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Mendes da Rocha: “A cidade é feita mais de homens do que de construções”

Fugir do supérfluo sempre foi a máxima de Paulo Mendes da Rocha E não só na arquitetura.

Aos 90 anos, o Pritzker brasileiro recebe EL PAÍS para contar como chegou à essência de tudo

Um dos cômodos da casa que Mendes dá Rocha construiu para ele mesmo e sua família em 1964, no Butantã (São Paulo), e onde viveu mais de 30 anos.
Um dos cômodos da casa que Mendes dá Rocha construiu para ele mesmo e sua família em 1964, no Butantã (São Paulo), e onde viveu mais de 30 anos.

Paulo Mendes da Rocha completou recentemente 90 anos, e o seu primeiro trabalho acaba de chegar aos 60 anos. Era o Ginásio do Club Athletico Paulistano. Em 1958 nunca se tinha visto nada igual. Esse filho de um engenheiro, cujo pai projetou sistemas hidráulicos, assinou o que parecia uma série de formas nuas, um disco voador cheio de chapas de cimento e estruturas triangulares, que sublinhava em vez de esconder os elementos funcionais. Naquela época, a arquitetura brasileira vivia um boom experimental e, assim, iniciou um de seus capítulos mais rentáveis. Mendes da Rocha não parou de projetar; extraterrestre para alguns, poesia concreta para outros, material inteligente para todos.

Em tempos de a forma segue a função, ele buscou "uma visão poética sobre a forma que superasse a necessidade estrita", uma forma "que não quer ser funcional, mas oportuna". E ele acabou encontrando. Em 1986, ele revelou sua obra-prima, o Museu Brasileiro da Escultura, dois morteiros de concreto muito finos em um buraco no chão. Desde então, ele assinou dezenas de projetos e ganhou, em 2006, o Pritzker. Mas em um dia ensolarado em seu escritório, durante uma entrevista que ele não concede com tanta frequência, ele seguirá retornando com um tom de sábio protesto contra essas ideias. As toupeiras, o buraco no chão e o dia em que tudo fez sentido.

Pergunta. O Brasil é famoso pelas obras modernistas e...

Resposta. O Brasil foi descoberto em 1500. Está condenado a ser moderno.

P. Puxa. O senhor é otimista?

Um dos espaços do Sesc 24 de Maio, finalizado em 2017 em São Paulo e realizado pelo arquiteto brasileiro em colaboração com o estúdio MMBB.
Um dos espaços do Sesc 24 de Maio, finalizado em 2017 em São Paulo e realizado pelo arquiteto brasileiro em colaboração com o estúdio MMBB.

R. É impossível saber.

P. Como assim?

R. Eu não posso saber se sou otimista ou pessimista. Se você enfrenta os fatos como eles se sucedem, você não pode saber antes como vai se comportar.

P. Mas os fatos...

Vista do interior da capela de São Pedro, que conta com uma só coluna em sua estrutura e fachadas de vidro de dupla altura.
Vista do interior da capela de São Pedro, que conta com uma só coluna em sua estrutura e fachadas de vidro de dupla altura.

R. Acontece isto: para mim está cada vez mais difícil enfrentar o que estamos fazendo, a entrevista. Porque o tempo passou e eu me acostumei a pensar e pensar nas coisas. Então não consigo saber se eu consigo responder mais espontaneamente ou se eu fico inventando tudo. [Fecha os olhos e se concentra, como se estivesse fazendo uma divisão de decimais]. Pelo que eu sei do ponto de vista do senso comum, o que eles imaginam que seja o otimismo, eu seria [Abre os olhos] Olha. Não posso. Você não pode ser antes nada. Você não vê um jogador de futebol quando marca um gol? Como eles correm e comemoram etc? Ele não esperava tanto. Ele fez o possível e teve sucesso. A força que você faz para conseguir um gol não é otimismo, é trabalho, dedicação, convocação de uma pressuposta competência para fazer aquilo. Aquele camarada comemora o gol, mas só depois de marcá-lo. Você não pode ser nada a não ser depois do fato consumado.

P. Então você...

A capela de São Pedro (1987), em Campos de Jordão.
A capela de São Pedro (1987), em Campos de Jordão.

R. Você não perguntou, mas eu vou adiantar. Eu não sou arquiteto. O máximo que eu posso dizer que sou é que sou ente humano do sexo masculino. Nunca posso dizer que eu sou arquiteto. Eu me tornei, estudei, e amanhã a gente vê. Um curso de arquitetura dura cinco anos. Depois você pratica essa profissão por mais cinco anos para adquirir experiência. Ou seja,m são necessários 10 anos. Eu tenho 90 anos e agora me chamam de arquiteto. Se eu resolver estudar Medicina ou Direito, vamos dizer, seriam mais cinco anos, teria 95, e se exercesse durante cinco anos, chegaria aos cem… Minha mãe por exemplo morreu com 105… Então amanhã você chegará para mim e dirá que eu sou arquiteto. E eu direi que não, que eu sou advogado. Ou não, porque não sou nada. Não se é nada nunca, as pessoas seguem vivendo. Vão se tornando em cada instante. Nesse momento eu estou sendo entrevistado, mas você não pode dizer que eu sou um entrevistado.

P. Olha, não sei o que dizer...

R. Claro que isso é uma brincadeira! Mas não é mais interessante que imaginar que isso é isso, aquilo é aquilo…? É a graça da arquitetura. Você não pode dogmatizar e falar: eu sou pós-moderno, eu sou brutalista. Não se vai a lugar nenhum assim. As pessoas vão olhar para você e falar: “lá vem ele outra vez”.

P. Agora, o brutalismo tem muito estilo.

Em seu espaço de trabalho pode ser vista a cadeira de couro em que Mendes da Rocha desenhou em 1957 e que hoje é um clássico contemporâneo.
Em seu espaço de trabalho pode ser vista a cadeira de couro em que Mendes da Rocha desenhou em 1957 e que hoje é um clássico contemporâneo.

R. Se você for perguntar para esses eruditos o que é o brutalismo, a maioria deles não sabe o que é. Vão te dizer que é uma arquitetura sem revestimentos. Mas uma catedral feita com pedras também é brutalismo. Um templo grego de antes de Cristo feito de mármore sem nenhum revestimento seria brutalismo. Ou brutalismo vem da ideia de apenas o essencial? Sem nada de supérfluo? O piso que fiz do Museu Brasileiro da Escultura [sua obra prima, de 1986, em São Paulo] é de uma grande delicadeza, no entanto parece um grande piso de concreto armado. Se alguém faz uma coisa e diz que pertence à escola do brutalismo, está errado. Já está errado. Não existe o estilo na arquitetura, as coisas são assim porque são assim. Brutalismo não é nada, só para mal entendedor. Arquitetura não é o que se supõe falar sobre ela.

P. Os críticos de arquitetura são bons entendedores?

R. Tenho uma visão um tanto crítica da maioria deles. Deixamos falar porque às vezes descobrem coisas que você não tinha reparado. Mas justamente essas coisas, por serem intrigantes e argutas, não caracterizam dogmas. A arquitetura é uma forma peculiar do conhecimento. Peculiar ao gênero humano. Nasceu com nós. Não precisa voltar a uma situação de pré-existência.

P. Sinto muito por esta pergunta, mas o que você chama de arquitetura?

Paulo Mendes da Rocha, fotografado para El PAÍS em seu estudo de São Paulo.
Paulo Mendes da Rocha, fotografado para El PAÍS em seu estudo de São Paulo.

R. Ah, agora falamos a sério. Bom, qual é o objeto, o objetivo da arquitetura? Eu poderia dizer: “amparar a imprevisibilidade da vida”. Há quem pense que o arquiteto faz, no sentido dos aspectos funcionais da questão, algo para que as pessoas se comportem de determinado modo. Não. A arquitetura apenas para entendidos é sempre um desastre. Tem que ser entendida por qualquer um. Quando se faz uma casa para esse infame mercado, não se está fazendo uma casa para ninguém. O músico terá um piano, o criador de passarinho terá 10 gaiolas, e depois de alguns anos vão vender para outra pessoa. A casa se transforma. No fundo, a arquitetura somos nós, e uma cidade é feita mais dos comportamentos dos homens do que das construções. A arquitetura ampara essa imprevisibilidade da vida.

P. Os precedentes permitem lutar contra essa imprevisibilidade?

R. Por mais que se faça teatro de acordo com as regras usuais, a expectativa que temos é de que Shakespeare vai escrever algo novo. O humano pode sempre inovar, sempre se pode surpreender. O processo histórico que parece estabelecer cânones, regras, mas não, apenas te ampara para que você possa atuar como te pareça oportuno, e fazer coisas aparentemente pela primeira vez. Também é difícil dizer qualquer coisa exatamente pela primeira vez, mas é uma pequena luz para algo que já estava aí escondido esperando para que alguém dissesse.

P. Entendo.

R. Eu não entendi nada. Mas, como naquele programa de televisão, quando o entrevistador muito metido quis fazer uma pergunta muito intrigante a uma figura importante de quem agora esqueço o nome: e a morte, você já pensou isso? Ele responde: eu tenho uma grande curiosidade.

P. E você pensa na morte?

R. Sinto muita curiosidade. Nós sabemos, né? Gosto muito de um dito que, se não me engano, é da Hannah Arendt, ou ela citou: nós todos sabemos que vamos morrer, entretanto sabemos que não nascemos para morrer, nascemos para continuar.

P. É esquisito ver o seu legado nas mãos de outra geração?

R. Ah, você acha que já vivi demais. Não, eu entendo muito bem sua pergunta. Que minha vida serviu de certa lição. É a essência de nossa existência, passar o que sabemos para os outros. Me incomoda bastante o fato de o meu trabalho despertar qualquer interesse, ainda que seja um interesse histórico de caráter intrigante. Mas é algo que as pessoas param e pensam: o que será que ele está querendo dizer?

P. Você está supervalorizado?

R. Não.

P. Qual é o lado positivo de tanta atenção?

R. Nesse modo de apreciação do meu trabalho aparecem para mim mesmo muitas novidades no meu trabalho que eu mesmo não tinha percebido.

P. Por exemplo?

R. São coisas extremamente sutis. O Museu Brasileiro da Escultura é subterrâneo, entre uma geomorfologia toda tumultuada. Mas esse terreno permite exposições ao ar livre. Então eu adotei uma solução que é a essência do projeto. No chão daquela parte que está subterrânea, fiz essa parte horizontal perfeita. Horizontal como uma questão séria de arquitetura, no sentido de convocar a técnica para realizar isso. Mas, olha, a única maneira de você escoar as águas pluviais de uma cobertura perfeitamente horizontal de 4.000 km2 é esta. Não fazer horizontal na parte impermeabilizada e criar um piso falso. Este piso é sim absolutamente horizontal, entretanto capaz de escoar as aguas.

P. Isso já é um detalhe.

R. Bem, o museu é inaugurado. Aparecem artista, intervenção, exposição… Surge uma artista, mulher, jovem, maravilhosa, Laura Vinci, que faz o seguinte: usa o espaço vazio embaixo do plano horizontal, que é aberto em frestas para a água passar, com um sistema escondido que produz vapor de água, e aquilo sai do chão como se fosse neblina. Não é uma maravilha? Uma neblina maravilhosa. Um fenômeno. Olha, outro dito do objeto da arquiteto: exibir o êxito da técnica. Uma cúpula medieval, uma igreja, uma catedral feita com pedras, antes do cimento, só pela simetria com que você corta as pedras, o arco romano… exibição do êxito da técnica. Não é uma bela ideia?

P. Gosta de ideias tanto quanto de construções?

R. É a sentença do homem, o dilema: ideias e coisas. Se eu tivesse uma ideia que não soubesse transformar em coisa, você jamais saberia qual é a ideia. A transformação de ideia em coisa é arquitetura. Mesmo que a coisa seja um carretel, mesmo que a coisa seja uma alavanca. A linguagem comum popular usa a expressão, que seja metáfora, mas é uma bela metáfora: O que você anda arquitetando aí? Se eu te disser a letra A você vai dizer: esse som não é nada. Mas se estiver escrito aqui com papel e tinta, seria coisa. Porém estamos condenados a transformas ideias em coisas.

P. O que também, suponho, será verdade para as ferramentas que transformam coisas. Elas também se transformam. Este escritório por exemplo.

R. O escritório é de Rino Levi [líder da revolução modernista em São Paulo]. O que você está vendo não é fruto de um projeto pré-existente. Pouco a pouco vai se tornando. O que eu fiz ai ao chegar, há 25 anos, foi tirar a parede, porque eu gosto de um salão único para trabalhar todo mundo junto. Então o escritório se transformou, está sempre se tornando. Antes eu desenhava lá, agora desenho aqui. Chegaram os computadores e, por causa da técnica que eu já não domino tanto, comecei a me associar sempre com os mesmos, ex-alunos que trabalham com 3D. Eu fico aqui, fazendo maquete para vender projeto. Me divirto fazendo maquete. Eu passo a visitar os escritórios. Minha vida fica divertida assim. Tá vendo? Não nascemos para morrer, nascemos para continua.

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