Dominguetti reafirma pedido de propina em negociação de vacina, mas cai em descrença por áudio de deputado

Representante da Davati se torna alvo de desconfiança dos senadores que o acusam de ter sido ‘plantado’ na CPI da Pandemia após exibir áudio do deputado Luis Miranda (DEM-DF) insinuando contato com a empresa de medicamentos

Luiz Paulo Dominguetti, representante autônomo da Davati medicamentos, na sessão da CPI da pandemia nesta quinta-feira.
Luiz Paulo Dominguetti, representante autônomo da Davati medicamentos, na sessão da CPI da pandemia nesta quinta-feira.ADRIANO MACHADO (Reuters)

Luiz Paulo Dominguetti Pereira tornou-se um personagem central do dia para a noite depois de falar com todas as letras, numa entrevista publicada pelo jornal Folha de S. Paulo na última terça-feira, que o diretor de Logística de Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, lhe pediu propina de um dólar por vacina negociada. Em seu depoimento na CPI da Pandemia desta quinta-feira, repetiu a acusação assim que começou seu depoimento com todos os detalhes que já havia revelado à Folha enquanto representante autônomo da Davati Medical Supply, que teria a oferta de vacinas da AstraZeneca para o ministério. A proposta inicial da Davati era de 3,5 dólares e o lote disponível seria de 400 milhões de doses. “Nós temos que melhorar esse valor, para mais”, diz Dominguetti que ouviu de Roberto Dias. Seria a proposta de um dólar por dose.

Dominguetti mostrou-se bem intencionado nos primeiros momentos: “Vim relatar o que vivenciei aqui em Brasília durante um jantar e mostrar o procedimento”, disse ele. O jantar a que se referia foi no restaurante Vasto, num shopping de Brasília, na presença de dois servidores do ministério, no caso Roberto Dias e o tenente-coronel Marcelo Blanco, que foi assessor da Saúde até janeiro. A proposta corrupta partira de ambos, segundo ele. As acusações feitas pelo depoente já haviam derrubado Ferreira Dias na mesma terça-feira, quando o servidor foi exonerado pela pasta. Em nota, Dias nega ter feito a proposta de propina.

A presença de Dominguetti prometia avanços nas investigações da CPI, mas ao longo da sua fala ele acabou por tumultuar a sessão ao expor um áudio em que o deputado Luis Miranda (DEM-DF) supostamente trata de negociações de compra, insinuando que o parlamentar teria negociado com a Davati. O áudio com a voz de Miranda fala em clientes, venda, mas não menciona a palavra vacina. Dominguetti ainda sugeria que ele falava a palavra “irmão”, em possível alusão a Luis Ricardo Miranda, irmão do deputado, que atua no Ministério da Saúde ―os irmãos Miranda afirmaram na CPI que houve uma tentativa de desviar recursos públicos na compra de outra vacina, a indiana Covaxin. A surpresa com o áudio gerou tensão e o mal-estar entre os senadores foi imediato. “Jabuti não sobe em árvore”, disse o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), usando a expressão que caracteriza algo plantado propositalmente para mudar o rumo da prosa. Dominguetti explicou que recebeu o áudio de Christiano Alberto Carvalho, representante credenciado da Davati.

Houve gritaria até que o próprio deputado Luís Miranda foi consultado e descobriu-se que o tal áudio era de 2020 e havia sido editado. Se já era visto com desconfiança por governistas, pela acusação grave contra o ministério, a partir dali Dominguetti passou a ser visto como um infiltrado pelos senadores opositores do Governo. “Essa testemunha foi plantada aqui”, disse o senador Fabiano Contarato (Rede-ES), que pediu a prisão de Dominguetti. “Ele tem de sair preso daqui”, completou o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

O depoente não foi preso, mas teve seu celular apreendido. Omar Aziz procurou acalmar os ânimos, mas Dominguetti ficou claramente mais acuado. Os senadores Marcos Rogério (DEM-RO) e Luiz Carlos Heinz lembraram que ele se apresentou como representante de negócios na área de saúde para municípios em outros pontos do país. Rogério pesou a mão ao afirmar existir “picaratagem, maladragem de quem se coloca como atravessador”. Já Flavio Bolsonaro, filho primogênito do presidente, afirmou que o depoente havia tentado vender “terreno na Lua” e que a CPI queria “colocar o pai na mesma prateleira que Lula”, referindo-se a suspeitas de corrupção. Foi obrigado a recolocar a máscara no rosto durante sua fala.

O perfil no Facebook de Dominguetti e o celular apreendido mostram afinidade do depoente com algumas ideias bolsonaristas, e os senadores passaram a tratá-lo como um cavalo de Troia, alguém tentando desacreditar a CPI. Policial militar ainda na ativa em Minas Gerais, Dominguetti contou que era representante autônomo para venda de medicamentos como atividade para complementar rendas. “É uma operação organizada para desacreditar Luis Miranda”, disse à Globo News o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Com o áudio, Dominguetti acabou mudando o curso da sessão. Se a ideia era arrolar Miranda, pivô das acusações de irregularidades nas negociações da vacina indiana Covaxin, ele se tornou alvo de toda sorte de pergunta incômoda a partir dali. Deu brecha também para que os acusados se defendessem aumentando sobre ele o descrédito. Enquanto isso, o servidor Dias, acusado pelo PM, divulgou sua primeira nota: “É fato que no dia 25 de fevereiro fui jantar no restaurante Vasto (...), encontrando com lá com o ex-diretor de logística substituto, Coronel Marco Blanco (...) acompanhado do sr. Dominguetti”, diz Dias. Mas, afirma o diretor exonerado, “o tema propina, pedido de dinheiro, facilitação... NUNCA foi tratado a mesa ou em qualquer ambiente em que estive presente.”

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O depoimento de Dominguetti deixou, ainda, uma série de perguntas em aberto, a começar pela oferta em nome da AstraZeneca, que havia deixado claro não ter intermediário, uma vez que eles negociam diretamente com Governos. Também não conseguiu explicar por que levou o áudio do deputado se tinha um depoimento muito mais decisivo a fazer. O Governo, por sua vez, não explica por que exonerou Roberto Ferreira Dias se Dominguetti estava mentindo.

A clareza de suas acusações de Dominguetti na entrevista à Folha já gerava desconfianças sobre seu papel, especialmente porque a AstraZeneca informou que não tinha representantes locais. Mas a Davati Medical Supply confirmou que Dominguetti atua como vendedor autônomo do grupo. “Ele apenas intermediou a negociação da empresa com o Governo, apresentando o senhor Roberto Dias”, explicou a empresa em nota. “Sobre a denúncia relatada por Dominguetti, de que o Ministério da Saúde teria solicitado uma “comissão” para a aquisição das vacinas, a Davati afirma que não tem conhecimento.”

A empresa explica que “por iniciativa própria, contatou o Governo brasileiro para verificar se havia interesse” num lote de 400 milhões de doses da Astra Zeneca pois a empresa havia localizado um distribuidor que afirmou deter esse lote. “Este é um procedimento normal de negociação, praticado por todos os alocadores e distribuidores”, explicou. Essa é outra dúvida que fica em aberto. Como poderiam entregar a vacina se a AstraZeneca já não conseguia entregar em outros mercados com quem já tinha contratos?

A primeiro contato da Davati, subsidiária de Davati Group com sede no Texas, havia sido feito pelo representante credenciado do grupo, Christiano Alberto Carvalho, que esteve em fevereiro no Ministério da Saúde para tratar sobre a possível negociação, mas não teve evolução. “A empresa não recebeu retorno do Governo brasileiro com formalização do interesse ou perspectiva de fechamento do negócio”, diz. Foi então que Dominguetti fez a ponte para a venda.

A CPI será retomada na próxima terça-feira. Para o dia 8 de julho, está previsto o depoimento de Ricardo Barros (PP-PR), líder do Governo na Câmara, citado por Jair Bolsonaro como envolvido no “rolo” da Covaxin, segundo Luis Miranda. Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde acusado de ter feito a proposta de propina, também falará aos senadores.

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