Pandemia de coronavírus

Por que as crianças se infectam menos, contagiam menos e sofrem menos os efeitos da covid-19?

Pesquisas indicam uma resposta mais rápida e eficiente do sistema imunológico como a causa da menor incidência da pandemia entre os menores

Alunos do colégio López Ferreiro de Santiago de Compostela assistem às primeiras aulas em setembro.
Alunos do colégio López Ferreiro de Santiago de Compostela assistem às primeiras aulas em setembro.Óscar Corral

As crianças não são supercontagiosas da covid-19, nem se contaminam na mesma proporção que os adultos, nem, quando sofrem da doença, apresentam os mesmos efeitos devastadores que os mais velhos. Na maioria dos casos sequer dão positivo nos testes PCR, apesar de serem portadoras. Por quê? “A resposta não é simples e nem existe uma única razão, mas é evidente que é assim”, explica Jesús Rodríguez Baño, pesquisador e professor de Medicina da Universidade de Sevilha. Um artigo publicado na revista Nature analisa as causas da maior proteção das crianças.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), dos casos diagnosticados de covid-19, 1,2% corresponde a crianças menores de quatro anos; 2,5% a crianças entre quatro e 14 anos; e 9,6% a jovens de 15 a 24 anos. Pelo contrário, 64% das infecções detectadas ocorreram em pessoas entre 25 e 64 anos e pouco mais de 22% em pessoas com idade superior a esta última.

Uma das explicações para essa desproporção na incidência está, segundo Rodríguez Baño, na resposta inata do sistema imunológico. Com esse sistema de defesa se nasce e ele permite proteger o organismo das infecções. É a primeira linha de resposta do corpo a um patógeno. “É possível que no caso das crianças a resposta seja mais eficaz e rápida. Isso é muito importante para evitar a replicação viral inicial”, alerta o pesquisador. Uma única partícula viral SARS-CoV-2 pode fazer até 100.000 cópias de si mesma em apenas 24 horas.

A partir dessa primeira linha de defesa é gerada a imunidade adquirida, o que implica na produção de linfócitos de memória capazes de voltar a detectar a infecção passado o tempo e reativar os mecanismos de proteção. Nas pessoas mais velhas, entretanto, ocorre um efeito chamado imunossenescência, a deterioração progressiva do sistema com a idade. “Essa imunidade adquirida também é fundamental; é a gerada pela vacina. A inata é muito importante no início, mas a adquirida é quem conclui o trabalho”, simplifica Rodríguez Baño.A resposta rápida e eficaz do jovem sistema imunológico das crianças impede a replicação do vírus e pode explicar por que muitos deles dão negativo no teste PCR. Um artigo publicado na Nature Communications revela um caso particular que o demonstra: três crianças com menos de dez anos da mesma família desenvolveram anticorpos e duas delas apresentaram sintomas leves, mas nenhuma deu positivo no PCR depois de 11 testes em 28 dias. Pelo contrário, seus pais deram positivo desde o primeiro momento.

A sintomatologia leve é outro aspecto que os cientistas estão investigando. O estudo Kids Corona feito pelo Hospital Sant Joan de Déu, em Barcelona, com 411 famílias com um total de 724 meninos e meninas com pelo menos um dos pais com covid-19 mostrou que mais de 99% dos menores não apresentavam sintomas ou estes eram pouco relevantes. Enquanto 33,8% dos adultos nesse estudo tinham carga viral na nasofaringe um mês depois; isso só ocorreu em 11,9% das crianças.

A explicação, refletida em pesquisa publicada na Nature Immunology com 32 adultos e 47 menores de 18 anos, é que as crianças produzem anticorpos direcionados especialmente às proteínas das espículas do coronavírus, as que permitem a infecção e a replicação viral.

Outro motivo analisado para determinar a maior proteção das crianças na pandemia é a presença de menos receptores ACE2, uma proteína humana fundamental para a infecção por coronavírus. Um trabalho publicado na Science mostra como a espícula do patógeno usa a ACE2 para se encaixar na célula humana e introduzir seu material genético. A célula, que pode ser mais frágil nos adultos, segundo Rodríguez Baño, confunde o RNA viral com o próprio e facilita a replicação. “Por motivos que desconhecemos, já que medi-los não é fácil, as crianças têm menos receptores ACE2. Se você tiver 1.000 receptores, isso permite a infecção por parte de 1.000 vírus. Se tiver 10, as chances são menores”, exemplifica o pesquisador.

Uma última causa do escudo infantil pode ser a imunidade cruzada, aquela gerada por outros coronavírus menos agressivos e que tem uma incidência especial nas crianças. No entanto, Rodríguez Baño alerta que essa hipótese é muito controversa e não há dados conclusivos.

Em todo caso, há evidências da menor incidência de covid-19 entre as crianças, circunstância que dissipou os temores do regresso delas à escola, inicialmente percebido como um risco para a população. O recente estudo Covid Pediátrica na Catalunha mostrou que apenas 86 de 1.081 casos de pacientes pediátricos de covid-19 analisados entre 1º de junho e 31 de outubro transmitiram a infecção para o resto da família.

Outra pesquisa publicada esta semana na The Lancet Infectious Diseases reforça essa realidade. “As infecções e os surtos eram pouco frequentes em ambientes educacionais depois da reabertura das escolas após as férias de verão”, afirma Shamez Ladhani, um dos autores do estudo e médico de Saúde Pública na Inglaterra, cujos dados serviram para realizar o trabalho.

Os pesquisadores, depois da análise estatística, afirmam que os casos de covid-19 em escolares estiveram mais relacionados à taxa de contágio regional, ao tamanho e à densidade da população com quem convivem do que à sua atividade educacional.

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