons Companheiros, Cassino e Os Infiltrados.

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