Arquitetura

Morre Paulo Mendes da Rocha, o arquiteto que amparou a imprevisibilidade da vida

“Não nascemos para morrer, nascemos para continuar”, disse o Prêmio Pritzker de 2006 em entrevista concedida ao EL PAÍS em 2018. Ele tratava um câncer no pulmão e faleceu neste domingo, aos 92 anos

Paulo Mendes da Rocha, em seu escritório em São Paulo, em 2015.
Paulo Mendes da Rocha, em seu escritório em São Paulo, em 2015.Victor Moriyama

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Qual é o objeto, o objetivo da arquitetura? Eu poderia dizer: ‘amparar a imprevisibilidade da vida’. Há quem pense que o arquiteto faz, no sentido dos aspectos funcionais da questão, algo para que as pessoas se comportem de determinado modo. Não. (...) A arquitetura ampara a imprevisibilidade da vida”, dizia um inquieto Paulo Mendes da Rocha ao EL PAÍS em uma de suas raras entrevistas, concedida em novembro de 2018. Uma visita à conversa com o repórter Tom C. Avendaño se torna obrigatória neste domingo, quando a família daquele que é considerado o último gigante da arquitetura brasileira confirmou sua morte, aos 92 anos. Ele estava internado em São Paulo para se tratar de um câncer no pulmão.

Para se ter uma ideia da ordem de grandeza de Rocha, ele foi apenas o segundo brasileiro a receber o Prêmio Pritzker, apelidado de Nobel da Arquitetura, em 2006 ―o primeiro foi Oscar Niemeyer, o maior expoente internacional da arquitetura brasilelra, em 1988. Responsável por construções como o Museu Brasileiro da Escultura e pela reforma da Pinacoteca de São Paulo, teve sua obra descoberta no exterior tardiamente, quando já superara os 67 anos. Além do Pritzker, Rocha recebeu o Prêmio Mies van der Rohe para a América Latina pelo projeto de reforma da Pinacoteca, o Leão de Ouro de Veneza, o Prêmio Imperial do Japão e a medalha de ouro do Royal Institute of British Architects (Riba).

Rocha assina o Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, e o Estádio Serra Dourada, em Goiânia, mas tem sua obra concentrada principalmente em São Paulo. São dele o projeto do Ginásio do Clube Atlético Paulistano, o Museu de Arte de Campinas, a reforma da Estação da Luz e o Museu da Língua Portuguesa, vítima de um incêndio em 2015. Em outra entrevista concedida ao EL PAÍS, em 2015, exibia seu interesse na metrópole paulista. “São Paulo deveria ter 250 quilômetros de metrô e tem 50, 60, até hoje. Ontem mesmo os jornais publicaram que São Paulo está vendendo 500 automóveis por dia. Faz muito tempo que isso acontece. Se você imaginar quanto custa ou gasta de água um automóvel por dia, você vê que há muito tempo o consumo de água está crescendo em São Paulo. E não se fez nenhuma obra”.

A capela de São Pedro (1987), em Campos de Jordão.
A capela de São Pedro (1987), em Campos de Jordão.Ruy Teixeira

Rocha pertenceu a uma geração de modernistas, influenciados por nomes como os franceses Le Corbusier e Lucio Costa, o russo Gregori Warchavchik e os brasileiros Niemeyer e João Batista Vilanova Artigas. “Paulo Mendes contribuiu profundamente para a formação da cultura arquitetônica e urbanística brasileira e mundial”, resumiu o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em nota de pesar divulgada neste domingo. “O IAB se solidariza com familiares, amigos e colegas e agradece imensamente por toda sua história, contribuições e legado: obrigado, Paulo”, diz a mensagem.

Filho de um engenheiro, nasceu em Vitória, no Espírito Santo, em 1928, mas sua família se mudou logo no ano seguinte para o Rio de Janeiro, seis anos antes de partir para São Paulo, onde se formaria arquiteto e consolidaria sua carreira. Se tornou diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e, junto com vários colegas, acabou proibido de trabalhar pelo regime militar, em 1969. Retomaria as aulas apenas em 1980, com a anistia, e lecionaria até 1998, quando se aposentou compulsoriamente, aos 70 anos.

No fim da vida, Rocha despertou polêmica no país ao enviar para Portugal seu acervo completo. “Em um país que passou pelo drama recente do incêndio do edifício e coleções do Museu Nacional, dos cortes nos financiamentos em projetos de cultura e educação, a questão levantou uma discussão sobre a urgência de meios para garantir melhores condições para nossos acervos”, escreveram à época Fernando Túlio e Sabrina Fontenele, em artigo publicado por este jornal.

Questionado sobre a perspectiva da morte em 2018, o arquiteto citou Hannah Arendt. Sinto muita curiosidade. Nós sabemos, né? Gosto muito de um dito que, se não me engano, é da Hannah Arendt, ou ela citou: nós todos sabemos que vamos morrer, entretanto sabemos que não nascemos para morrer, nascemos para continuar.”

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