Pandemia de coronavírus

Não é o lugar, é o que acontece dentro: por que bares e restaurantes oferecem risco de contágio por covid-19

Locais fechados, onde as pessoas tiram a máscara para consumir, podem causar surtos, embora autoridades duvidem das evidências científicas. Estes 15 estudos explicam as razões para o perigo

Os bares e restaurantes da região de Múrcia, no sudeste da Espanha, que reabriram a parte interna na quarta-feira.
Os bares e restaurantes da região de Múrcia, no sudeste da Espanha, que reabriram a parte interna na quarta-feira.Juan Carlos Caval / EFE

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O secretário de Economia de Madri, Manuel Jiménez, disse há um mês ao EL PAÍS, sobre o fechamento de bares e restaurantes: “Posso dizer que não há provas científicas de que seja útil”. Dois dias depois, no País Basco, o Tribunal Superior de Justiça anulava a decisão do Governo local de fechar esses estabelecimentos: “Não aparece neste momento como um elemento de risco certo e grave para a saúde pública”. Um ano após o início da pandemia no mundo, o que a ciência sabe sobre bares e restaurantes e a covid-19?

O Centro Europeu de Controle de Doenças classifica bares e restaurantes como cenários de “alto risco” e propõe seu fechamento entre as medidas severas para lidar com as variantes mais contagiosas do vírus. Todos os países europeus restringiram esses estabelecimentos durante a pandemia. E o setor respondeu com protestos e reclamações.

Em novembro, quando o Departamento de Saúde da Cantábria, no norte da Espanha, anunciou o fechamento, o setor respondeu que, se eles fossem o problema, “os hospitais estariam cheios de garçons”. A então diretora-geral de Saúde Pública da região, Paloma Navas, respondeu com um dado: naquela época esse era o setor com as maiores baixas no trabalho por covid-19 em toda a comunidade autônoma, 844 em dois meses.

Um estudo realizado pela Saúde Pública do Reino Unido constatou que os trabalhadores de bares e restaurantes são a categoria profissional com maior risco de contágio, atrás apenas do pessoal da saúde. Da mesma forma, um estudo do Instituto Norueguês de Saúde Pública mostrou que a taxa de infecção entre garçons era o dobro da de outras profissões na época em que foram impostas restrições à venda de álcool para frear a propagação do vírus e, após três semanas, o nível estava igual ao das demais. “Nesta pandemia o nível de incerteza é alto, temos que agir com muita humildade porque não existem grandes verdades. Mas contamos com alguns dados”, afirma agora Navas.

Os noruegueses restringiram o acesso ao álcool porque atrapalha as boas intenções de cumprir as medidas. Na Escócia, os pesquisadores rastrearam o cumprimento das regras impostas nos bares e descobriram que todos os esforços se esfumaçavam quando o elemento-chave entrava em jogo: os clientes bêbados. Seu estudo relatou como eles repetidamente gritavam, se abraçavam ou interagiam de perto com outros frequentadores e funcionários. “Concluímos que, apesar dos esforços dos gerentes dos bares, persistiam os riscos de transmissão potencialmente significativos”, explicou a autora principal do trabalho, Niamh Fitzgerald.

Esse é um ponto importante: não é o lugar, é o que acontece lá dentro. Em uma mercearia, bem menor que um bar, os clientes não tiram as máscaras, não passam longos períodos com estranhos, não falam alto, emitindo partículas contagiosas em ambientes mal ventilados. “São coisas que às vezes escapam ao controle dos donos das instalações”, diz o epidemiologista Quique Bassat, do ISGlobal de Barcelona. Quando se pensava que a higiene era um fator mais decisivo, explica, viu-se que tinham mais a contribuir. “Muitos se adaptaram, mas ainda representam um risco inaceitável em algumas circunstâncias”, lamenta.

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Isso resume outro dos falsos dilemas vividos na gestão da pandemia. Não é uma coisa ou outra, restaurantes sim ou não. Navas afirma que o setor “nunca esteve a sete chaves” na Cantábria. Os interiores sim, mas as partes externas sempre ficaram abertas, e ali o risco é muito menor. “E nunca tivemos uma retomada grave da covid-19 como no País Basco ou nas Astúrias”, acrescenta. Para tomar essa decisão, Navas avaliou o plano de Nova York, que teve um verão exemplar fechando todas os espaços internos e levando toda a atividade para as ruas.

Por sua vez, o setor de bares e restaurantes insiste em que a evolução das infecções nas diferentes comunidades autônomas da Espanha é muito semelhante, independentemente da abertura ou fechamento desses estabelecimentos. “Não é um fator de contági, e restringir sua atividade não diminui a evolução da pandemia”, afirma a confederação empresarial. E acrescenta: “O caso é que algumas comunidades que não adotaram medidas de fechamento apresentam números mais animadores. Esses números reforçam a hipótese, ainda, de que o fechamento total dos bares e restaurantes pode favorecer os encontros sociais nas residências, espaços com risco muito maior de contágio”.

A revista Nature publicou em novembro um estudo, baseado na movimentação dos telefones de 100 milhões de norte-americanos, que alertava para o papel dos bares e restaurantes na transmissão do vírus. Os restaurantes são, segundo este estudo, os locais mais perigosos, até três ou quatro vezes mais do que as seguintes categorias de maior exposição: as academias, os bares e os hotéis. Eles deram um exemplo: reabrir totalmente os restaurantes de Chicago causaria 600.000 infecções adicionais em alguns meses. Os autores apostam no enfrentamento do problema, mas não no fechamento total: reduzir drasticamente a capacidade permitiria um equilíbrio.

Para adotar medidas no setor, Navas se baseou em outro estudo bastante citado, realizado nos Estados Unidos com o aval de seus Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Depois de investigar mais de 300 infectados, observou-se que eles tinham duas vezes mais probabilidade de ter jantado em um estabelecimento nos dias anteriores em comparação com as pessoas de um grupo de controle que não haviam sido infectadas. Quando o Instituto Pasteur fez um trabalho semelhante, a proporção de idas recentes a bares ou restaurantes entre os que testaram positivo para a covid-19 era quase o dobro da dos demais. E no Reino Unido, de acordo com um relatório governamental: “Comer fora foi a atividade relatada com mais frequência em 2 a 7 dias que precederam o início dos sintomas [entre os positivos]”. Uma primeira análise interna da Cantábria mostra que os contagiados tinham 3,7 vezes mais probabilidade de terem ido a bares e restaurantes nos dias prévios.

Bassat explica: “Pelo senso comum, pelo que sabemos de como se transmite este vírus, intuímos que o setor tem um papel importante porque é onde é mais complexo manter as medidas de proteção, embora não haja muitos dados sólidos porque a metodologia de vinculação dos casos não é fácil”. Um estudo recente, ainda preliminar, realizado por várias universidades dos EUA que acompanharam mais de 6.700 pessoas, indica as condições mais favoráveis para a propagação. O mais notável, como em tantos outros estudos, é o nível de superlotação na convivência. Mas fora de casa, os cientistas enfatizam que as políticas de saúde deveriam focar em jantar na parte interna de um restaurante ou bar, frequentar um local de culto, não usar máscara para fazer compras, ir a uma academia ou visitar pessoas em suas casas.

No setor de bares e restaurantes argumentam, com razão, que os percentuais de infecções atribuídas a eles neste momento são muito pequenos. Em geral, também estão incluídos no balaio de gatos dos surtos “sociais”, que incluem desde eventos familiares (alguns em bares ou restaurantes) até missas. Em Madri, os contágios sociais são o foco principal do pouco que o Governo local rastreia, embora as autoridades afirmem que ocorreram em ambiente familiar. O estudo francês atribui 12% das infecções ao setor, um outro, feito na capital dos EUA chega a 14%, um outro, do Japão, a 16% e nos Estados do Colorado e da Louisiana, até 20%.

Mas os fechamentos influenciam na evolução da pandemia? Milhares de elementos estão envolvidos em uma pandemia e é extremamente difícil vincular um único fator à sua evolução, especialmente quando muitas medidas são tomadas ao mesmo tempo. O Governo escocês observa, em um relatório, que três semanas após a abertura dos bares e restaurantes o ritmo de expansão da epidemia aumentou além do controlável. Uma análise de dados do The Washington Post mostrou que a taxa de contágios em diferentes Estados dobrou apenas três semanas após a abertura de bares e restaurantes.

Já em maio, foi publicado que o fechamento de bares, restaurantes e academias “levou a reduções significativas na taxa de crescimento de casos de covid-19 em todos os períodos após a sua implementação” nos Estados Unidos. A revista Science acaba de publicar um estudo baseado em decisões de 41 países que considera que os fechamentos de “negócios com alto risco de infecção, como bares, restaurantes e casas noturnas” foram eficazes e “podem ser uma opção promissora em algumas circunstâncias”, embora não tanto quanto outras medidas mais drásticas, como a suspensão de todo o sistema educacional ou a proibição de todas as reuniões sociais. Na revista Nature Human Behavior, após analisar 6.000 medições em 79 territórios, os cientistas concluíram que o maior impacto no ritmo de contágios é o cancelamento de situações que permitem encontros sociais em pequena escala: “Fechamentos de lojas, restaurantes, encontros de 50 pessoas ou menos, trabalho doméstico obrigatório etc.”

Além disso, como explica Bassat, o setor de bares e restaurantes tem um problema adicional: “Aumenta a taxa de contágio entre as pessoas que não convivem entre si”. Nesses locais, ao contrário das escolas, por exemplo, podem ocorrer mais infecções entre pessoas de lugares diferentes e difíceis de rastrear. E o que é pior, em uma pandemia que avança por causa de eventos supercontagiadores: o número de infectados em cada surto em bares e restaurantes é altíssimo. Segundo dados do Ministério da Saúde, nos surtos que ocorrem em reuniões familiares, em média, cerca de seis pessoas são infectadas. Em restaurantes e bares, são14 infectados por surto. Em discotecas e bares, cada surto causa 26 infecções.

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