Van Gogh

Abstinência de álcool agravou psicose de Van Gogh

Estudo feito por psiquiatras e neurologistas nos Países Baixos mostra que a bebida e a desnutrição acentuaram os transtornos mentais do pintor

Visitante observa autorretrato de Van Gogh no museu dedicado ao artista em Amsterdã, em 20 de janeiro deste ano.
Visitante observa autorretrato de Van Gogh no museu dedicado ao artista em Amsterdã, em 20 de janeiro deste ano.PIROSCHKA VAN DE WOUW / Reuters

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Vincent van Gogh pintava sem parar, comia tão mal que ficava desnutrido, fumava muito e dormia pouco, e sofreu episódios de psicose derivados do delirium tremens, a fase aguda da síndrome de abstinência do álcool. Ocorreu depois de cortar a própria orelha esquerda e ser internado em um sanatório, onde não podia beber. O frenesi no qual estava imerso deixou um famoso legado artístico, mas que literalmente lhe custou a vida, em 1890. Uma nova pesquisa sobre seu estado mental, feita por uma equipe de psiquiatras e neurologistas dos Países Baixos, mostra que, além dos surtos psicóticos, ele pode ter sofrido vários distúrbios com sintomas associados aos transtornos de personalidade borderline e bipolar. Todo isso exacerbado por seu alcoolismo e sua alimentação ruim. Publicado na revista International Journal of Bipolar Disorders, o estudo se apresenta como o mais amplo já feito sobre o assunto e relata que o estado do pintor se agravou, com momentos de depressão severa da qual não conseguiria se recuperar, o que explicaria seu suicídio.

Analisada com a perspectiva do tempo, a morte de Van Gogh foi lenta e visível a todos, e a amarração vital da pintura não foi capaz de evitá-la. Entretanto, suas aparentes oscilações – que o levou a ter bons amigos entre seus colegas, ao mesmo tempo em que rompia violentamente sua relação artística com o pintor francês Paul Gauguin, em 1888; a pintar sem freio durante dias, sustentado apenas pela bebida e o café; a se entregar com lucidez e carinho ao seu irmão, Theo, a quem escreveu centenas de cartas – escondia algo mais. Desde que se suicidou, na localidade francesa de Auvers-sur-Oise, proliferaram teorias sobre seu estado mental, e os médicos que o atenderam chegaram a várias conclusões. Felix Rey, de quem foi paciente em Arles (França) entre 1888 e 1889, diagnosticou uma “alienação transitiva” depois do corte da orelha. Jules Urpar, chefe de Rey, acrescentou “um ataque maníaco agudo com delírio generalizado”. Em Saint-Rémy, onde foi internado em 1889, o doutor Théophile Peyron falou de “ataques de epilepsia separados por intervalos longos”.

Para a nova análise, coordenada pelo psiquiatra holandês Willem A. Nolen, os pesquisadores do Hospital Universitário de Groningen entrevistaram três historiadores da arte especialistas em sua correspondência e consultaram os prontuários médicos da época. Revisaram também as cartas do pintor e consideram pouco provável que Vincent tivesse esquizofrenia. Tampouco porfiria, uma doença metabólica que provoca uma disfunção do sistema nervoso, ou neurosífilis, uma infecção bacteriana da medula espinhal ou do cérebro, ocorrida quando se teve a doença sexualmente transmissível sem tratamento durante anos, e que foi o que matou Theo. Não se convencem de que tenha se intoxicado com o monóxido de carbono dos lampiões a gás, e duvidam a respeito de uma possível epilepsia. “O mais provável é que Van Gogh sofresse de comorbidades [vários transtornos associados a um primário]. Desde sua juventude, deve ter desenvolvido traços de um distúrbio subjacente de limite da personalidade, junto com o bipolar. Agravada pelo álcool [bebia absinto, que pode ter até 70% de álcool], a desnutrição e tensões psicossociais, a crise resultante derivou em sua mutilação da orelha. Depois, pode ter sofrido delirium tremens pela abstinência forçada da bebida, por estar internado, e vários episódios depressivos severos com traços psicóticos”, diz Nolen por telefone. O artista se matou com um tiro em 29 de julho de 1890, aos 37 anos, “e embora acreditemos que teve problemas psicológicos desde a juventude, a diferença é que hoje dispomos de tratamentos que teriam facilitado sua existência”, continua. E depois acrescenta: “Suas relações com as mulheres foram complicadas e só vendeu um quadro em toda a sua vida, apesar do muito que pintou. Depois o alcoolismo agravou seus problemas mentais”.

Para os pesquisadores, o próprio Van Gogh não entendia o que lhe acontecia. Escreveu a Theo sobre “uma febre nervosa mental ou loucura, não sei bem como chamar”. Quando o pintor residia em Amsterdã, em 1877, escreveu: “Minha cabeça arde frequentemente e estou confuso e tenho um grande temor”. Também se descreveu como um homem capaz de cometer loucuras e depois se arrepender, que tinha “os amores mais impossíveis”, dos quais saía “envergonhado”. Nolen salienta que suas cartas não eram uma lista de sintomas destinada ao médico, e sim a parentes e amigos, “e é possível que minimizasse sua importância ou a suavizasse para não alarmá-los”. Em um autorretrato assinado em 1889, que pertence à coleção do Museu Nacional de Oslo (Noruega), Van Gogh acabava de adoecer e se mostra com a cabeça rapada e olhar de esguelha para o espectador. Os historiadores da arte acreditam que tentou refletir seu estado. Os pesquisadores resenham essa versão e concluem seu próprio estudo com estilo: “Queremos salientar que não só foi um pintor grande e influente, e sim um homem inteligente, com enormes doses de força, resistência e perseverança. Que só deixou de criar durante os episódios mais severos de psicose”. A desordem, apaixonada, de Van Gogh.

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