Karim Aïnouz faz ensaio poético sobre a espera de refugiados em novo filme

Diretor de ‘A vida invisível’ revela no documentário ‘Aeroporto Central THF’ as histórias de imigrantes no maior aeroporto alemão, cujos hangares viraram abrigos durante a crise migratória na Europa

Ibrahim Al-Hussein  e Qutaiba Nafea no aeroporto de Tempelhof, em Berlim.
Ibrahim Al-Hussein e Qutaiba Nafea no aeroporto de Tempelhof, em Berlim.Juan Sarmiento

Um exercício de espera. Um ensaio poético entre o hoje e o amanhã. Essa é a proposta de Aeroporto Central THF, documentário do cineasta cearense Karim Aïnouz, que estreou em plataformas streaming (disponível no Now, Vivo Play, Oi Play, Itunes, Google+, Filme Filme e Looke) devido à pandemia de coronavírus. Depois do êxito de A vida invisível, o diretor abre os hangares desativados do aeroporto Tempelhof, criado em 1923 em Berlim sob o jugo nazista —um marco da aviação e do poder do III Reich— e que converteu-se, entre 2015 e 2019 no maior abrigo de emergência para refugiados da Alemanha, com capacidade para até 7.000 pessoas. Algumas dessas histórias são reveladas no filme, laureado com o Prêmio da Anistia Internacional na Berlinale de 2018. Em especial as de Ibrahim Al-Hussein, um sírio de 18 anos que deixou para trás a guerra e a família, e de Qutaiba Nafea, iraquiano que sonha em retomar seu caminho na medicina.

Mas é o aeroporto, de fato, o personagem principal do documentário. Considerado uma das 20 maiores estruturas artificiais do mundo, Tempelhof foi um símbolo da grandeza nazista defendida por Adolf Hitler. Em maio de 2010, o antigo aeródromo tornou se o maior parque público de Berlim. “Me atraiu a ironia da história, um espaço construído para a guerra, para celebrar a supremacia nazista, recebendo refugiados da guerra no Oriente Médio”, conta o diretor ao EL PAÍS por telefone, em Berlim.

Aïnouz também queria fazer outro retrato de pessoas que, segundo ele, geralmente são estereotipadas. “As coberturas que eu via sobre a crise dos refugiados na Alemanha eram muito preconceituosas e me indignavam. Quis falar do tema de outra maneira. O Tempelhof fica perto da minha casa, então decidi contar o que está próximo”.

O diretor frequentou o local durante seis meses antes de começar o projeto, para observar, escutar e se aproximar das pessoas que viviam e trabalhavam no aeroporto. “No início, ninguém queria ser filmado, a instituição não queria que levássemos equipamento, nada. O meu contato era quase exclusivamente com os seguranças e assistentes sociais que trabalhavam lá”. Depois, ele conseguiu chegar às pessoas que tinham vontade de partilhar suas histórias, em uma narrativa construída a partir da passagem dos meses e das estações do ano, enquanto os refugiados ressignificam o lugar e suas próprias vidas.

As imagens são de crianças brincando em pistas de voo abandonadas e corredores improvisados, aulas de alemão, entrevistas e consultas médicas, em meio à incerteza sobre o futuro e a espera de um visto. O diretor e, com ele, o espectador, apenas observam. Não há entrevistas ou outras formas de intervenção, o que possibilita planos virtuosos de contemplação da geografia ao redor. É em meio a essa calma que a voz de Ibrahim surge como que para levar o espectador pela mão em um passeio não só por Tempelhof mas também pelas memórias de sua vida em uma fazenda num pequeno povoado da Síria e pela saudade de suas raízes.

“Achei estranho que fosse eu a contar a vida daquelas pessoas, então dei seis cadernos a cada uma para que eles escrevessem sua vida, e Ibrahim já tinha esse talento narrativo. Até fizemos uma primeira montagem sem a voz dele, mas faltava alguma coisa”, conta o diretor, estreante em documentários. Aeroporto Central THF não finca —pelo menos não diretamente— bandeiras e nem tem um ímpeto investigativo, mas sim toques poéticos nos planos e na montagem. Questionado sobre a falta de uma mensagem mais incisiva, Aïnouz é categórico: “o poético é incisivo. A esperança é a bandeira do filme.”

O diretor conta que desenvolveu uma relação de amizade com Ibrahim e Qutaiba e atualiza suas vidas para além do final do documentário: o jovem sírio é gerente de uma rede de cinemas e Qutaiba ainda não realizou seu sonho de ser médico. Ele casou, tem um filho e trabalha em uma empresa de tecnologia, com métrica e marketing.

O documentário dialoga com o momento atual, em que uma pandemia confinou um terço da humanidade em casa e suspendeu a humanidade em um estado de incerteza ante o futuro. “As pessoas, ali, estão vivendo uma situação em que não sabem o que vai ser do dia de amanhã. É dali para a frente. O filme, de certa forma, tem essa mensagem de paciência e serenidade, porque é uma espera à qual você não tem controle”, comenta Aïnouz.

O filme também é uma lembrança do sofrimento dos mais vulneráveis em meio à crise. “É importante ficar em casa para quem tem casa. Outro dia li um outdoor que dizia: ‘Em tempos de pandemia, os campos de refugiados são abrigos da morte’. E é verdade”, lamenta o cineasta.



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