Alexandria recupera o trono do conhecimento

A construção da biblioteca, promovida pela Unesco, revitalizou a vida cultural da cidade egípcia

Esplanada entre as instalações da Biblioteca de Alexandria (Egito).
Esplanada entre as instalações da Biblioteca de Alexandria (Egito).Frédéric Soltan / Getty

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A brisa mediterrânea lembra a Corniche (avenida à beira-mar) do seu esplendor milenar como farol do saber. E também da decadência cosmopolita do século passado, que deixou marca na literatura contemporânea. No mesmo passeio marítimo, a nova biblioteca de Alexandria, inaugurada em 2002 graças a uma campanha da Unesco com financiamento internacional, reviveu a vida cultural de uma cidade egípcia de alma grega. Com oito milhões de livros e 1,5 milhão de visitantes por ano, o complexo de salas de leitura, museus especializados, galerias de exposição e centros de convenções é o astro que irradia a revitalização do espírito da cidade. Ao seu redor, orbitam centros estrangeiros e iniciativas privadas.

“A biblioteca é um centro cultural que vai além do mundo do livro”, afirma Hussein Bassir, diretor do museu de antiguidades do complexo, entre uma coleção de papiros do Livro dos Mortos e mosaicos greco-romanos. “Muitas das peças expostas foram encontradas durante as obras de construção do edifício ou em águas do porto aqui perto. Em cinco minutos, é possível contemplar 5.000 anos de história”, diz este especialista em egiptologia formado com o ex-ministro de Antiguidades Zahi Hawass, que recentemente gerou uma controvérsia sobre a conservação do templo de Debod em Madri, um dos poucos monumentos arquitectônicos núbio-egípcios que podem ser vistos fora do país. Bassir acredita que a tumba perdida de Cleópatra deve estar perto da biblioteca, em algum lugar da enseada marinha, mas descarta que o legendário farol de Alexandria possa ser recuperado.

Distante do caráter desértico da capital, apesar da proximidade, Alexandria tem uma vida cotidiana que flui longe da tensão e do caos da megalópole do Nilo. Provinciana, embora rodeada do halo de história que ainda se desprende da primeira biblioteca, do século III antes de Cristo, incendiada, reconstruída e reduzida finalmente a escombros. Seu renascimento persegue hoje o mesmo objetivo: condensar o saber da humanidade.

Sob a clara luz da nave de arquitetura grega (hipostilo) com colunas papiriformes que acompanham o traçado do edifício – um disco solar inclinado –, a grandiosa sala de leitura (2.500 lugares) oferece a rara harmonia de mostrar as peças a um público da geração pós-Primavera Árabe numa estrutura de design nórdico, com as últimas tecnologias de documentação.

“Estamos avançando rumo à digitalização de todos os volumes da biblioteca”, explica Aiten Bashar, gerente de relações públicas. “Até agora já superamos 28% do índice de textos”, afirma, enquanto mostra na tela a reprodução das lâminas de um belo livro de gravuras da expedição de Napoleão ao Egito em 1798.

O museu de manuscritos e reproduções é o sancta sanctorum da nova biblioteca de Alexandria. Suas salas abrigam a única cópia conservada de um dos 700.000 rolos com textos culturais e científicos que faziam parte de sua coleção clássica.

Em seu catálogo figuram agora as obras do escritor britânico Lawrence Durrell, autor de O Quarteto de Alexandria, que descreve a atmosfera cosmopolita que precedeu a II Guerra Mundial, e Konstantínos Kaváfis, o autor greco-otomano que passou os últimos 25 anos de vida na cidade egípcia. Nas palavras de Mario Vargas-Llosa, o poeta de Ítaca criou com sua obra “outro mundo sobre o sedimento histórico” alexandrino.

A rua onde se ergue a casa que ele habitou – transformada num museu em sua memória – leva hoje seu nome. “O Egito está começando a descobrir Kafávis”, diz na velha construção Stavoula Spanudi, diretora da Fundação de Cultura Helênica de Alexandria. Ao seu lado, Salma Sultán, estudante de Medicina de 24 anos, fica surpresa ao conhecer o poeta que presumivelmente concebeu À Espera dos Bárbaros neste mesmo lugar. “Não estudamos sua obra em nossos livros de texto”, admite.

Também no centro histórico, num antigo palacete italiano, situa-se a sede local do Instituto Cervantes. Sua diretora, a jornalista e escritora Silvia Grijalba, constata o renascimento cultural que a nova biblioteca representou para Alexandria. “Ano passado, inauguramos a biblioteca Jaime Gil de Biedma em nosso centro”, afirma, “e nesta primavera pretendemos organizar um festival de poesia mediterrânea.”

Há apenas uma semana, a professora grega Stella Voutsa concluiu no mesmo palacete um ciclo cultural com seu estudo sobre o paralelismo entre Kaváfis e Gil de Biedma. “O hedonismo, a angústia pela passagem do tempo e a cidade como paisagem em suas respectivas poesias são alguns traços em comum”, resume esta hispanista doutorada em Salamanca. “Vim para reconstruir (...) essas províncias melancólicas que o velho [Kaváfis] via repletas das ‘ruínas sombrias’ de sua vida”, escreveu Durrell no prefácio de Justine, primeiro volume de sua tetralogia alexandrina, um quarto de século depois da morte do poeta.

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