Carnaval

O dragão rubro-amarelo que arrasta Olinda ladeira acima todo ano

Todos os anos, desde 1977, o bloco 'Eu Acho é Pouco’ sai nas ruas da cidade, numa ode à permanência dos rituais do Carnaval. “Mais da metade da minha vida eu passei ali”, conta fundador

O dragão do 'Eu Acho é Pouco' em desfile no dia 1 de fevereiro de 2020 em Olinda.
O dragão do 'Eu Acho é Pouco' em desfile no dia 1 de fevereiro de 2020 em Olinda.Célio Gouveia (CUSTOM_CREDIT)

No ano passado, Olinda, município com cerca de 390.000 habitantes, recebeu 3,4 milhões de pessoas durante o Carnaval. Uma multidão se espremeu pelas estreitas ladeiras da cidade histórica, pulando atrás dos blocos. Olhando de cima —e de baixo também— um mar de gente se mistura aos bonecos gigantes com os rostos de políticos e personalidades. Mas um outro personagem mítico se destaca nessa imensidão, onde tudo é ainda mais superlativo do que no resto do ano: um dragão amarelo e vermelho. Que nada tem a ver com o ano-novo chinês, exceto pelas cores da bandeira da China.

O famoso dragão é o símbolo do Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesco Eu Acho é Pouco. Criado em 1977, o bloco é hoje em um dos maiores de Olinda. Sem exageros. A agremiação tinge a cidade de vermelho e amarelo no sábado de Zé Pereira e na terça-feira gorda. Aos que nunca estiveram em Olinda no Carnaval, é tradição que os foliões se vistam com as cores dos blocos. E quase todo mundo segue essa regra. Carnaval não é só bagunça, afinal.

Sentado em um banco de madeira na casa de um dos filhos em Olinda, o arquiteto aposentado Ivaldevan Calheiros, 76, conta, com entusiasmo, a história da agremiação. “Antigamente só existiam dois blocos em Olinda: Pitombeira e Elefante. E eram blocos rivais”, lembra. “A violência era muito grande. Quando encontravam um com outro, era sapato, sombrinha, voava tudo”. Foi daí a ideia que ele e um grupo de amigos tiveram de criar seu próprio “bloquinho”. O diminutivo não foi uma questão de estilo ou editorial, são palavras do próprio fundador. Todo bloco, afinal, nasce como um bloquinho. Até mesmo no Estado mais megalomaníaco do país.

Primeiro, o “bloquinho” ainda meio sem nome, era referido como Morcego, em referência a um dos músicos da orquestra, que vestiam fantasia do bicho. Na sequência, virou Língua Ferina, nomeação que já apontava um pouco para o viés político que a agremiação ganharia. Pois, falando em política, foi justamente por meio de uma votação democrática que a maioria escolheu um dos nove nomes anotados em um pedaço de papel. “A origem do Eu Acho é Pouco não é revolucionária”, contou Ivaldevan, enquanto o bloco desfilava pelas ruas da cidade no pré-carnaval deste ano. “Tínhamos um grupo de amigos, arquitetos, advogados e engenheiros, e a gente precisava se divertir”. Simples assim.

Ele conta que até as cores do bloco - amarelo e vermelho, nada mais comunista - são mero acaso. “Foi Neide, uma amiga nossa, quem escolheu as cores. Ela era designer, então achou que vermelho e amarelo combinavam”, conta Sônia Calheiros, 70, esposa de Ivaldevan e que também participou da fundação da agremiação. “Mas há outras versões para essa história”, emenda Ivaldevan. “Na época, tinha um embaixador da Espanha que morava na rua São de Bento [uma das mais famosas por onde os blocos passam em Olinda]. Ele passou cinco anos pensando que as cores eram uma homenagem à queda de Franco”, diz. “Quando ele soube que não tinha nada a ver com isso, ele ficou frustradíssimo”.

Embora a história não seja “revolucionária”, os fundadores da agremiação eram muitos deles ligados à militância estudantil, em um período em que o Brasil ainda estava sob a ditadura militar. E esse viés de esquerda do bloco é levado para as ruas, pelos filhos e netos dos fundadores, até hoje. Não é raro encontrar foliões com bonés do MST na multidão, constituída em sua grande maioria pela classe média, ou a esquerda festiva, em sua essência.

A velha guarda

Além do nome, que no começo era outro, o famoso dragão símbolo do bloco também chegou depois. Inicialmente, era uma cobra que puxava os seguidores para as ruas. “Nosso vizinho tinha um trabalho com crianças da comunidade de Peixinhos [periferia de Olinda] e ele tinha uma cobra, e trouxe para o Carnaval. E todo mundo adorou”, conta Sônia. Quando a cobra se acabou, chegou o dragão, criado por um dos arquitetos-fundadores do bloco. “O dragão tem uma mobilidade muito grande”, diz Ivaldevan. “Mas estamos com dificuldade de consertar, porque é como se fosse uma obra de arte, é uma coisa muito pessoal, não é um dragão chinês.”

Enquanto o Carnaval de Salvador aguarda, anualmente, pelo hit que será o sucesso da temporada, em Olinda o que reina é a tradição. Além da quantidade de gente que o bloco recebe, que cresce todo ano, e a camiseta, que ganha uma estampa nova a cada Carnaval, o Eu Acho é Pouco é uma das maiores homenagens à permanência. O dragão, as cores e a boa música, tocada por horas a fio, num ritmo que só acaba a noite, estão nas ruas de Olinda por default. E todo ano é assim.

Alguns ajustes, é claro, são feitos. No ano passado, por exemplo, os organizadores mudaram o horário da saída do bloco no sábado, da tarde para a manhã, na tentativa de reduzir o número de pessoas. “Foi melhor, mas mesmo assim foi sufoco”, diz Sônia. Outra mudança de rumos foi em relação ao baile que era sempre realizado no pré-carnaval. “Fazíamos um baile e os ingressos eram vendidos por um aplicativo. Acabava que a velha guarda ficava de fora porque não conseguia comprar com essa tecnologia”, conta ela. “Aí montou-se uma lista da velha guarda para mandar o link por e-mail para eles comprarem, ou avisar os filhos que os ingresso estavam na bilheteria para a velha guarda ter acesso à festa”. No fim, o baile ficou grande demais e resolveram suspender a festa. “Ficou impossível porque os coxinhas eram os que mais usufruíam e começou a ficar muito grande. Ficou elitista”, conta Ivaldevan.

A polarização política também chegou ao bloco. O casal conta que, com o tempo, algumas pessoas que fizeram parte da fundação do bloco acabaram se afastando por questões políticas. “Foi no segundo turno da segunda eleição de Dilma [2014]”, diz Sônia. “A decisão foi muito apertada e nós saímos para as ruas apoiando ela. Foi nesse momento que tivemos que tomar uma decisão política e nem todo mundo concordou”.

De resto, a agremiação segue, há 43 anos, do mesmo jeito. “Mais da metade da minha vida eu passei no Eu Acho é Pouco”, conta Ivaldevan. Portanto, não se iluda com a presença do Galo da Madrugada em São Paulo neste ano. As chances do Eu Acho é Pouco desfilar fora de Olinda são, hoje, iguais a zero. “De jeito nenhum”, diz ele. Mas, ao final da entrevista, deixa uma dica. “São Paulo tem um bloco, que é minha filha uma das criadoras, chama Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Não tem as mesmas cores e nem o dragão, mas não deixa de ser um pedacinho do Eu Acho é Pouco em São Paulo”.