Linda Evangelista revela depressão profunda após tratamento cosmético, motivo de seu sumiço

A famosa modelo dos anos 90 conta que desenvolveu uma doença causada por uma lipoescultura, se afastou da profissão e por isso viveu os últimos cinco anos “como uma eremita”

Linda Evangelista, em sua última aparição pública, em uma cerimônia de entrega de prêmios em Nova York em junho de 2015.
Linda Evangelista, em sua última aparição pública, em uma cerimônia de entrega de prêmios em Nova York em junho de 2015.Andy Kropa (GTRES)

Já faz sete anos que Linda Evangelista não anda no tapete vermelho. Seus últimos retratos posando são de uma festa de perfumes em Nova York, em junho de 2015. Depois disso, os paparazzi a caçaram em apenas uma ocasião: em setembro de 2017, também em Nova York. E não há nada mais: nem cerimônias de galas ou festas, nem mesmo casamentos ou funerais. E isso chama a atenção, já que a modelo de 56 anos foi, nos anos 90, uma das maiores expoentes do conceito de top model ao lado de Cindy Crawford, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Christy Turlington e Elle McPherson. Com a diferença de que todas essas mulheres de sua geração continuam trabalhando até hoje e com grande exposição na mídia. Evangelista desfilou para os maiores do ramo, posou para os melhores fotógrafos e estrelou capas de centenas de revistas de moda. No entanto, há alguns anos, ela sumiu.

Sumiu até agora. A canadense contou abertamente em um longo texto em seu perfil do Instagram, a seus mais de 900.000 seguidores, que um problema com um tratamento estético a afastou da vida pública. Segundo contou, o procedimento a deixou “completamente deformada” e, também, de acordo com sua versão, incapacitada para continuar a exercer sua profissão. “Hoje estou dando um grande passo para corrigir um dano que sofri e que guardei comigo durante cinco anos”, escreve Evangelista em sua carta. “Para todos os meus seguidores, que se perguntam por que eu não trabalhei enquanto as carreiras das minhas colegas estavam em alta, a razão é que fui brutalmente desfigurada pelo procedimento CoolSculpting de Zeltiq, que fez o oposto do prometido. Aumentou, não diminuiu, minhas células de gordura e me deformou permanentemente, mesmo depois de passar por duas cirurgias corretivas muito dolorosas e sem sucesso. Deixaram meu corpo, como a imprensa descreveu, “irreconhecível”, garante a modelo, referindo-se a um tratamento muito utilizado em muitos centros de estética onde se costuma extrair gordura de forma similar à lipoaspiração, mas sem uma cirurgia invasiva.

O procedimento faz uso da criolipólise, ou seja, utiliza temperaturas abaixo de zero e as aplica nas células de gordura para eliminá-las, tanto no corpo como em áreas do rosto como o pescoço. É preciso fazer várias sessões e seus efeitos costumam ser notados em algumas semanas, segundo a dra. Paula Rosso, especialista em Medicina Estética do Centro Médico Lajo Plaza, em Madri. “É um tratamento caro, o preço da sessão pode ultrapassar os mil euros [6.200 reais] e são necessárias várias delas. O preço de uma dessas máquinas pode ultrapassar a casa dos 100.000 euros.”

A modelo afirma que o procedimento a deixou doente. “Desenvolvi hiperplasia adiposa paradoxal, ou PAH [na sigla em inglês], um risco sobre o qual não fui avisada antes de me submeterem ao procedimento”, diz. Essa doença pode se desenvolver após a criolipólise. De fato, em 2018 o jornal oficial da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos alertava que essa poderia ser uma complicação “rara” após o tratamento, e que, nesse caso, haveria “uma massa indolor, mais alargada, firme e bem definida”. Embora o fabricante estimasse que essa hiperplasia ocorreria apenas em 1 a cada 4.000 tratamentos, segundo os cirurgiões norte-americanos ela aparece em 0,72% dos casos, em aproximadamente 1 em 138 sessões. Na época se afirmava que a doença poderia ser tratada com lipoaspiração ou, possivelmente, com uma abdominoplastia meses após o tratamento. Mas, ao que parece, com Evangelista não funcionou.

“O PAH não só destruiu meu modo de ganhar a vida, mas me fez cair em uma profunda depressão, profunda tristeza e nas profundezas do autodesprezo”, afirmou Evangelista. “Nesse processo, eu me tornei uma eremita. Com este texto, dou um passo à frente para me libertar da vergonha e tornar pública minha história. Estou muito cansada de viver assim. Adoraria sair pela porta com a cabeça erguida, mesmo que eu não me pareça mais comigo mesma.”

A médica Mar Mira, codiretora da clínica Mira+Cueto, de Madri, explica que esta técnica “requer uma resposta individual do paciente, visto que não é um ato cirúrgico de lipoaspiração que remova claramente as células adiposas. Portanto, nem todo mundo tem os mesmos resultados, nem os mesmos na mesma área”, e ainda observa que “a técnica de aplicação é muito importante, assim como o mapeamento das áreas a serem tratadas”, e dessa forma, tudo isso “impacta em um bom ou mau resultado”. “Tudo isso é um coquetel de variáveis que, se não for bem controlado, pode levar a um resultado ruim”, afirma.

Para a dra. Rosso, esse é um procedimento que —embora ela não use, entre outras coisas por seu alto preço e “porque não se consegue um resultado tão fantástico”— “proporciona muita tranquilidade porque tem a aprovação do FDA”, a agência de medicamentos dos EUA. “O caso de Evangelista seria uma das exceções, um dos casos raros. Em vez de tratá-lo com a mesma tecnologia, resolve-se com a lipoaspiração, mas provavelmente não foi uma boa solução no caso dela. É preciso ver como eles a trataram de novo; os tempos em questão não estão detalhados e, para essa cirurgia, é preciso esperar pelo menos quatro ou seis meses.”

A médica reconhece que as informações sobre o problema estético da modelo já apareciam desde a primeira hora em vários grupos de médicos do setor, e acredita que afetará de forma muito negativa o poderoso laboratório Allergan (que comprou o ramo de estética da Zeltiq), seu fabricante, tanto nas vendas como na imagem diante da opinião pública. Ela não descarta a possibilidade de um julgamento ou um acordo extrajudicial que favoreça Evangelista. “Depois da cirurgia, ela teve uma deformidade permanente; dessa forma, pode processar e ganhar tranquilamente”, afirma. Além disso, a médica diz que esse tratamento costuma ser realizado principalmente em mulheres entre 30 e 50 anos que buscam retirar alguma gordura localizada, e que esse tende a ser um grupo que vem para a consulta bem informado. Então, neste caso, pode fazê-las recuar na hora de pagar uma quantia elevada por tal terapia. O EL PAÍS entrou em contato com a Allergan, mas não obteve resposta até agora.

O panorama da indústria da moda hoje seria irreconhecível no cenário da década de 1990, época em que Linda Evangelista triunfou. Os avanços sociais têm possibilitado encontrar muitos profissionais de idades avançadas, gênero não-binário e modelitos diversos. É o caso de grandes nomes do setor como Paloma Elsesser ou Precious Lee, modelos orgulhosas do seu peso e com presença relevante e sólida reputação no setor. Nesse sentido, na última temporada completa em que as modelos desfilaram sem restrições por causa da pandemia (outono-inverno 2020/21), 16 delas foram rotuladas como “plus size” e desfilaram para 19 empresas, de acordo com a plataforma de análise de dados Tag-Walk. Mulheres que antes eram praticamente banidas das imagens de grifes de luxo e agora fazem parte desse universo e nada as impede de trabalhar nele.

Em 2017, as gigantes do luxo LVMH e Kering assinaram um acordo para aliviar o problema endêmico da indústria com relação às draconianas imposições de peso às modelos. Entre outras coisas, este acordo estabelecia que todas as empresas pertencentes a estas duas holdings se comprometeriam “a trabalhar apenas com modelos que apresentem atestados médicos válidos, fornecidos pelas agências e obtidos em menos de seis meses antes da sessão fotográfica do desfile”, e também que iriam proibir “tamanho 32 para mulheres e 42 para homens”.

Modelos com corpos completamente normativos (e magros) como Karlie Kloss, Cara Delevingne e Gigi Hadid ouviram há apenas uma década que eram gordas demais para participar de determinados desfiles.

A declaração da modelo em sua conta no Instagram na quinta-feira (23) a fez ganhar o carinho de amigos e conhecidos, e de muitos colegas de profissão. Sua amiga e colega Christy Turlington disse: “Nós te amamos muito”. Carolyn Murphy afirmou: “Você é um ícone enorme, uma beleza eterna de dentro para fora. Estamos todos aqui para te apoiar e te amar”. “Doce Linda”, escreveu Karen Elson, “eu te amo, você é corajosa e maravilhosa”. Naomi Campbell a animou: “Te aplaudo por sua bravura e sua força. Por compartilhar sua experiência e não continuar como refém. Saiba que te amo. Te amamos e estamos aqui para te ajudar, sempre ao seu lado. Não consigo imaginar a dor mental que você teve que passar nesses cinco anos. Você já está livre. Lembre-se de quem você é, do que conquistou e de sua influência na vida de todas as pessoas que você tocou, algo que você continua a fazer ao compartilhar sua história. Tenho orgulho de você e te apoio em cada passo que dá “.

Nestes anos, Evangelista sumiu do mundo da moda e até da crônica social. Suas últimas informações datam de 2012, quando conseguiu fazer com que o empresário François Henri Pinault, marido de Salma Hayek, pagasse a pensão do filho do casal. Mas, nos últimos anos, não houve imagens nem informações. Só foi notícia de ‘não-notícia’, pois não apareceu na homenagem de Donatella Versace às grandes top models (com Carla Bruni, Claudia Shiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen) em setembro de 2017. Na verdade, nem ela mesma posta fotos em suas redes sociais. Seus últimos retratos, pouco frequentes, são do verão de 2019.

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